08 setembro 2012

HILDA

Chovia quando o caminhão chegou trazendo a mudança daqueles polacos. Se não eram polacos que fossem dinamarqueses, ou noruegueses, ou então de outra Escandinávia qualquer, onde todo mundo tinha olhos azuis e cabelos cor de fogo. Hilda era a moça da família que veio morar na fazenda, em frente ao nosso sítio. Um par de olho azul, azulado, azulão. Seus olhos assim, de cima pra baixo - ela era bem maior que eu, até chegava a confundir com o céu sem nuvens. O corpo cheio de ferrugem. Passado uns tempos sua pele foi perdendo o brancor até ficar tostada. E a ferrugem terminou parecida mesmo com paçoca de amendoim com rapadura. O pai pegava o amendoim, dizia 'achega' e todo mundo chegava para tirar as cascas e tacar no mato. Aí era vez de botar os amendoins cascados no forno. Torrava pouco, só por amor de tirar a pele vermelha, deixando os caroços limpos num tacho. Então pegava o moedor, socava amendoim dentro. Não moia muito fininho não! Moia médio, mais triturado fino que moído grosso e ia caindo óleo e tudo numa panela. Acabava que a moagem pra dentro da panela livrava o tacho. Com ele vazio o pai pegava duas rapaduras de engenho, feitas no sítio da Fióta, uma negra que ficava mais preta ainda quando estava emparelhada com a mãe da Hilda - e as duas postas juntas era uma coisa bonita de ser vista. Mostrava as diversidades da natureza, me fazia pensar que cada uma tinha sido formada para sustentar vida numa parte diferente do mundo. A mãe da Hilda atropelava as palavras pra dizer que lá de onde ela vinha tinha muito frio, muita umidade! Eu guardava pra mim se não era por isso que a família inteira tinha enferrujado. A Fióta não, ela tinha uma fala mansa, arrastada, de quem recordava as imagens que o cérebro transformava em palavras. Atiçava preguiça na gente ouvir a velha contando das terras de suas origens, que ficavam lá pras bandas de onde o calorão só não queimava a alma. No final deu que as duas, cada uma do seu jeito e com sua história, não ficaram onde tinham sido feitas pra povoar e vieram completar o povoado do Triângulo Mineiro, que tinha sol de sobra, capaz de chamuscar até pedaço da alma e também um tiquinho de frio pra tiritar os dentes, ia da época do ano. Mas deixa eu voltar pro assunto da paçoca... As rapaduras compradas, ou trocadas por algum frango, eram colocadas em cima da mesa feita de tora, que mesa de trabalhos na cozinha não podia ser fraca não, e então o pai pegava o facão, colocava meio de chanfra na quina da rapadura e batia com o cotoco de caibro. O facão entrava na rapadura tirando lascas fininhas, que iam quebrando parecendo tijolo ralado. Depois de muito cotoco batido no facão chanfrado, ficava uma monteira de rapadura lascada dentro do tacho. Nessa hora o pai deixava a gente comer umas iscas. Não muito, que era pra não faltar doce na paçoca, mas deixava. Depois botava o tacho na trempa maior do fogão de lenha e as raspas iam se derretendo todinhas, virando um melaço que a gente nem podia chegar perto. O pai danava, dizia 'arreda' e a gente arredava! Quem dizia ‘arreda’ era meu avô, depois que ele morreu o pai ficou com o costume de tirar as crianças pra longe só dizendo arreda. Então tenho pra mim que a gente se arredava pra longe mais por costume. E ficava de longe esticando os olhos pra dentro do tacho, lambendo os beiços, morrendo de vontade de queimar a língua naquele doçal todo. O pai pegava a panela de amendoim triturado fino, despejava tudo no meio do melaço e ia misturamexendo até virar uma pasta cheirosa, pedindo pra gente meter o dedo ali e experimentar o gosto. Só não metia o dedo porque o pai dizia 'arreda' toda hora e ninguém era besta de não obedecer. Mas a gente desarredava aos poucos, meio pé de cada vez e logo já estavam todos em volta do tacho outra vez. Os maiores atrás dos menores, porque se o pai injuriasse e desse um pescoção pegava nos primeiros. ARREDA! Arredava todo mundo deixando espaço pro pai tirar o tacho, segurando com pano nas alças pra não queimar as mãos. A mesa de tora rangia com o peso do tacho borbulhando docegrude, mas aguentava! Nisso o pai já tinha preparado, na outra banda da mesa, a pedra de granito arrodeada de ripas pregadas uma nas outras, formando um quadrado. Ele despejava o doçal mole em riba da pedra e ia espalharrumando pra ficar retinho. A gente ficava raspando o tacho com pedaços de taboca, os maiores na frente, tirando restinhos de doce quente e botando pra derreter na língua. Depois que terminava de misturarrumar o doce, papai cobria tudo com um pano saca de farinha, branquinho, molhado, pra ajudar a esfriar e endurecer a paçoca sem escapar cheiro. Então dizia 'arreda' mais uma vez e se ia pra lavar o tacho e a colher de pau. A pedra coberta com pano de saca ficava bom tempo ali esfriadurecendo. As vezes dormia ali. Depois vinha o pai com o facão, tirava a saca branca de cima e começava a cortar o endurecido em quadrados miúdos. Mais meio tempinho de espera e todo mundo já podia alimentar a solitária. O pai sorria enquanto o resto da família só ficava mastigando a paçoca. Pra mim, a cor da paçoca era igualzinha da cor que a ferrugem da Hilda ficou após queimar no sol de Minas.


Eu ficava olhando aqueles ombros da Hilda, na cor de paçoca do pai, e dava uma vontade de botar a língua ali e experimentar o gosto. Não dava vontade de morder não, só mesmo de botar a língua e sentir se era doce. Um dia falei pra Hilda que assim, do pescoço passando pelo ombro inteirinho até a curva do braço dela, tinha cor de paçoca do pai e que eu ficava com vontade de botar a língua ali pra sentir o gosto. A Sueca ficou me olhando com os dois olhos azuis muito abertos, tentando compreender exatamente o que eu estava dizendo. Eu era moleque ainda, mas já bolinava com minhas intimidades, também já tinha esse jeito de controlar os nervos e dizer as coisas que estou pensando, mas escondendo as malícias lá no fundo, bem detrás dos olhos, de um jeito que as mulheres ficam olhando dentro dos meus olhos e só enxergam sinceridade mesmo - que é a única coisa que existe pra ser vista! Então Hilda olhou lá dentro dos meus olhos e viu que eu estava mesmo só com vontade de experimentar o gosto do ombro cor de paçoca do pai. Daí que ela deve ter ficado com vontade de me deixar experimentar... Penso isso porque ela pegou minha mão e me levou pra dentro do paiol, arredou a alça da blusa e ofereceu aquela paçoqueira toda, que ia do pescoço até a dobra do ombro. Eu botei a língua lá e não tinha gosto de paçoca do pai não, mas tinha um gosto bom, morno que só raspa do tacho na ponta da taboquinha. Eu fiquei botando a língua no ombro dela e segurando os nervos pra não perder o controle das malícias, que perigava elas escaparem de detrás dos olhos pra vir bambear as pernas. A bem da verdade, meus joelhos falsearam! Tremelicaram um bocadinho quase me traindo pra Hilda... Num é que ela nem botava reparo nas minhas ansiedades? Cerrou as pálpebras, apagando os olhos azuis e ficou dando uns gemidinhos meio suspirado, meio gemido mesmo, dum jeito que aquilo foi me esquentando por dentro - igual quando eu me bolinava as partes, e fazendo crescer a vontade de ficar com a língua na paçoca dela. Hilda desceu a blusa um pouco mais, deixando aparecer a pele que o sol ainda não tinha queimado e era só ferrugem, esparramada inteirinha até onde começava o peito dela - uma coisa bonita de ser ver. Então ela me empurrou a cabeça para que a língualambenta saísse da paçoca e fosse pros lados das ferrugens. Eu levei a língua lá e fui descendo, descendo, sempre com a mão dela me obrigando a dar língualambidas mais pra baixo. Daí que apareceu o bico do peito dela, parecia uma amora, só que mais pra amorinha encruada, daquelas que não desenvolve e fica piquitinha no galho, quase madurando, uma parte branca e outra vermelha desbotada. Era uma amorinha boa de botar a boca! Nem era azedinha como de costume são as amoras ainda desbotadas. Eu lingualinguando a ferrugem do seio, nem percebi quando a blusa da Hilda desceu até o umbigo. Quando dei por mim a mão dela estava empurrando minha cabeça, pedindo pra língua ir lingualamber lá onde começava a saia. Eu fui botando a língua ali, assim, arrodeando o umbigo enferrujado dela e Hilda já estava era levantando a saia, atrapalhando meu lingualinguar. As pernas da moça eram torudas, grossas e inteirinha enferrujadas também, mas nem deu tempo de reparar muito que a moça empurrou minha cabeça e lá foi eu, botando a boca entre as coxas dela. Daí que encontrei as partes femininas, que eu nunca tinha visto ainda, toda rodeada de pelos. Não era uma coisa bonita de se ver não! Mas não refuguei. Só dei uma estancada por amor de acostumar com a visagem e também me apresentar de boa educação pras intimidades dela. Mas Hilda não quis saber de afabilidades, empurrou e mandou, de voz bem mandada, que eu botasse a língua lá dentro. Eu nem sabia onde exatamente tinha que tirar o gosto daquilo com a língua, mas obedeci. Fui linguando no meio da ruivagem, lingualinguando as intimidades, lingualambendo as partes todas até que Hilda me espremeu as orelhas entre as duas toras enferrujadas, deu um suspiro do tamanho do mundo, arqueou as ancas pra riba levantando junto minha cabeça, prensada dentro das coxas. Foi nessa hora que minha língua sentiu um sabor de cândida doce entrando pela boca e descendo goela abaixo. Pego de surpresa, só me faltou engasgar, mas não era gosto ruim não! Foi gosto do bom. De verdade nem era doce, porém achei melhor que isca das rapaduras do pai. A escandinava desfalecida na palha do milho, nem percebeu que eu desconhecia os procedimentos posteriores. Sucedeu que depois desse dia, sempre que a Hilda me pegava campeando sozinho perguntava se eu queria botar língua na paçoca dela. Era eu responder que sim pra ruiva cuidar em volta. Se acercava que não tinha viva alma perto do paiol e me puxava pra lá.

13 julho 2012

UMA ADAGA NO VÃO DA PUPILA

 

“Não é o mais forte que sobrevive,
nem o mais inteligente,
mas o que melhor se adapta às mudanças.”
- Charles Darwin

Eu vejo um velho no espelho, um velho interno, dentro de mim. Consigo enxerga-lo pelo vão de pupilas cansadas das intempéries da vida. Esse velho sobreviveu a várias rotações em torno do sol e a milhares de translações sobre si mesmo, morreu tantas vezes que só ele pode dizer quantas. E todas as mortes foram iguais. Ferido por uma adaga. Por isso, ele se obriga a ostentar essa aparência de forte, apesar de não ser nem mesmo inteligente.

O velho não sou eu. É a alma que agora me habita. Eu digo agora, porque já foram tantas, a julgar verdadeiros os presentes que amigos, familiares ou desafetos, em algum momento me ofertaram. A primeira pessoa a me presentar uma alma, foi minha avó materna. Deu para mim uma alma boa. Eu ficava procurando por essa alma em mim, mas não sabia ainda que deveria olhar no vão das pupilas. Essa foi sucedida pela alma de artista, presente de uma professora no primário. Depois minha vida ganhou um espírito cigano... esse eu matei e durante bom tempo me habitou um espírito empreendedor. Espíritos brincalhões são presentes constantes, coisas de amigos mais queridos. Até mesmo um espírito de porco me habitou, era tão perfeito que cometeu suicídio. Agora me habita esse espírito velho! Ele está inquieto e por isso veio espiar comigo seu reflexo no espelho. Eu me pergunto se já houve em mim espírito mais belo que ele. Depois me calo, quero dizer, paro de pensar para que o velho não saiba que já me habitaram tantos espíritos inquietos que nem sei dizer qual foi mais belo. Porque a beleza do espírito está na inquietude. Exatamente por isso tenho essa mania de assassinar espíritos domados. Cada vez que o vão das pupilas revela a quietude morna de um espírito calmo, eu lanço uma adaga e firo de morte a alma sedentária que em mim habita. Na morte desta, nasce uma nova inquietude e vou me renovando indefinidamente. Mas este último não se aquieta, o que me fez desconfiar que fosse o mesmo, velho e único espírito que já tive. Ele está adaptado a mim e nunca morreu de verdade. Aprendeu a ludibriar minhas adagas, ou a mentir que elas feriam. Decerto riu todas as vezes que pensei tê-lo matado... E se morreu alguma vez, ressuscitou. Sua inquietude, agora, vem da falta de adagas arremessadas. Há muito não o firo - desde que a sinceridade de todas as mortes se tornou duvidosa, e isso deve incomodá-lo mais que a mim.

Esse velho é realmente o mais belo, admito num pensamento dentro de outro pensamento que está escondido num terceiro para borrar a resposta a minha pergunta. Sim, essa minha alma é bela em suas inquietudes e atuações dramáticas de falsa-morte! Porém, rir todas as vezes antes de morrer não foi inteligente, já que eu posso feri-la de fato. E para isso nem preciso ser forte... Só preciso cerrar os olhos, fechar o vão das pupilas.

12 julho 2012

POSTIGO NUM DESAMOR QUALQUER

Antes, eu era capaz de expressar em letras os meus desertos e suas dunas imensas, hospedeiras de pequenos oásis. Ontem eu conseguia revelar as florestas tropicais em mim, onde arbustos e velhas árvores abrigavam pequenas clareiras de folhas velhas, decompostas e úmidas. Discorria sobre veredas que conduziam a penhascos suicidas, de onde eu atirava torrões de terras num rio caudaloso. Com palavras eu podia dizer desse meu lago interno, profundo, sereno, frio. Dizer das cachoeiras, das vertigens, dos céus em minha mente ou dos abismos em meu peito. Podia ainda abrir um postigo e mostrar o que havia de grandioso, fulgurante e solitário em mim. Sim, em algum momento, já mostrei a você o astro amarelo aquecendo areias de uma praia vazia, onde pés descalços imprimiam rastros da fome que ardia em meus olhos. Com a escrita eu poderia mostrar meu coração, sangrando numa bandeja de prata, posta sobre pedra escura, sendo oferecido ao ser alado.

Vê? Agora, já não é preciso lápis, papel, palavras. Tuas memórias conseguem reproduzir tudo que havia em mim... E tu vês o voo rasante sobre minhas copas. Ouves o som das ondas. Ainda sentes a quentura da areia grossa, quase pedras que ferem, lancinam e onde estou quedo, desfalecido, qual moribundo sereno, fendendo em duas metades. Se estranhas teus próprios sentidos, e se aproximas, pela brecha no meu peito um espelho te revela, escancara tua face de vampiro consumindo meus desertos, florestas, rios, lago, pés, olhos e coração... Meu coração!? Este já não pulsa. Jaz dilacerado entre teus dentes e em pequenas fibras sangrentas. Então compreendes porque não posso mais revelar as paisagens em mim.

10 março 2012

FRANCO


Chuva na janela é convite para se molhar. Dois terços da classe eram mulheres e seis delas homônimos. Para não confundir, a chamada era pelo sobrenome: Franco? - que me passava sensação de veleiro branco num horizonte de tempestades - Presente! Na penúltima fila, tapando parte do quadro com seus cachos. Não incomodava! Eu gostava de assistir o ir e vir dos seus cabelos, cada vez que ela se ajeitava na cadeira a minha frente. Mar castanho encapelado.

Era um céu carregado, de nuvens suspensas. Vento ponteiro. Na primeira semana foi pura agonia. Vontades, timidez, disfarces. Queria mais que dizer oi no início da aula e tchau no final. Arquitetava desculpas sonsas, mirabolantes abordagens até que, finalmente, no início da segunda semana, me veio alguma coragem. Pedi uma caneta emprestada. Devolvi sem nem soltar o obrigado que ficou engasgado, troncho, sufocando o discurso premeditado. Franco nem tchuns! Inocente do encanto que sua nuca me acendia, ela continuou seu ritual de fim de aula. Guardou livros, guardou cadernos, lápis e guardou também a caneta devolvida. Percebeu meus olhos fixos nela e me sorriu, como quem se obriga a ser gentil, depois fechou a bolsa, ajeitou a mecha de cabelos atrás da orelha e se foi. Velas infladas, vento de feição. Tchau.

A tempestade tragando ventos, águas gritando nas venezianas e escorrendo pelos vidros. No final do bimestre a camaradagem dava licença para algumas ousadias, sentei ao lado dela na lanchonete e ajeitei sua mecha atrás da orelha, como ela sempre fazia. Franco - talvez incomodada, talvez não confiando na minha competência, talvez para deixar claro que ajeitar seus cabelos era tarefa exclusiva, talvez repetindo porque era hábito - ajeitou a mecha que eu havia arrumado e ficou calada. No final do intervalo não me esperou, voltou para a aula me deixando um sentimento de vento escasso, de barco à deriva.

Chuva intensa, temporal na grama, vento e granizo. Numa aula qualquer - talvez economia, Franco se vira, ajeita os cabelos atrás da orelha e pede minha opinião sobre algo que nem lembro. Soltei duas palavras; "não sei" e emendei a pergunta que estava entalada. Não. Ela não estava brava, nem ofendida, nem magoada, nem triste. Não estava! Só guardava uma estranheza, uma emoção inusitada de eu lhe arrumar os cabelos assim, do nada. Prazer ou incômodo? - perguntei com receio. Acho que gostei – me respondeu e os olhos brilharam afastando um cinza sinistro.

Meu coração em vórtice. Vento bóreas, um gigante das vagas, depois era noto. Fim da aula. Fim do oceano nos separando. Peito aberto num abraço amigo... e não houve tchau. Ela se foi. Simplesmente vento aparente até sumir pela porta. Fiquei sozinho, tremor nas mãos, sentimento frouxo de menino tomando garoa. Também fiquei mais próximo, mais íntimo, mais eu e ela. Nos inícios de aulas passamos a trocar beijinhos, no rosto, sem dizer oi. Nos intervalos falávamos da vida, do universo e de nós. Na saída outros beijinhos e um tchau. A tarde nos encontrávamos para o trabalho escolar, um cinema, um teatro, um shopping, um sorvete, um qualquer coisa e também para falar da vida e tudo mais. A timidez foi embora de vez. Mas veio uma vontade cada vez mais intensa de ficar com ela, abraçar, fazer carinho, contar estrelas. Mas e coragem? Franco parecia que também queria, mas no portão, no limite do tchau, apenas ajeitava os cabelos atrás da orelha e ia. Vento em popa. No horizonte tempestades.

Chuva noturna, tromba d'água de dia. Eu me molhando inteiro a cada convite que a tempestade fazia. Franco se distraia num súbito de me fazer feliz e eu brincava de dizer que estava encantado. Não queria que fosse brincadeira, queria era retribuir, lhe beijar a ponta do nariz, pegar sua mão, andar de braço dado, ficar paradinho... de rosto colado. Não era apenas vontades de cama... Bem, era sim! - desejo imenso de permanecer junto dela e descobrir segredos da nau ancorada. Ela sabia, sei que sabia, mesmo assim desfraldava a polaca e se ia, entre tormentas e sombras. Às vezes ficava e falava da vida, do universo... Noutras apenas ajeitava os cabelos atrás da orelha. Decerto ela me via poita, somente um amparo na imensidão dos oceanos. Eu queria ser porto.

Antes que cessassem as tempestades já era tempo de diplomas e cada qual foi para um lado, Franco num vento travessão e eu seguindo o ribombar d'alguma trovoada. Não soubemos nos seduzir. Agora que o sentimento é uma brisa de lenços brancos acenados em despedidas, percebo o que era tão óbvio - infortúnio cego. Eu era calmaria... Franco, temporal.

17 fevereiro 2012

IMENSIDÃO

Eu queria começar esse texto dizendo que estou sentindo falta de um homem. Mas isso poderia suscitar pensamentos maliciosos no meu leitor. Não tenho nada que antecipar o assunto pra dar satisfações, mas também não posso simplesmente deixar que abandonem a leitura no primeiro parágrafo pensando que eu estou saindo do armário. Não, eu não estou dentro de armário algum e espero que não estejam ávidos por revelações que nem existem.

Estou apenas sentindo saudade dos homens da minha vida.

Minha filha agora tem aulas de natação toda semana. Dia desses estava ajudando-a no ritual de vestir maiô, touca, óculos, pegar toalha, roupão, chinelo, eteceteras e ela quis saber se eu tivera aulas de natação quando menino. Respondi que não. Sem pensar. Depois pensei que tivera sim, uma aula apenas.

Meu avô paterno percebeu meu receio ao entrar no córrego, perguntou se eu sabia nadar e, diante da negativa, disse que nem precisava aprender. Bastaria eu engolir um lambari vivo para nadar feito peixe. Era um dos homens de minha vida, não tinha porque duvidar. Pegamos um pobrezinho e não me lembro de ter feito caretas enquanto o engolia, sem mastigar. Nem bem fechei a boca já fui atirado por meu avô no lado fundo do córrego. Ele era um homem enorme, forte, e falava grosso, rouco. No meio do espanto ouvia seus rugidos ordenando que eu batesse braços e pernas. Não sei se foi por necessidade ou por medo de desobedecer a ordem. Sei que, após engolir alguns goles de água, eu me vi na margem salvadora. Procurei meu avô e ele não estava onde eu pensei que estaria, levei o maior susto quando percebi que ele estava dentro d'água. Compreendi que entrou na água, completamente vestido, para me salvar caso eu não conseguisse nadar. Eu consegui. Nunca mais parei.

As lições eram assim, às vezes rudes, noutras não. Meu pai me ensinou a jamais maltratar um animal doméstico. Meu tio ensinou a empinar pipas e outro tio, este materno, teve paciência para me ensinar a desenhar e depois a conquistar meninas com minhas habilidades artísticas. No padrão da época todos me diziam a mesma coisa, nunca levar desaforos para casa, mas numa briga jamais bater em quem estivesse caído. Estes foram homens de grande importância em minha vida, e eram assim, unidos. Todos, sempre juntos, protegendo suas crianças. Uns mais sisudos, feito meu pai, outros mais moleques, feito o tio materno. Meu avô era um misto de todos eles, as vezes interrompia uma brincadeira do nada e se insistíssemos dizia rude: arreda! Ai a brincadeira parava em definitivo. Meus homens. Cada qual me proporcionou uma estreia na vida, um primeiro passo rumo a me tornar o homem que sou.

Meu avô ainda me deu uma ultima lição. Foi com ele que aprendi a dizer adeus para sempre. Depois, um a um, todos se foram e eu sinto saudades.

Herdei traços físicos e de personalidade. Herdei também a obrigação de indicar o bom caminho aos meus filhos, aos sobrinhos. Sinto-me responsável em transmitir tudo que aprendi com os homens de minha vida. Sinto-me guardião de cada criança da família e, muitas vezes, tenho a impressão que estou parecido com o meu avô.

Devo reconhecer que tenho muito mais que gostaria do jeitão do meu pai. Sou agora um homem feito, meu filho é um homem!, poderia dizer que já tenho idade para ser avô. Porém, a verdade é que eu sou apenas o filho mais velho, o tio mais velho, o pai.... É assustador para quem se sente tão só com inúmeras perguntas ainda não respondidas. Mais do que nunca, sinto falta de meu pai, do meu avô, ou um de meus tios. Sinto falta de pelo menos um desses homens ao meu lado.

Era isso, só isso que eu queria dizer, leitor. E creia-me, é muito difícil para um homem expor suas imensidões.

14 fevereiro 2012

INSUSTENTÁVEL


Justine. Esse é o nome que imagino para ela, a mulher que eu amo e sonho encontrar uma noite qualquer, talvez em Paris, quem sabe em Itaquera. Após La Nouba, no Cirque du Soleil ou num show desses que vendem ingresso pela metade do preço e anunciam seus horários em muros de periferia, caminho de ônibus e vans circulares repletas de público cansado de horas extras.

Justine ou Carine. Carine... Essa mulher teria um dom, um poder ou talento especial que a tornaria única no mundo inteiro. Talvez fosse pianista, bailarina, poetisa ou cozinheira. Ela me encantaria pelos olhos grandes, castanhos ou esverdeados. Quando sorri aparecem duas marcas de expressão nos cantos dos lábios e uns dentes corretos. Os cabelos são lisos, castanhos claros, curtos. Em cada uma das orelhas tem apenas um furo com um brinco de argola. Douradas. Ela sorri quando me vê e seus olhos parecem que fecham, posso apostar que é puro contentamento. Alegria com um misto de ansiedade desfeita e coração calmo de me ver inteiro, salvo, livre, ao alcance de suas mãos, abraços, beijos. Ela fecha completamente os olhos quando percebe que vou beijá-la. Aline é o nome dela.

Aline é melhor que Justine ou Carine, sim, ela se chamaria Aline. Ela diria, olhando em meus olhos, que jamais teria coragem de me deixar. E eu diria que seu nome é doce de ser pronunciado através de minha boca. Diria isso porque sou péssimo para retribuir demonstrações de amor, porque não sou romântico, porque diante dela eu não teria boas palavras para dizer. Talvez eu respondesse apenas seu nome.

A-li-ne! Eu diria separando as sílabas, a mão correndo por seu corpo enlaçando sua cintura. Ou então o ar sairia quente dos pulmões e a língua explodiria duplamente, uma no céu da boca e outra nos dentes, deixando escapar seu nome, A-LI-NE... E seria meu último sussurro antes de segurar mansamente sua nuca e pousar meus lábios nos seus, desfazendo o sorriso grande de dentes corretos.

Sons de violinos escapam de algum lugar indeterminado, ou seria novamente minha imaginação pregando peças? Aline existe apenas na minha mente cansada de horas extras. Uma mulher como ela não é possível e a realidade é que estou sozinho, me protegendo da garoa, esperando ônibus. Apenas isso.

Não, tem mais alguma coisa! Do outro lado da rua, um cartaz colado no muro anuncia uma peça. METADE DO PREÇO! A oferta está em letras garrafais, ganhando maior destaque que o nome da atriz principal. Marlene é o nome dela. O sobrenome foi rasgado, arrancado junto com o resto do cartaz. Algum insensível... atualmente as pessoas estão menos românticas. Eu sussurro parte do seu nome: Le-ne. Eu posso jurar que são dois estalos com a língua, um súbito e outro ricocheteando gentil no céu da boca... E se faz silêncio!

Ainda não me arrisco a repetir seu nome em voz alta.

11 fevereiro 2012

FAMÍLIA DE NOVELA


Eu soube assim que o telefone tocou. A campainha toca igual todas as vezes, mas algum alarme interno zumbiu junto com o alarme do telefone. Alguém pode dizer que é alma do ente querido passando para se despedir da alma que habita o nosso corpo... mas eu não acredito em nada disso! É besteira! Eu soube porque ninguém liga na casa dos outros após a meia noite, para dar notícia boa, pra dizer que ganhou na megasena acumulada.

Meu irmão estava bonito. Eu nunca tinha visto ele tão bonito assim. Por mais estranho que possa parecer, ele estava com as mesmas feições de quando eu esmurrei a cara dele por causa de algumas pipocas. Sim, pipocas, dessas de milho estourado! Eu estourei a cara dele... mentira, foi só um soco no nariz, que ficou sangrando e a mãe colocou um chumaço de algodão pra estancar a hemorragia. Nem quebrou. Ele quis que eu dividisse minhas pipocas com ele, quando recusei deu um tapa em minha mão. As pipocas se espalharam pelo chão e eu juntei meus dedos, fechei a mão e dei a porrada. Deve ser o chumaço de algodão no nariz que me fez lembrar desse episódio.

Minha cunhada chorou. Choro de mentirinha! Ela estava separada dele pela oitava vez. Separou e voltou umas três vezes só no último ano. Agora está livre do traste de uma vez por todas. Porque meu irmão, como marido, era um traste, sim senhor. Não é depois de morto que ele vai virar um santo, o padroeiro dos casamentos felizes. Era um safado, vivia botando cornos na minha cunhada. Quantas vezes eu não tive que aplacar as angústias dessa coitada. Quando separava dele corria pra onde? Lá pra casa. Eu dava abrigo e comia. Minha cunhada é bonita, eu tinha que comer. Ela ficava uma semana, duas e depois voltava pro meu irmão. Saudade do filho é complicado. Toda vez que ela dizia que ia embora, meu irmão rebatia que ela podia sair e nunca mais voltar, só ela! O filho ficava. Agora está feita! Vai herdar a casa, o carro, metade da transportadora e alguns caraminguás depositados no banco... ainda tem o seguro, a pensão e essas coisas todas. Acho que nunca mais vai querer dar pra mim!

Coitado do meu sobrinho, quero dizer, depende do ponto de vista! Em todo caso é mais um que vai crescer sem figura paterna por perto. Tomara que a última visão, a lembrança que fique para ele, seja essa que eu tenho agora diante de mim. O pai rodeado de flores, bonito. Porque meu irmão até que ficou um defunto bonito. Só o vi bonito assim no dia em que se casou, da primeira vez, que foi a única que se casou de verdade. Os outros casamentos todos foram ajuntamentos. Inclusive com a atual, a viúva, essa que vai herdar tudo. Porém, meu irmão registrou o filho com ela. Filho é o que mais vale pra efeitos de herança. As outras mulheres todas, pelo menos meia dúzia de viúvas, vão ficar chupando o dedo.

O defunto tinha sorte com mulher bonita. Uma mais gostosa que a outra. Dizia que tinha aversão a filhos, mas o que ninguém sabe, nem minha mãe, eu acho, é que o traste do meu irmão fez dois outros filhos em mulher da vida. Uma menina e outro menino! O menino mora com a vó, uma senhora que não pode nem ouvir falar no nome da filha, largada no mundo. Eu já fui lá procurar saber da mãe desse meu sobrinho bastardo, mas quase saio com a cabeça rachada. Já a mãe da Ritinha, minha sobrinha bastardinha, eu sei bem onde mora. Ela ainda não sabe que perdeu o pai de sua filha. Quando aparecerem por lá cobrando o aluguel atrasado ela vem me procurar. Vem tirar satisfações, igual veio todas as vezes em que precisou falar com o safado do meu irmão. Ela sempre envia recados através de mim. Eu que não sou besta, só passava a informação adiante depois que ela dava pra mim... isso mesmo! Puta. Puta pro resto da vida. Não tem essa de ex-puta. Vadia quando convém arria as calcinhas sem nem pensar duas vezes. É só precisar que troca sexo por favores. Daí eu vou comer ela e só depois dizer que o meu irmão morreu. E morreu tarde! Ia desgraçar a vida de mais alguém se ficasse mais tempo entre os vivos.

Ninguém vai falar no assunto agora, mas nosso pai morreu sem falar com meu irmão. Dezoito anos sem falar com o próprio filho! E por que? Porque meu irmão era safado! Roubou o próprio pai, pegou procuração pra vender umas terras lá em Sorocaba e nunca repassou o dinheiro. A casa, o carro, a sociedade com o Laerte na transportadora e mais uns caraminguás que tinha no banco? Tudo fruto de passar a perna no próprio pai. A mãe já era separada do pai quando meu irmão deu o golpe, ela achou foi pouco porque nosso pai tinha dado o golpe nela durante o divórcio. Ficou com mais do que tinha direito e ela saiu só com o sobradinho da vila Nhocuné. Teve que costurar pra se manter e o velho, meu pai, tinha uma fortuna no caixa dois. Pagou apenas salário mínimo de pensão alimentícia até o dia da morte.

Depois que eu me apossei de tudo que era do velho, já que ele fez questão de colocar os bens todos no meu nome em usufruto dele, - não ficou nada pra nova esposa e meu meio-irmão caçula - eu dei um dos apartamentos pra minha mãe. Também dei como usufruto, escritura em meu nome. Prevenção, porque na minha família ninguém presta... Ainda bem que não tenho irmãs. Imagina o que seriam? Tudo puta! Mas agora que meu irmão morreu dá pra recomeçar, limpar o nome da família, comprar algum título em clube familiar, frequentar festas distintas, enterrar essas histórias todas, esquecer os filhos ilegítimos... Só acho difícil parar de comer minhas ex-cunhadas. Isso eu não garanto.

HILDA

Chovia quando o caminhão chegou trazendo a mudança daqueles polacos. Se não eram polacos que fossem dinamarqueses, ou noruegueses, ou...