05 julho 2017

PRA ME GABAR


Durante muito tempo, lá nos idos mil novecentos e noventa e algum ano, eu sonhei percorrer o Caminho de Santiago. Porem, me parecia um sonho distante, era um sonho descompromissado, daqueles que a gente pensa depois esquece, um dia vê uma reportagem, um livro, um relato e volta a pensar nele, depois desvolta de pensar, noutro dia conhece alguém que foi, pergunta como que é a pessoa, gentil e empolgada, se anima relatar tim-tim por tim-tim. A gente reativa o sonho e nem presta muita atenção no relatório em si, metade dos pensamentos ficam ouvindo o relator e a outra metade fica viajando, imaginando cenários, paisagens, lugares enquanto uma outra parte do cérebro, que não tem nada a ver com o percentual que a gente utiliza - na verdade é uma parte da mente que a gente nem usa no cotidiano... Vixi, voltando, então esse pedaço da mente já vai colocando a gente lá no meio do sonho. E dentro da nossa cabeça fica um retrato, uma imagem em movimento, misturando o relato do amigo, com o que foi imaginado, com textos de livros, com recortes de reportagem e assim o sonho ganha uma figura, uma colagem, pra ser olhada dentro da gente. Esse retrato vai nos lembrando de tempos em tempos que existe uma vontade não realizada. A minha fotografia disso tudo misturado ficou guardada, por anos, junto com minhas outras vontades. Com o passar do tempo essa colagem foi perdendo cores, puindo um canto, ganhando novos recortes desimportantes, até que um dia, eu já passando dos cinquenta anos de idade, fui subir uma escada, logo eu que sou caminhante, sempre enfrentei trilhas para cachoeiras, atravessei matas, subi serras, desci morros, pois então, fui subir uns quinze degraus de nada, o joelho estalou, doeu, travou e fiquei assustado com tudo isso. Perna dura, curando o joelho eu voltei a pensar no novecentos quilômetros e poucos do Caminho de Santiago, de St Jean Pied de Port até Finisterra! Era hora de ir ou o tempo faria alguma traquinagem, criaria alguma impossibilidade, impediria eu de me gabar desse feito. E neste mesmo período eu li uma sentença, em algum lugar, dizendo que um dia é preciso parar de sonhar e, de alguma forma, partir! Parti.




PRIMEIRO DIA NO CAMINHO
12/05/2017
Trecho: Saint Jean Pied de Port-França, até Roncesvalle-Espanha - 26km de distância


Olá. Anteontem por volta das nove da manhã eu saí de casa sozinho, caminhei até a estação Piqueri-CPTM e embarquei rumo a Praça da República, onde tem ônibus direto para o aeroporto de Guarulhos. A vida continuou igual para quem tinha seus compromissos com escola, consulta, estágio, trabalho, folga. Dia dez de maio foi um dia especial somente para mim, que estava iniciando, ali, na porta de casa, o Caminho de Santiago de Compostela. De Guarulhos para Madri voo lotado, muita turbulência pela Air Europa. Bancos estreitos, meus joelhos espremidos contra o banco da frente, eu ainda estava entalado entre um luso brasileiro de extrema direita e um casalzinho que me pareceu em lua de mel. O casal não trocou nem um olá comigo, mas o portuga falou durante as quase onze horas de voo, queria me convencer a voltar no Bolsonaro, talvez. Madri às cinco horas da manhã estava com chuva forte, auxiliado pela advogada paulista - a primeira e gentil peregrina em minha jornada, peguei um ônibus até a Renfe - estação de trem, e de lá fui para Pamplona, três horas de viagem passando por campos, castelos, cegonhas, vilarejos, cegonhas, ninhais de cegonhas e casinhas de pedra. De Pamplona fui para a França de ônibus, cheguei ao vilarejo de St Jean Pied de Port, me hospedei num albergue e hoje, dia doze de maio atravessei os Pirineus. Vinte e seis quilômetros de montanhas, sol, vento, muito vento, gelado, congelante, entrando nos ossos apesar de eu vestir fleece, corta-vento, touca ninja, luvas e outras peças. Tive uma contração estranha (chamei de câimbras), na coxa direita a partir do Refuge Orisson, um ponto de parada e descanso. Meus pensamentos: “A cada quinhentos metros eu faço alongamento... eu faço paradinha para entender a dor, eu bebo água...” O tempo todo eu temo que a dor me vença, e tome paradinha, e tome alongamento, e tome água, e tome oração. De dor em dor superei a subidinha... no começo da descidinha para Roncesvalle teve chuva, fina, geladíssima, bosque, folhas mortas, chão escorregadio. Pirineus é para os fortes. Pesado. Cruel. Deveria ter indulgência absoluta para quem atravessa estes montes. Estou dolorido. Todo moído. Agora são vinte e três horas, estou deitado na cama de cima, foi um sacrifício extra escalar os três degraus da beliche. Roncesvalle, meu segundo albergue no caminho de Santiago. As luzes estão apagadas, a maioria dorme. São vinte peregrinos por quarto. Uns roncam, outros teclam em seus celulares, cada qual escreve uma versão da mesma história: superar o Pirineus. Silêncio é obrigatório, mas os que roncam estão perdoados. A você que lê um recado: isso tudo é bom demais!





SEGUNDO DIA NO CAMINHO
13/05/2017
Trecho: Roncesvalle até Larrasoaña - 27km de distância


Hoje o tempo amanheceu fechado em Roncesvalle, seis da manhã o sol nasce e o peregrino sente necessidade de sair do albergue, deve ser um bichinho, uma pulga que morde e contamina, até eu que sou notívago me acordei, vesti o fardamento, menos botas, levantei acampamento e fiquei olhando o povo partir rumo a selfie na placa "Santiago 790km". Foto clássica! A maioria que perguntei destino respondeu Zubiri. Decidi por Zubiri, calcei as botas, cobri tudo com a capa de mochila que ganhei de um peregrino e fui fazer minha foto. Já que estava ao lado da trilha comecei a caminhar. Cada passo uma fisgada bem leve na coxa direita, resquícios dos Pirineus, que ontem eu disse que é para os fortes, mas na verdade é para os perseverantes, e loucos! De Roncesvalle a Zubiri o caminho é lindo, bosques repletos de pássaros gorjeando, folhas novas de primavera, flores minúsculas nos campos verdes, alguns cordeiros e cavalos de raça e porte não conhecidos no Brasil. Tudo é novo e desperta atenção, minha e de todos os peregrinos estreantes. No começo caminhei sozinho, trilha plana, quase uma reta, tranquilo, só mudar o passo sem levantar muito o pé, economizando os músculos da coxa direita. Encontrei uma maçã verde sobre a cerca ao longo do caminho, comi sem receio, alguém com o coração aberto deixou ali, nenhum mal pode resistir a isso. Logo após alcancei um Argentino, mecânico, gente boníssima, eu entendia metade do que ele falava e a outra metade adivinhava pelo gestual, também ia devagar pelos motivos dele. Não me disse, não perguntei - penso que ele está andando com alguma dor herdada dos Pirineus, como eu. Nitidamente ele também está feliz e rimos demais quando eu disse de mim: "está doendo, mas está gostoso!". Seguimos caminhando e a trilha se tornou subidas curtas, descidas curtas, ambas íngremes, molhadas, barro, riachos, pontes somente para pedestres, pedras escorregadias, mais pedras escorregadias, mais barro, mais córregos cristalinos, mais bosques e a chuva parou, sol. Sol e barro. Pendurei roupas molhadas na mochila pela primeira vez na vida, ninguém estranhou, mais gente com essa mania de pendurar meias, roupas íntimas, como se as correias e fitas das mochilas fossem varais. Reconheço muita gente que vi nos Pirineus passando por mim ou eu passando por eles, sorrisos, "bom caminho" - eu falo em português, corações de todas as nacionalidades, tem até brasileiros... Pasmem! Oh!... Até agora conversei com brasileiros, espanhóis, italianos, mexicano, japonês, colombiano, francês, inglês, americano, e com um detalhe, só falo português do Brasil! No caminho o idioma é universal, funciona de verdade. Andei com alguns, comi com outros, dormi ao lado de muitos. E só é o segundo dia! Enfim, cheguei em Zubiri caminhando devagar, o argentino ficou para trás, estou passo a passo com a colombiana desfalecida - ontem ela teve queda de pressão no albergue em Roncesvalle, hoje caminhou bem devagar, não aparenta dores, somente a calma de quem já experimentou ultrapassar limites. Chegamos muito cansados, mas não encontramos pouso em nenhum albergue por conta de festejo municipal, muita coisa fechada, bateu o desespero e paramos na margem do rio. Ficamos calados, um ao lado do outro, dois extremados, dois cansados, dois abatidos ao lado da ponte. Talvez tenhamos pensado ao mesmo tempo em dormir embaixo da ponte, mas nenhum dos dois expressou a maluquice. Após um tempo de contemplação decidimos almoçar em Zubiri e seguir até Larrasoaña, seis quilômetros adiante. Achei que não conseguiria, ela também, conseguimos sim! Chegamos. Ambos felizes, realizados!! Já albergados e banhados as dores e incômodos não são nada, restam apenas contentamento e superação. Tomei uma cerveja para me premiar, reencontrei os brasileiros, fizemos foto, ficaram bebendo vinho, eu voltei ao albergue. Na cozinha encontrei dois italianos, um senhor e uma garota, me convidaram para comer com eles, rimos bastante das semelhanças entre vocabulários de nossos idiomas. Nem a louça me deixaram lavar. Na segunda garrafa de vinho o italiano me chamou de irmão, e tinha tanta sinceridade em seus olhos que eu o abracei. Europeu reage bem a um abraço, ele veste a gente com os braços. Penso que seus olhos lacrimejaram, disse que precisava recolher umas roupas e se foi. Também devo ter lacrimejado, disfarcei e vim escrever. Boa noite a todos!





TERCEIRO DIA NO CAMINHO
14/05/2017
Trecho: Larrasoaña até Cizur Menor – 21,3km de distância


Terceiro dia de caminho. Hoje nasceu minha primeira bolha e como todo nascimento, foi dolorido. Ela é redondinha, com o centro branco e o entorno avermelhado. É linda a minha bolhazinha, fico passando o dedo carinhosamente e ela corresponde uma dorzinha quase coceira, estou gostando dela agora que tirei as botas. Antes não gostava e talvez amanhã eu a odeie... Vou viver um sentimento de cada vez! Essa noite no albergue São Nicolas-Larrasoaña eu dormi bem, apenas seis peregrinos por quarto. Dois dormitórios por andar, um banheiro masculino outro feminino para cada dois dormitórios. Não ouvi roncos, mesmo assim acordei de madrugada e fiquei ouvindo a chuva e o vento até voltar a dormir. Antes das sete horas a pulga, aquela contagiosa que morde o peregrino e faz todos saltarem de seus beliches ao mesmo tempo, então, ela atacou. Domingão, frio e cerração, levantar antes das dez horas da madrugada? Normalmente não é comigo! Mas hoje eu estava distraído e quando dei por mim já estava fardado, do lado de fora do albergue, calçando as botas enquanto decidia se vestia a corta-vento sobre a fleece. Não vesti, porém deixei pendurada na mochila. Fui o último a sair, de verdade, apaguei a luz. Antes do primeiro passo fiquei olhando as casas sumindo entre a cerração. Fantasmagórico. Cinematográfico. Comecei a andar ao mesmo tempo que bebia meio litro de suco de laranja, em conserva, vendido em qualquer mercado. Após o suco iniciei meu mantra mental "passinho na frente, agora busca o de trás, passinho pra frente, agora busca o de trás", assim vou vencendo as dores iniciais, aquecendo. Após o primeiro quilômetro de caminhada os alongamentos. Alongar devia ser obrigatório, um posto de fiscalização mil metros longe de cada parada, daí o peregrino receberia carimbo na credencial somente após alongar pernas, pelo menos. Enfim, Larrasoaña é uma vila esticada, formato de salsicha, salsicha boa! De grife. Casas, comércios, albergues e tudo mais existem em prol da avenida longa em paralelo (leia espremida) entre um rio e a rodovia, aqui chamada La Carretera, a ponte que se chega ao vilarejo é a única, por ela também se volta para o caminho. E o caminho rumo a Pamplona é uma trilha verde, de bosques fechados, árvores antigas e folhas jovens, correndo ao lado do rio por quilômetros. As vezes eu ouvia o barulho da água, corredeiras, minúsculas cachoeiras, outras vezes silêncio. Com o fim da cerração eu sabia que o rio estava ali ao lado, através do reflexo, dos fios de luz vencendo o bosque e iluminando águas paradas, águas escuras, de trechos profundos. De repente uma descida íngreme, preciso decidir entre caminhar no barro ou nas pedras molhadas. Escorrego uma, duas, cinco vezes nas pedras e decido pelo barro bem a tempo, um peregrino escorrega, cai de bunda nas pedras. Somos todos irmãos, corações de todas as nacionalidades, uma dezena de preocupados com o acidentado, comoção globalizada, recebe até ajuda do húngaro! Segundos depois o caído já está de pé, sorri, diz que foi "só o susto", é do Brasil!!! Os bastões e cajados voltam a suas funções, o povo se vai, o brasileiro também vai em frente, os fundilhos enlameados. É engraçado. Vai, é muito engraçado! Mas ninguém ri. Ok, eu rio, por dentro! Determinado ponto, já devo ter caminhado uns cinco quilômetros, surge uma ponte e o caminho atravessa o rio. Moradores do local pescam trutas garantindo o almoço de domingo. Eu passei lentamente, invejando, quis ter um anzol, uma isca, um sushi, um temaki, um... Comi uma banana, dei o último gole na garrafa de quinhentos mililitros de água e continuei, o caminho fica perigoso pela La Carretera, sem acostamento. Carros passam exageradamente longe dos peregrinos, outro mundo, outro país, outra cultura, perco o medo e conservo o receio, passos atentos até que o caminho volte a ser um fio de terra entre o colorido da primavera. Bem lá frente o caminho atravessa também a Carretera, subidinha íngreme, mas aqui colocaram degraus de madeira, não tem bosque, o sol já secou tudo, porém está nevando no caminho, flocos de neve tomam conta do céu, são painas, lã vegetal que as árvores soltam aos milhares, bilhares, trilhares ou outros "ares" matemáticos acima. É lindo, o rio virou um fiapo de água lá embaixo. Caminhando a uns trinta metros acima do rio, estou na beira do abismo, vejo a copa das árvores que soltam neve, não conheço essa espécie, talvez seja uma paineira de primeiro mundo, mais chique, sei lá... Muito pólen no ar - alérgicos, cuidado! Chego em Pamplona, não gosto da cidade grande, cheia de gente em roupa de festa, decido almoçar e seguir adiante. Terneiro, que é carne bovina, com batatas fritas e salada, apenas cinco euros. A fanta laranja em lata está no combo que ainda acompanha o pão e um molho branco. Com cinco euros eu comi bem demais da conta, uai! Barriga cheia pé na estrada, volto ao caminho, Cizur Menor está a poucos quilômetros, ando sob sol escaldante, chego no albergue... De agora até amanhã cedo será tudo igual a ontem e anteontem, reencontros, novas amizades, carinho na bolha-bebê, pão e vinho. Vinho é a bebida do caminho. Pão é o pão! O amanhã a Deus pertence, eu já pertenço ao Caminho, aqui com inicial maiúscula, porque o meu caminho é coisa de Deus.





QUARTO DIA NO CAMINHO
15/05/2017
Trecho: Cizur Menor até Puente La Reina – 19,2km de distância

Zizur Menor. Sou bom para guardar nomes, dos meus filhos! Qualquer outro nome seja de pessoas, de cidades, de albergues não é com minha memória. Se eu estivesse no lugar de Adão no jardim do Éden, nomeando animais, é bem capaz que teríamos bichos com um nome num dia, outro nome no dia seguinte e mais outro nome diferente semanas depois, até Deus me demitir da função. E chegamos em Zizur ou Cizur Menor - tem placas dos dois jeitos, jantar comunitário, anoiteceu após as vinte e uma horas e, em agradecimento ao momento de compartilhar, a brasileirinha do ABC Paulista cantou lindamente em espanhol, a letra falava sobre a melancolia do tempo para aquele que ama à distância… novamente tive a percepção de olhos lacrimejando entre os peregrinos. Aliás, neste quarto dia de jornada os músculos começam resignar que vão trabalhar todos os dias e reclamam menos, com isso começa a sobrar tempo para saudades e outros sentimentos derivados da solidão. Até eu, veja se posso com isso, segurei os pensamentos para que não saíssem a galope. Dormi. Eu dormia o sono dos justos quando acordei com frio. Abri metade de um olho e vi que o quarto estava iluminado por uma penumbra de raiar de dia, abri a outra metade do olho para espantar a confusão do despertar e percebi todas as dezessete camas vazias. Os peregrinos se foram, só restava eu dentro do saco de dormir. Olhei as horas: seis e quarenta da madrugada... F-A-L-A-S-É-R-I-O!!! Que tipo de proveito é esse que o povo tira andando no escuro? E qual foi o mamífero que deixou a porta aberta? Encaramujei dentro do meu saco modelo sarcófago e voltei a dormir. Antes das oito horas, que é o limite de saida em qualquer albergue abaixo de dez euros, acordei, fardei, higienizei, botei botas (preciso criar um verbo para isso, calçar botas), cajadei e em quinze minutos estava procurando a primeira seta amarela. Caminho do Alto do Perdão! Destino Puente La Reina. Preciso dizer duas coisas: Lindo! Caminho Lindo!! Pronto, acabei com toda surpresa futura. Spoiler do trecho. Mas é isso mesmo, neste trecho do caminho noventa e oito por cento do percurso é um fio de terra/pedras ladeado por verde, vermelho, amarelo, roxo, branco, fúcsia. Homem tem dificuldade para reconhecer tons de cores, fúcsia eu sempre quis dar a entender que sei identificar, com certeza existe flor nesta cor no trecho de hoje, então não estou mentindo. Campos de trigo, de ervilhas, de mostarda, de outras plantações que eu não identifiquei. E flores. Todos os tipos e tamanhos. Todas as cores que a primavera se permite. E pássaros, e pássaros, e pássaros, e pássaros, e pássaros, gente como tem festa de pássaros!! E serras, e pequenas vilas – aqui chamadas de “pueblo”, e torres imponentes de igrejas imponentes badalando sinos imponentes. Hoje, quinze de maio é dia de Santo Isidoro, todos os vilarejos badalam os sinos a cada meia hora, coloquei um vídeo no meu Instagram (@betomuniz65) da igreja que já esqueci o nome no vilarejo que também não recordo o nome… desculpe, eu não sou bom com nomes. O Alto do Perdão não é tão alto. A subida é tranquila, tem uma bica a menos de trezentos metros do cume, ali eu parei para fazer um lanche. Enquanto comia um passarinho chegou para beber água, não me percebeu, resolveu tomar banho, fiquei imóvel maravilhado por alguns segundos, outro peregrino chegou e a avezinha fugiu. O topo do morro não me atraiu, fiz umas fotos clássicas, mas não fiquei emocionado ou tocado de alguma forma pela simbologia do lugar. Não me demorei. Um ônibus de turismo chegou e despejou algumas dezenas de gente fazedora de selfies, foi a deixa para eu deixar o Alto, a descida é cruel para joelhos sensíveis, trilha de pedras, ruim de pisar, de trocar o passo, de se equilibrar… faz jus a fama, diferente da subida. Mas entenda que essa dificuldade é parte integrante da beleza do caminho. Após o alto e o baixo do perdão, passei por mais vilarejos badalantes, alguns com procissão de idosos em homenagem ao santo do dia. Na saída do pueblo um muro pichado que tanto João Dória quanto Edir/RSoares/Valdomiro iriam odiar: “A única igreja que ilumina é aquela que incendeia de noite”. Eu ri. Mas eu rio pra quase tudo, dentro ou fora do caminho! Agora estou em Puente la Reina. Não lembro o nome do albergue, já falei que sou ruim pra guardar nomes? Ainda bem que não pretendo escrever livros. Anotações não são comigo, por isso esqueço nomes. Mas lembrei de Jesus. Conheci no jantar dos peregrinos em Roncesvalle, reencontrei aqui no albergue. É mexicano.





QUINTO DIA NO CAMINHO
16/05/2017
Trecho: Puente La Reina até Lizarra/Estella - 22km de distância

Puente la Reina é agradável. Tem uma igreja imponente, com sua torre imponente, seus sinos imponentes e uma cegonha que fez ninho imponente bem ao lado dos sinos. Os bebês cegonhas sendo chocados ao som de carrilhões. Vão nascer surdos ou crescer estressados, penso. E tem outra torre de igreja lá no meio da cidade. Imponente também! O que me faz relembrar que cada localidade na Espanha, por menor ou maior que seja o vilarejo, a torre da igreja sobressai, marca a paisagem de forma imponente. Cada torre um conjunto de sinos. Talvez os sinos fossem o whatsapp de antigamente. Um badalo significava; morreu o rei. Dois badalos; morreu a rainha. Três badalos; morreu um nobre. Quatro badalos; morreu o bispo. Cinco badalos; morreu alguém importante aqui. As cidades vizinhas respondiam com um, dois ou três badalos, que podiam significar: um badalo; entendido, lamentamos, um nobre vai representar o rei no evento (no meu modo de pensar, se eu fosse rei, só sairia do castelo para festejar ou guerrear). Dois badalos; nosso reino lamenta, mandaremos as carpideiras. Três badalos; Já é, tá dominado! Nosso rei vai tomar conta de tudo, na boa ou na marra. Daí a cidade onde o rei tinha morrido também respondia com um ou dois outros badalos para os badalos de respostas dos vizinhos, fossem único ou badalos duplos ou triplos. Um badalo para o um de resposta; serão bem-vindos, tragam carpideiras (profissionais do choro em funerais). Dois badalos para os dois de resposta; nossas carpideiras são melhores, choram mais bonito que a de vocês e comem menos. Três badalos para o… sempre terminava em guerra! Lógico! Não sei de onde eu fui pensar que dá para se comunicar badalando! Se no whatsapp com recursos emoji, vídeo, vivavoz e tudo mais, vez em quando sai uns perrengues! Imagine quando a comunicação depende dos sinos que dobram? Essas coisas eu fico delirando no caminho. Sujeito andando vinte a trinta quilômetros, sol a pino… sim, porque o dia já começou quente em Puente la Reina, céu limpo, uma trilha parecida com estradinha de terra ligando Franco da Rocha a Jundiaí. Nada de especial, de repente vira um subidão pior que oito picos do Jaraguá em sequência, bosque de reflorestamento, só pinheiros - nos caminhos de Jundiaí tem eucaliptos. Na sequência surgem os fios de terra com pedras em campos de trigos e, finalmente, começam as parreiras. Videiras. Pés de uvas! Estão cacheando. Quem vier para o caminho de Santiago no período da colheita vai aproveitar. Com moderação! Isso tem dono. Enfim, andando os vinte e tantos quilômetros neste ambiente, sem grandes novidades para um cérebro sadio, resta pensar. Isso não quer dizer que vai sair coisa boa, daí após chegar a conclusão que sinos e whatsapp tem incompatibilidades irreversíveis com o fator humano, eu quis achar razão para a existência das igrejas imponentes, com suas torres imponentes seus donos imponentes. E mais, o que levava o povo do século doze, por exemplo, a construir edificações complexas usando pedras imensas, pesando toneladas, sem uso de guindaste, óbvio, para atender a dúzia de fiéis, moradores da meia dúzia de casas ao redor. Devia existir também um pequeno castelo por perto, porém, no tempo presente já desabou. Concluí que tudo era o rei! Ou melhor, por isso tantas guerras! O rei tinha que ser muito macho. No sentido fodão da palavra. Tinha que mostrar poder, força, riqueza. Fazia guerra, vencia, tomava despojos, trazia riquezas, gente vencida, submissa e não tinha mais o que fazer ou onde gastar, o jeito era fazer um castelo. Obrigava o povo vencido a quebrar pedra, subir pedra sobre pedra, montar o quebra-cabeça rabiscado por algum sacatrapa e tome ostentação. Daí vinha o bispo falando em nome do papa e da igreja e dizia para o rei que Deus era maior e, portanto, Sua casa tinha que ser erigida com o dobro de pedras. O povo submisso foi o que mais se deu mal na história, perdeu guerra, perdeu país, perdeu casa, ganhou porão no castelo e tome carregar pedra, fazer lego com rochas, subir paredes tortas que de longe parecem imponentes. Esse povo do século doze transmitiu o gene, pode prestar atenção, até hoje onde tem ostentação de poder ajunta carregador de pedras em volta. Submissão hereditária. Delirio de novo! Tem jeito não. Acabei que de delírio em delírio estou em Estella. Cidade grandinha. Aqui tem torre, tem castelo, tem muro enorme, tudo isso. Albergue municipal, seis euros, cama, lençol, travesseiro, banho quente. Perfeito! Banho tomado, roupa lavada, pensei: “vou comer um trem que estou varado de fome…”. Tudo fechado! Primeira cidade onde levam a sério a “siesta”. Fecha tudo entre as quatorze e dezesseis horas. Tudo! Até o albergue. Brincadeira, acabou mesmo as vagas nos beliches. Muita gente no caminho, todos os dias antes do sol raiar aquela pulga que morde os peregrinos tem nome: garantir o próximo albergue. Eu não tinha me dado conta que a correria, na verdade, é o medo de ficar sem cama nos albergues públicos, que são mais em conta. Continuo sendo o último a levantar, o último a me emperigrinar (higiene, farda, desjejum, bota, mochila, cajado, alongamento, pé no caminho) e só estou levando vantagem porque sou jovem, alto, forte… cinquenta e dois anos, um metro e oitenta e nove centímetros, noventa e dois quilos… e no decorrer do dia já ultrapasso uns lesionados, vários idosos, outros tantos. Não ultrapasso ainda os alemães, esse povo nasceu com DNA de máquina de andar, que coisa é aquilo? A alemoada fixa um bastão de carbono com pintura metalizada em cada punho, ajusta o tempo do tuque (som do bastão batendo no chão) com a pisada da bota e vão tirando quilômetros após quilômetros da frente. Chega que ligo o pisca-pisca e encosto pra direita da trilha quando vejo um alemão no retrovisor, capaz que ele venha no tuque-tuque-tuque-tuque e passe por cima de mim. De minha parte quando vejo alguém capengando no caminho também faço tuque com o cajado pra avisar que estou ultrapassando, porém, desejo bom caminho, que é a praxe, e dependendo da cara de aflição pergunto “tranquilo?”... no sotaque espanhol, que todo mundo entende que estou perguntando se está tudo bem, e todos respondem yes, si, como não?, Ok, ou qualquer onomatopeia afirmativa e vou-me. E isso que sou lento, paro a todo instante. Observo os viventes do caminho, tiro foto, como as ervilhas verdes no pé, assovio para os passarinhos, tiro foto das pontes, lavo a cara nos rios, tiro as botas onde tem gramado, deito em sombras que apresentam três quesitos: murmúrio de rio, trinado de pássaros, fora da visão de peregrino. Tenho receio que muita gente me imite, se deite e vire acampamento aborrecendo os moradores locais (que são uns amores, mas tem a vidinha deles pra gente não atrapalhar), só por isso. E a minha bolha-bebê morreu. Alguma coisa aconteceu que ela não evoluiu. Como se diz em Minas Gerais: ela não vingou. A região onde nasceu e morreu está doloridinha, mas sem ela, a bolha. Apenas uma pele esbranquiçada, seca. Não falei nela ontem por isso, a coitada estava definhando e sobre moribundo a gente não fica dizendo isso ou aquilo. Tem que respeitar o momento. Preciso falar sobre o húngaro… mas antes vou comer um trem que estou varado.


(continuação após comer um trem, duas locomotivas e três vagões)

Três coisas: Uma, a chegada em Estella é esquisita; primeiro que a placa na saída do vilarejo anterior, Villatuerta, se não me engano, diz que faltam menos de três quilômetros, daí a bota até esquenta de tanto andar e nada de Estella chegar, cismei que pisei uns cinco quilômetros; segundo que a estradinha de terra batida ladeada por vegetação natural, sem intervenção humana, lembra muito uma trilha Paranapiacaba/Cubatão e depois duma curva a gente vê um silo, um telhado de galpão, um tubo de gás branco com logomarca verde onde instintivamente li ‘whitemartins’, delírio, se estivesse mais distraído ia achar que estava realmente chegando em Cubatão. Duas, na chegada a gente não dá nada pra Estella, muito mixuruca, depois que comi um trem e duas locomotivas fui entrando nas vielas milenares, descobrindo a cidade e isso aqui é de uma riqueza fenomenal para a humanidade. Na igreja “não-sei-o-que-lá-de São Pedro” que é gigantescamente enorme e pra entrar nela tem que vencer uns trezentos degraus, teve missa de corpo presente depois da siesta, primeiro o povo tirou o cochilo do dia, depois vieram encomendar a alma de Dona Filomena (era um nome comprido começado com F, não posso garantir o Filomena). Três, eu fico falando dos delírios e possível insolação mental e não falo do mais importante que é as coisas do caminho, por isso estou explicando agora. Então, agora são vinte e uma horas e cinquenta e cinco minutos e ainda não escureceu, mas as luzes vão se apagar às vinte e duas horas, então vou contar rapidinho sobre o húngaro... se não conto hoje é capaz que esqueço. Não é nada demais, só para passar uma ideia de quanto podemos ser diferentes sem perceber. Lembra na ladeira lá atrás, onde o brasileiro enlameou os fundilhos? Foi lá que eu vi o húngaro pela primeira vez. Ele é um sujeito bonito! E se eu que sou hétero, bem resolvido, casado, pai de quatro filhos, digo publicamente que o húngaro é bonito, é porque é! Sujeito é maior que eu, mais parrudo, olhos claros, parece aquele Thor do filme dos vingadores. Só que careca. Mas nem isso é desvantagem já que eu também sou careca na cocuruta. O húngaro está peregrinando com a esposa e o que ele tem de benefícios, esteticamente falando, faltam a ela. Não é demérito nenhum ela ser desprovida visualmente, já que neste caso o embasamento é pessoal e intransferível. O húngaro cuida de sua húngara com tanto carinho e cuidados! Ela não carrega mochila. Ela recebe massagem nos pés a cada parada. Ele busca água nas fontes de cada parada e dá para ela beber antes. Ele prepara a cama para ela nos albergues… tem homem reparando e mulher invejando. Quando ele fala ninguém entende, então ele sorri e encerra a tentativa com um “OK”. É o tipo bonachão, crianção, que cresceu demais, porém, o inusitado é que os dois têm suas manias húngaras; eles vão do quarto para o banho em trajes íntimos, como se estivessem a sós na casa deles. E voltam do banho para os respectivos beliches em trajes íntimos, trocados e limpos, claro. São varias culturas, manias, tipos, comportamentos distintos neste caminho, mas pelo jeito os peregrinos estreantes ainda não estavam preparados para isso. O povo disfarça, ninguém olha diretamente para o casal, mas todo mundo se entreolha num silêncio absoluto quando a húngara de calçolão e sutião ou o húngaro de cuecão, vão ou voltam no banho, deve ser porque ninguém fala hungarês. Eu mesmo não falo! Alias, não disse que não era nada demais? Era só isso! As luzes já eram, lá fora não escureceu totalmente, está calor e os peregrinos roncam nas camas ao lado, ainda não estão fazendo a “ôla”, que é assim: o beliche da ponta puxa o ronco e as demais beliches vão passando o som em sequência até chegar aqui, no outro extremo do quarto, como se o albergue fosse um estádio lotado. Daí a gente devolve o ronco, beliche por beliche. Até quem não dormiu ainda, como é meu caso, ronca para colaborar. Uma festa. São vinte e duas horas e vinte e cinco minutos. Boa noite.





SEXTO DIA NO CAMINHO
17/05/2017
Trecho: Lizarra/Estella até Los Arcos - 22km de distância

Gente do céu, ontem eu fiz o funeral da dona Filomena e quem morreu mesmo foi Dona Josefina, que Deus a tenha! Eu sei que sou ruim pra nomes, só que os anjinhos vêm cobrar da gente se encomendar alma de vivo. Dona Filomena tá vivinha lá em Estella e eu já estou em Los Arcos, morto. Morto não, mas bem derrubado. Hoje me deu uma dor na lombar, andei metade do trecho meio penso, fora de prumo, capengando, torto pra direita que era o lado mais prejudicado. Quem me viu deve ter pensado em pagamento de promessa, entortado de nascença ou mesmo que eu estava querendo enxergar algo lá na frente, dobrando nas curvas do caminho. Mas vou dizer uma coisa que não disse ontem, Estella é coisa para peregrino nutella. Peregrino raiz não dá conta da cidade! Os preços de comestíveis são mais salgados, em compensação tem dois museus pertinho do albergue municipal, tudo de graça! Mas a disgrama é que a gente chega nos vilarejos necessitado de carboidrato, potássio, de proteínas, de sais minerais, de maltodextrina ou só tirar as botas, tomar um banho e ficar quietinho tomando isotônico. Artes plásticas, esculturas, história de reis… tem que andar pra ver. Ainda é primeira semana de peregrinação, o músculo da coxa direita está parando de fisgar, mas fisga se exagerar. Ou seja, peregrino raiz esta zuado quando chega o final do dia. Daí se alguém disser que conseguiu aproveitar mais que o trenzinho de passeio guiado, desculpe, é nutella. Nada contra, até dou apoio, eu mesmo se pudesse vinha fazer o caminho de carriola. Contratava alguém para me trazer de St Jean Pied de Port até Finisterra na toada de um carrinho de mão. Forrava a carriola com o saco de dormir e dava a ordem para o condutor começar a caminhada, passo a passo, eu na carriola. Entrando em Estella, por exemplo, descia, fixava a mochila nas costas e fazia umas selfies pagando de peregrino. Mandava até borrifar um spray de água na testa pra simular suor! Tenho tudo isso já pensado para o caso da megasena entrar nos meus bolsos. Por enquanto estou na bota, dinheiro contado, periga até aceitar levar alguém na carriola em troca de uns euros. Foco! Então, sair de Estella na bota é puxado, a gente anda, anda, anda, anda e a cidade ainda está ali. Subida! O meu guia de bolso, o verdinho, informa que a Bodegas Irache fica longe, uns cinco quilômetros depois de Estella, no entanto, acabou a cidade numa Carretera (não esqueça, é estrada, rodovia), e duzentos metros adiante as bicas abençoadas estão jorrando vinho de graça! Coisa feliz para peregrino é beber vinho antes das oito da manhã, né? É bom! Foi a primeira vez que bebi vinho no café da manhã. Sem pagar! E pode levar uns emeéles para bebericar no caminho? Não pode levar, mas a maioria levou um pouquinho na garrafinha de água. Sem exageros. Nós, toda gente que é, pretende ser, ou simplesmente simpatiza com o peregrino, tem que orar na Catedral de Santiago pela saúde do dono da Bodegas Irache. Deus o abençoe e nunca desampare! Amém! Homem bom. Na despedida das bicas abençoadas ouvi uma peregrina, brasileira - identificada pelo idioma, comentando que bodega era depreciativo! Gente, bodegas é vinícola! Se na Espanha estão a milhares de anos produzindo bons vinhos e se chamando de bodegas, eu aconselho os produtores aí no Brasil a abandonarem essa história de “vinícola” e adotarem o “Bodegas Miolo”, “Bodegas Salton”, “Bodegas Chapinha”. E nem vou cobrar a consultoria. Depois das torneiras abençoadas de Irache, ultrapassei umas asiáticas rindo a toa. Elas andam em bando, seis a doze (são muitos asiáticos no caminho), e a mulher do Japão ou Coréia, ou Taiwan, quando passa por mim não diz nada, não olha, não esboça qualquer emoção. Tudo bem que não sou emocionante, mas no caminho é praxe se reconhecer irmão de peregrinação no outro, mesmo quem não vem pela religiosidade ou espiritualidade, além do quê, simpatia não gera gastos. E neste quinto dia já fizemos bandogado. A etimologia do vocábulo: bando, de muita gente ao mesmo tempo nos mesmos lugares; gado, de muitos indo ao mesmo tempo aos mesmos lugares. Então, todos os dias as mesmas pessoas se encontram no caminho, nos pontos de parada do trecho, e hospedam nos mesmos albergues. Então… custa nada gastar simpatia. E eu que vejo de longe o italiano sofrendo na ladeira e já grito: “não consegue nem andar vai saber jogar bola?” - ele me desafiou para uma altinha em Santiago. Ele ri alto e diz que brasileiro só aprendeu jogar bola depois que os italianos chegaram no Brasil. Do que estou falando? Ah, um se reconhecendo irmão peregrino no outro. No fim do dia estaremos fazendo ôla de roncos. Deixemos as asiáticas rindo. Talvez elas só rissem porque estava fácil sorrir hoje, o dia começou com sol, parecia que seria mais um dia de sol escaldante, mas depois do vinho o céu nublou, começou um ventinho geladinho, o caminho virou uma subidinha leve, tranquila, depois começou a cortar bosques, onde encontrei com três cães que me pareceram de caça. Continuei andando distraído e avistei uma ave maior que um pombo e menor que um frango, ela me olhou alguns segundos, entortou a cabeça, depois se embrenhou no mato, acho que era a caça, tadinha. Apesar desse novo incômodo me fazer andar fora do prumo, o susto de hoje foi na hora que comi cerejas, estavam extremamente deliciosas. Estendi a mão através da cerca de arame farpado e colhi meia dúzia, em paga pelo pecado de roubo escorreguei, minha camisa enganchou no arame e só não me machuquei porque faço oração todos os dia após me emperigrinar: “Deus, obrigado pela proteção até este momento e se eu sou digno de Sua graça me conserve saudável e íntegro nesta jornada, eu te peço que me guarde em nome do Teu filho, Jesus. Amém”. Deus me ama e é recíproco. No albergue em Estella, para manter a rotina, pela manhã fui o último a sair. Porém, acordei de madrugada e consegui captar todo o processo de atuação da pulga que faz peregrino sair antes do sol. Pouco depois das cinco horas um celular deu alarme bem discreto, em seguida ouvi o som de um zíper se abrindo, alguém escapando do saco de dormir, segundos depois o arrastar de uns pés se calçando em chinelas, passos tentando não estalar as chinelas no calcanhar e a porta do banheiro sendo acionada. Este já foi mordido pela pulga e já era, não volta a dormir. Em seguida em outra cama um sussurro, e sussurro não tem idioma então não sei quem era, depois farfalhar de roupas, perguntas e respostas murmuradas, zíperes de saco de dormir em intervalos curtos, arrastar de chinelos, mochilas, descargas, torneiras. Tudo se repetindo no escuro, essa tal de lanternas de cabeça é lenda, ninguém usa! No máximo uma tela de celular acompanhada de barulhos de alguém desamarrando sacolas. Voltando para o assunto: nisso os sussurros já estão idiomizados, ouço sussurralemão, sussurritaliano, sussurujapa, sussurrubrasil, alguém chuta o pé da minha cama, abafa um grito de dor, calculo que topou o dedinho... Em menos de vinte minutos após o primeiro alarme no celular a Babel estava generalizada. De repente silêncio. Nem um pio, nenhum farfalhar de roupa, sacolas, arrastar de mochilas, nada… daí passos, porta do banheiro se abre, fecha, e o barulho do povaréu retorna. Sem abrir os olhos eu já sei: os húngaros estão no banheiro. Quando saírem interrompe a Babel novamente, só se vestem depois da higiene matinal. Vou ali jantar, hoje é comunitário, amo!

(adendo pós jantar comunitário)

Igreja Santa María de los Arcos, missa dos peregrinos. Muito frio e pouca fé. Quero dizer, pouca gente. Eu queria postar uma foto, mas minhas fotos não estão carregando no Facebook. Estranho que no meu Instagram está carregando normal. Se alguém tiver curiosidade: @betomuniz65 ... Amanhã vou até Logroño, acho que é assim que se escreve. Esfriou muito após o anoitecer e lá fora começa a chover. Não tenho capa de chuva decente ainda, nem canivete. Comprei um bastão em St Jean Pied de Port, ele mais atrapalha que ajuda, ainda não larguei na estrada porque me afeiçoei... E também porque tenho fobia, medo irracional de cachorros. Boa noite!





SÉTIMO DIA NO CAMINHO
18/05/2017
Trecho: Los Arcos até Logroño - 28km de distância

Hoje eu tive que ficar bravo. Por questão de entender para poder criar opinião, levantei antes do primeiro alarme de celular, antes do primeiro sussurrujapa, que são os primeiros toda madrugada, me emperigrinei antes do casal húngaro fazer o desfile matinal e peguei o rumo de Logroño. A gente sai da cidade rapidinho e já está no campo, trigo, joio, sorgo, tudo plantação baixa e a estradinha de cascalho sumindo no horizonte. Lusco fusco pretejado pra frente e lusco fusco alaranjado com cinza nas bordas se olhar pra trás. E eu recomendo sempre olhar para trás, não é saudade do que deixou não, nem vontade de voltar, também pode ser tudo isso, mas se o peregrino sai batendo bota pensando em garantir albergue ele não garante o visual. Deixar Los Arcos e ver o horizonte sumindo por detrás dos morros com o sol nascente avermelhando tudo, é pra fazer qualquer mau humor evaporar. Então a qualquer hora, em qualquer trecho do caminho, dedique um minutinho da peregrinação para olhar a seu redor, um giro de trezentos e oitenta graus percebendo tudo. Então foi isso, fui dos primeiros a sair do albergue, uma hora e meia depois já estava em Sansol, que também pode ser conhecida como “Sensol” já que o solzinho que estava por nascer sumiu completamente neste ponto (trocadilhos não são o meu forte). Deixei o vilarejo, andei dez passos já estava em Del Rio, vizinha, e no que eu pego o rumo de Viena (perceberam que hoje estou tinindo com os nomes?), caiu o primeiro pingo de chuva. Foi aí que veio a ira, um pecado que nem orna com o caminho… não, eu não fiquei bravo com São Pedro! Não sou doido! Brigo com o santo, daí um belo dia acaba meu tempo na terra, quando eu chego no portão celestial o bom Santo me passa um pito, ameaça não dar passagem e eu sou obrigado a pedir desculpas se quiser tocar harpa. Pedir perdão é o de menos, é até obrigação, vergonha eu vou passar por atrasar a entrada de outras almas no paraíso! A fila de finados aumentando e eu atravancando passagem, tudo por causa de quê? Duma chuva no caminho de Santiago. Deus me livre! O caso é a bota. Capa decente eu não tinha mesmo, ainda não tenho, disseram que tem Decathlon aqui em Logroño e só vou descansar um pouco pra ir procurar. A bota. Comprei, paguei caro, uma The North Face, nome chique pra quem usava botinas Zebu na infância, e a bota vem com goretek, não sei se é assim que escreve, mas é um padrão construtivo que torna a bota impermeável depois de encarecer a produção. Pois bem, eu não estava de todo desprevenido, no último jogo do Corinthians, na libertadores de dois mil e alguma coisa, fui no estádio e como ameaçava chuva, comprei uma capa daquelas descartáveis, de plástico transparente, no camelô, por uns cinco reais. Pensei; visto a capa por cima da roupa - ela vai até o meio das canelas, visto a mochila - que tem capa própria, e vou em frente. Hoje passa, amanhã só profissionalizando a proteção. A chuva veio, era daquela de agradar servente de pedreiro em dia de semana. No primeiro pingo que bateu no topo da bota, ele atravessou direto! Senti o pingo passar sem fiscalização pelo gorotek, atravessar entre o dedão e dedo médio do pé e ir bater lá na palmilha. O segundo pingo de chuva demorou um pouquinho pra chegar no peito do pé, mas foi retardado só pelo cadarço. Do terceiro pingo em diante eu estava trocando o passo descoordenadamente, desviando as botas dos pingos d'água. Esbravejei, xinguei toda a geografia desse fabricante, ofendi da face norte até a face sul! Depois que me faltou palavrão o jeito foi me acalmar e deixar as botas encharcarem. Na chuva peregrino só olha o chão, periga passar seta amarela sem ver. O pior não é errar o rumo, é andar e depois ter que voltar tudo debaixo de chuva que tem água, vento e frio, uma combinação que congela os dedos, a ponta do nariz e tudo mais que ficar descoberto. No último vilarejo antes de Logroño tive que parar para esgotar as botas, o goretek só funcionou de dentro para fora - vai ver a produção inverteu a montagem. Depois que a chuva deu trégua tinha mais água dentro das botas que nas poças d'água. A dor na lombar não evoluiu, descobri que era só ajustar uma correia na mochila para a postura ficar mais adequada e o lombo sentir menos. Em contrapartida, hoje o primeiro gominho do abdômen, esse bem embaixo da primeira costela, esse gomo doeu de tanto que fiquei curvado sobre ele ontem. E eu nem sabia que tinha gominho no meu abdômen… aliás, hoje também vi a minha panturrilha. Pela primeira vez na vida meus gambitos estão ficando definidos. Na parte de trás não é mais aquela canetinha reta de sempre, tem gominho também. Tô até pensando em comprar uma bermuda! Agora além de ter o que mostrar na panturrilha, tenho também opinião sobre sair cedo, muito cedo, dos albergues. Não adianta! Só serve para garantir albergue mesmo, porque na corrida de trecho os japoneses saem primeiro, mas os alemães no tuque-tuque-tuque-tuque são imbatíveis, chegam sempre na frente.

(continuando a prosa após colocar jornal dentro das botas)

Assim, geralmente chego no albergue, tomo ducha, tiro uma hora para relaxar o corpo da jornada, troco carinho via whatsapp com a família e amigos no Brasil, depois faço um breve relato dos acontecimentos do dia, os ocorridos que lembro. Minha memória poderia ser caso de estudo - outra hora explico. Depois eu vou lavar roupas, andar pela cidade, jantar, interagir com peregrinos e, se dá tempo, troco mais carinho via whatsapp... Se dá tempo para o povo lá no Brasil, que está em horário comercial, na labuta, como bom filho da pátria. Eu, cá na península ibérica, tenho toda disponibilidade até às luzes se apagarem as vinte e duas horas. O peregrino insiste, baixa a luminosidade da tela, entra dentro do saco de dormir, mas no máximo quarenta minutos após as luzes se apagarem a ôla de roncos começa e ninguém resiste ficar de fora. Hoje foi água que não acabava mais, com vento forte, congelante. Muitos peregrinos chegaram encharcados, não só eu, muita gente está com botas goretek molhada. A senhorinha brasileira, usando capa até meio das canelas, também chegou encharcada e disse que molhou até a "alegrinha". E riu. Se já tinha simpatia após a cantoria no jantar em Cizur Menor, agora que riu de si mesma ganhou um fã. Hoje foi Deus mandando recado; sétimo dia de caminhada sem capa de chuva num período que outros cristãos pedem água dos céus? Abusei. Corri na Decathlon, comprei capa camelo e para tirar a prova dos nove no goretek da TNF trouxe também uma calça impermeável. Tudo certinho, liberei atenção especial Divina neste quesito. Pode mandar água São Pedro! Tem gente plantando nas lavouras que beiram o caminho e já não sou eu a comprometer a safra. Falando em safra, lembrei uma descida no trecho de ontem, vinhedo dum lado mato do outro, ventinho friozinho, eu já estava torto de dor na lombar, querendo parar e nenhuma pedra, banco, tronco, nada para apoiar mochila e corpo. De repente um banco com um homem sentado, lá no final do descidão. Cabia eu direitinho ao lado do bom velhinho, ele fumava. No outro lado da pista, asfaltada, um carro parado e uma senhora, cabelos branquinhos, muito fofa de longe, falava ao celular. Fui chegando, animado, mais uns cem metros iria descansar e quem sabe ganhar uma prosa. O velho me viu, levou um susto, jogou cigarro fora pegou no violino e começou a tocar. Sorri feliz com o inusitado agrado. Nisso a velhinha atravessou a pista correndo, pegou uma sanfona sentou no espaço vago e puxou o fole acompanhando o choro do violino. Mais dez passos e eu teria sentado! Meu sorriso amarelou. Único banco em quilômetros e o casal acha de pedir contribuição ao invés de me deixar sentar? Passei furioso, sem doar um tostão, nem dei confiança! Se me deixassem sentar capaz que ganhariam umas moedas. É... às vezes guardo mágoas. Igual com as coreanas de hoje de manhã, no albergue um banco de madeira, bem uns cinco lugares na frente do armário de botas (botas não entram nos albergues, ficam na entrada, em prateleiras apropriadas, ou seria botaleiras?), todo mundo querendo calçar botas, elas colocam as mochilas no banco e ficam discutindo um mapa no celular. Perguntei em português se as mochilas delas tinham bunda, e emendei, se não tem não precisam sentar. Não entenderam, claro. Outro peregrino riu e, diz ele, repetiu meu questionamento em inglês. Tiraram as mochilas. Me olharam torto. Acordar cedo tira meu humor. Agora faltam doze minutos para encerrar o expediente, foi um dia complicado, mas de Los Arcos a Logroño o trecho é fácil, poucas subidas e descidas, a gente atravessa La Carretera algumas vezes, anda em trilha própria para peregrino uns bons quilômetros, mas emparelhada com a rodovia. Algumas bifurcações estão com sinalização deficiente, precisam um upgrade nas pinturas das setas. Amanhã saio rumo a Nájera. Ah, importante lembrar as benções no meu dia, hoje teve o melhor jantar comunitário até agora. Coisa simples, bem modesta... penso que Deus está principalmente nas pequenas coisas. Boa noite.





OITAVO DIA NO CAMINHO
19/05/2017
Trecho: Logroño até Azofra - 36,8km de distância

Olá… hoje não consegui albergue em Nájera, então tive que caminhar mais seis quilômetros e me hospedei em Azofra. Posso dizer que isso foi apenas um contratempo cansativo. No mais aconteceu só uma coisa importante no dia de hoje. Estava tudo encaminhado para ser mais um dia comum no caminho, sem novidades, sem causo, sem nadica de nada. Lá pelas nove e meia, dez horas eu conheci um russo no caminho. Ele caminhava sozinho, devagar, com um pedaço de galho por cajado, ia tão absorto nos assuntos dele que não percebeu quando fiquei de parelha na ultrapassagem, no que soltei um simpático “bom caminho” ele deu um pulo. Assustou e gritou algo parecido com “Yebat! Sukin syn”... e foi ele pular de lá e eu me assustar com o berro dele e também pular de cá. No que o russo pulou já levantou o cajado improvisado como se fosse me bater, daí eu que sou entendido nos idiomas gestuais captei o jeitão do moço, a bandeirinha pendurada, identifiquei na hora o tipo e russeei o vocabulário e o gestual: “calmokov ô da vodka!” e nisso percebi que meu cajado também estava em posição de porrete. Instinto. Larguei o bastão, levantei as mãos e soltei meu melhor sorriso. O russo afrouxou a pose, mas manteve o porrete em guarda. Insisti: “amigov do kamintonov de satiagovisky… ok?”... Ele baixou o porrete a meia altura. Continuei com a única frase em russo que conheço mais ou menos o significado: “ya tebya lyublyu”... Algo parecido com ‘podemos ser amigos’ segundo um polonês conhecido meu. Acho que o russo estranhou o sotaque, ou a tradução está errada, porque voltou a levantar o galho. Analisei reação dele e por instinto de sobrevivência mudei a tática, voltei para meu estilo: “Balalaika. Komaroff. Moskowita”. E emendei “vou pegaroff meu bastonov”. Como ele ameaçou levantar o galho de pau novamente, apelei com o melhor do idioma russo: “Stolichnaya… cajadovisk” e apontei pro meu bastão no chão. Ele acenou que entendeu, abaixei, peguei meu cajado e me levantei lentamente, mas isso porque as pernas estavam bambas. Estresse! Depois de desfeito o mal entendido me despedi com um “bonov kamintov” e apressei o passo. Tudo certo. E falando em apertar o passo, sair de Logroño é demorado. É a maior cidade até agora, com o maior rio até agora, com o maior número de carros até agora, o maior número de prédios até agora e o maior parque público até agora. Depois de andar bastante atravessando a cidade, com sinalização de setas amarelas deficiente, o peregrino se salva com a sinalização personalizada no calçamento, a gente sai da cidade pelo parque, que tem alamedas lindas, ladeadas por ciprestes, bosque de pinheiros, esquilos mansos e coelhos silvestres. Depois vem um lago enoooorme, onde uns senhorzinhos pescavam com até metade do corpo dentro d'água. Usavam uma espécie de ceroulão de borracha... A gente dá a volta no lago, passa sobre a vazante por uma passarela de madeira onde marrecos, gansos e trutas gigantes ficam pedindo pão. Eles não falam, mas eu sou entendido nos idiomas gestuais dos bichos também, é um conhecimento que serve em todo universo! Dessa vazante em diante é proibido pescar. Se fosse permitido seria fácil almoçar sushi. Depois do lago, terminando o parque já começa a região de Rioja, lembro do nome por causa do vinho! Daí em diante o caminho é ladeado por videiras, vinhedos, parreirais ou bodegas até Nájera, vilarejo que não quis me hospedar, me fez andar mais duas horas e por isso - mais a bota encharcada de ontem, hoje terminei o dia com uma superbolha no calcanhar esquerdo. Não dói, mas tem tanta água que me desidratou. Na passagem pelo monumento de Santo Antão, o sol esturricando e eu com frio, estava com a fleece, vesti também a corta-vento, calcei as luvas, subi o capuz e caminhei uns três quilômetros antes de voltar a sentir calor. Por volta do meio-dia ouvi a mensagem da minha caçulinha no whatsapp e quase finquei o cajado na beira da estrada e voltei para casa “papai, eu te amo igual amo a minha mãe, estou com saudades”. Tem jeito de não chorar? “papai, eu te amo igual amo a minha mãe”! Tem amor maior? Todo o resto dos acontecimentos do dia perdeu a importância.





NONO DIA NO CAMINHO
20/05/2017
Trecho: Azofra até Santo Domingo de La Calzada - 15,2km de distância

Sujeito sai do interiorzão de Minas Gerais, passa uma vida inteira em São Paulo, capital, e continua um caipira. Quase todo albergue tem uma máquina de lavar roupas e outra de secar, o peregrino coloca a roupa lá dentro, fecha, e não precisa programar nada, tem um sistema onde insere três moedas de um euro e a bicha começa o ciclo completo, te entrega a roupa limpa, cheirosa, centrifugada. Úmida. Depois é só colocar mais três moedas de um euro na secadora, apertar o botão de start que em vinte e cinco minutos sai tudo sequinho, quentinho, no friozinho da tarde da até vontade de vestir na hora, e pode vestir, não há contraindicação. Algumas lavadoras não tem “jabon” daí é só pedir na recepção do albergue, fazer a doação fixa de um euro, colocar o jabon junto com a roupas e toca o automático. Sete euros para lavar e secar as roupas do dia é caro? Não se você aguenta lavar na unha, esperar que seque naturalmente numa noitada a dez graus de temperatura, ou queira pendurar na mochila dia seguinte. No meu dia-a-dia convivo com doze brasileiros, pelo menos parte dos brazucas se encontra nos albergues ou nos vilarejos, então reunimos quatro ou cinco montes de roupas do dia, lavamos e secamos tudo junto e fazemos divisão do custo. Praticidade sem frescura, meias, cuecas, calcinhas, lenços, bonés, fleece, camisetas e calças vão para a máquina sem distinção de cores ou odores. Economia, nosso dinheiro vale quase um quarto do valor do deles! Ontem o mineirinho achou que tinha se dando bem! Eu era único brazuca no albergue, talvez porque andei demais, uma lavadora e secadora sem custo. Era só botar as roupas, jabon, programar lavagem, ligar e esperar cinquenta minutos. De grátis? Vou lavar tudo, sou esperto! Coloquei na máquina, coloquei o tal sabão de um euro e comecei a programação para lavagem. Mexe aqui, gira botão ali, aperta lá… não, para. Gira aqui, aperta ali e mexe lá… calma, põe no sessenta ali que é temperatura de secagem, gira para cinquenta aqui que é o tempo de lavagem, aperta isso que é o start. Nada. Nisso já tinha um polonês ajudando, um casal coreano também querendo aprender, os três rapazes suecos, os italianos reclamando que ainda não tinham colocado as mãos nos botões de comando e a canadense jurando que com ela tinha funcionado direitinho. O senhorzinho inglês viu a muvuca e foi esquentar água para o chá. Eu cansei. Fui chamar a hospitaleira, ela achou que eu queria mais jabon, ficou pedindo a moeda de um euro, eu explicando que não era nada disso, ela perdendo a paciência porque a moeda de euro não saia do meu bolso, eu negando a moeda, até que o ajudante dela entendeu e foi lá verificar. Rodou botão, ajustou comando, deu partida e nada. Olhou embaixo, ao lado, atrás e disse “parou”. Simples assim. Parou. Tirou o fio da tomada e voltou para a recepção. Fiquei com as roupas impregnadas de sabão líquido, perdi uma hora do dia na máquina e ainda tive que lavar na mão. Um frio! Foi a noite mais fria até agora. De madrugada precisei esticar um cobertor sobre o saco de dormir. A maioria dos albergues está fornecendo “sabanas” que substitui as roupas de cama. Tem duas peças em tecido-tela branco, uma encapa o colchão e a outra encapa o travesseiro. Alguns fornecem mantas ou cobertores. Mesmo com essa “sabanas”, todos albergues pedem que o peregrino forre a cama com “slipbag” o popular saco de dormir. O caminho de Azofra até Santo Domingo de la Calzada é uma imitação de cenário dos Teletubbies, várias tonalidades de verde uniforme. Tem até um campo de golfe no trecho! Fácil andar, principalmente se pegar um carrinho de golfe emprestado... Fácil ver o horizonte se desmanchar no encontro com as nuvens. Sol, ventinho frio, via cascalhada, poucas subidas e descidas, uma maravilha. De longe se avista a cidade de Santo Domingo da la Calzada, depois ela demora a chegar até seus pés. Retas enganam. A superbolha não incomodou. Entrei na cidade já sabendo que ficaria aqui para entrar na catedral que tem um galinheiro dentro. Estava programado, desde sempre. Fui dos primeiros a chegar na porta do albergue, dois minutos após abrir eu já tinha cama e banho garantido, as treze horas estava na catedral, elegante com minhas meias e chinelos, calça tac-tel e agasalho, bonito, na porta o preço: cinco euros! Cinco euros para ver um galinheiro? “Moço, sou peregrino brasileiro, cinco euros no meu país eu compro uns três quilos de coxa e sobrecoxa.” Irredutível. Não paguei, não entrei e preciso pensar direitinho se vou ficar sem ver isso. Qual outra igreja no mundo tem um galinheiro ocupando espaço dos santos? Mas também, aqui no caminho, com cinco euros eu saboreio meia galinha com saladas e batatas fritas! Em Pamplona eu comi boi e bebi fanta pagando cinco euros! A roupa de ontem não pendurei na mochila durante o dia, coloquei num saco plástico e trouxe para secar aqui no albergue. Logo mais tem jantar comunitário, já fomos ao mercado, cinco brasileiros na mesa e um agregado da Bélgica. Menos de quatro euros para cada um, com direito a vinho crianza de Rioja. Para quem pergunta sobre os custos diários do peregrino, num dia igual hoje, comum, meu gasto total fica nos vinte e cinco euros. Contando com os três euros da secadora. Só não pode ter frescura se quiser economizar, quem não cozinha lava a louça. Se não faz um ou outro, tem que cantar!

(minicrônica após lavar a louça)

Acabou que eu fui lá na igreja conhecer o galinheiro. Não paguei! Fizeram a missa das vinte horas sem aviso, quer dizer, aviso de missa tinha para as onze horas de amanhã, domingo, daí os peregrinos chegam, acham que não terão oportunidade de ver a galinha e pagam três euros para entrar na catedral. É três para uns e cinco para outros, não entendi… Depois de pagar descobre que tem missa às vinte horas. As vinte horas volta na igreja e a galinhada está na vitrine para quem quiser ver de grátis. E ainda leva benção do padre. O pagante fica com cara de tonto? Não sei, eu estava de olho na galinha. Ela olhava de lá e eu de cá, como sou entendido nos gestuais galináceos, e isso é de muita serventia no sítio em Minas, eu tentava, disfarçadamente, claro, pedir para ela soltar um có-có-có lá da vitrine. Não sei se fui tão discreto que ela nem percebeu meus pedidos, ou se é porque as duas frangas não estão acostumadas a atender pedidos, sei que nenhuma delas foi simpática comigo. E fui pego no susto, saí para comprar leite, pão e ‘colacao’ para o lanchinho das vinte uma e trinta e as senhorinhas da vila entrando na catedral, entrei atrás e pronto, eu com a compra toda na mão, sem sacolas, pois aqui uma sacola no mercado custa cinco centavos e isso é muito dinheiro. Eu estava elegantemente trajando calça de tac-tel preta com duas listras brancas inspirada no padrão Adidas, meião de dormir (esgarçado), havaianas azul marinho e um agasalho verde água, última moda no caminho! E obviamente despenteado para combinar com barba de dez dias, cada vez que eu tentava me virar para estabelecer comunicação com as frangas, dava de cara com alguém franzindo o cenho. Mais a mais elas me pareceram de granja, essas não são educadas para entender a linguagem gestual de praxe que produz um bom relacionamento entre frangos e sitiantes. Em Minas minha criação parecia adestrada, mas não era, passava de galinha mãe para franga filha os bons modos. Deixe! A catedral é bonita, a gente entra e já dá de frente com o poleiro bem iluminado, duas frangas branquinhas, parecem tristes, mas o padre nem liga para as emoções e sentimentos das pobrezinhas, começa a missa, o sacristão informa as ordens do dia, as galinhas se animam, o padre vem e fala lá na frente e as galinhas começam a andar, parece que desfilam já com alguma felicidade, nisso o cristão precisa virar de costas para as criaturas e prestar atenção na missa, de frente para o padre. Sem o povo prestar atenção elas abandonam de vez a tristeza inicial, até correm no galinheiro. Pensei que se demorasse mais um pouco elas cocoricariam, porque cantar mesmo é coisa de galo e na gaiola envidraçada não tinha macho. Isso eu sei. Colacao. Cola Cao na verdade, você que está vindo para o caminho, não deixe de tomar. É tipo o Nescau ou o Toddy, só que tem cacau de verdade e não tem muito açúcar, uma delícia no leite morno. Energia com gosto. Sobre comercializar o caminho, eu acho natural que todos os locais queiram lucrar com o turismo, isso aqui é turismo antes de tudo. Teve um trecho aí, não lembro mais aonde, que andei uns cinco quilômetros sem água, milagrosamente numa curva tinha um carro parado, ao lado um guarda sol e embaixo dele um vivente com um caixote repleto de frutas e um isopor. Tinha uma plaquinha “aceito doações” - não no nosso português, claro, já estou facilitando. Eu parei perguntei se tinha água e ele me respondeu “um euro”... Vou condenar quem está me salvando? Bebi feliz da vida e ainda agradeci. Duzentos metros a frente outra curva e uma fonte. Potável. Aí eu até pensei em voltar lá, dar uma cajadada na moleira do moço, pegar meu euro, negociar para devolver ao menos cinquenta centavos em troca de eu deixar meu cajado longe da cocuruta dele. Fiz nada disso. Enchi a garrafinha e continuei o caminho, foi isso que vim fazer aqui. Aliás, não estou procurando nada no caminho, não vim pagar promessa, não estou com problemas para resolver, não vim meditar, não vim pela fé, não estou em busca de respostas e muito menos vou escrever livro. Já publiquei os livros que eu quis publicar, isso não dá dinheiro, é chato fazer livro no Brasil. Estou aqui pra andar de St Jean Pied de Port a Finisterra e poder me gabar desse feito. Boa noite, são vinte uma horas e quarenta e nove minutos, vou tomar meu colacao que a freira já mandou liberar a cozinha, dez em ponto as luzes se apagam.





DÉCIMO DIA NO CAMINHO
21/05/2017
Trecho: Santo Domingo de La Calzada até Villambistia - 29,7km de distância

Está virando rotina não encontrar pouso no final do expediente. Eu e um italiano desenhista estamos disputando quem sai mais tarde dos albergues, ele está ganhando, em contrapartida passou agora a pouco em direção ao próximo vilarejo, não anda, corre! Têm umas trezentas pessoas no meu grupo de arribação, no bandogado, é uma horda que só cresce porque a cada cidade mais dois ou três se juntam aos oitenta/cem que começaram em St Jean Pied de Port dia doze de maio. Éramos cinco brasileiros em St Jean Pied de Port, já somos uns quarenta em Belorado, quero dizer, uns quinze não conseguiram albergue, eu tô no meio, subimos para a próxima parada, um pouco do povo ficou lá, eu avancei mais dois vilarejos, consegui liteira em… deixeuleronomeaqui… Villambistia. Estou num albergue simpático, apenas quatorze camas, ou liteiras, quatro sortudos são brazucas, incluindo eu. O bom é que o jantar e o café da manhã estão incluídos da hospedagem. O ruim é que andei mais que os vinte e dois quilômetros planejados e estou detonado. Hoje o caminho todo foi um cenário de Teletubbies, tantos campos verdejantes que eu tinha a impressão que a qualquer momento o Tinky-Winky surgiria correndo, ia me agarrar e rolaríamos morro abaixo enquanto o sol soltaria uma gargalhada de bebê. Lá na frente, os peregrinos retardatários começando a surgir e eu identificando pelas cores. Parece fórmula um, pela cor do carro e do capacete se sabe quem é quem. As cabeças pretas são os panamenhos com chapéu Panamá preto. Depois as senhoras coreanas, usam roupas parecidas, chapéus parecidos, levam mochilas parecidas, os homens andam rápido e as esperam no próximo vilarejo, ficam tomando cerveja e fumando, quando elas estão chegando se levantam e vão adiante. Morro de dó. Cultura deles, deixa. Falando nos coreanos, essa noite em Santo Domingo de la Calzada dormi no mesmo quarto que uns nove deles, no bandogado são uns vinte. Eles não roncam, em compensação soltam pum. Todos eles. Homens, mulheres, jovens... Crianças não tem, eu não sei por que não trouxeram ninguém abaixo de dezoito anos. Vários acima de sessenta. Quando chegam nos albergues as mulheres pegam as maiores panelas e começam cozinhar cebolas, repolhos, cenouras, etc, etc e vira um sopão de caldo esbranquiçado que fica pronto ao mesmo tempo que os homens terminam o banho. Às vezes tem pedaços de frango na sopa. Frango esbranquiçado. Elas servem os pratos, eles começam a comer e elas vão lavar as roupas do dia. Depois chegam os jovens e comem. É o tempo de elas também tomarem banho e comerem. Nessa hora as moças vão lavar louça, os moços continuam sentados com as senhoras, os homens que foram fumar voltam e ficam todos sentados bebendo cerveja e conversando no idioma deles. Não interagem muito, os jovens se soltam um pouco quando os idosos estão distraídos. Não liberam mesa em refeitório, ficam conversando e bebendo cerveja até as luzes se apagarem. Comem repolho com cebola, dormem e não roncam. Soltam pum. Se no quarto ao lado teve a rotineira ôla de roncos, no meu teve a sinfonia de sopros. Foi flautim, fagote, trombone, tuba e até um eufônio. Determinado momento eu peguei minha corta-vento e comecei a girar no ar como se fosse um ventilador, o coreano de meia idade colocou a cabeça pra fora do beliche achando que ia me intimidar, fiz o gestual universal para futum: polegar e indicador segurando a ponta do nariz de modo a obstruir as narinas e fiz careta. Ele recolheu a cabeça como uma tartaruga diante do perigo. Deve ser normal na cultura deles, na terra deles, na casa deles! Depois fiquei pensando que os coreanos devem ficar horrorizados com coisas que para nós é trivial. Cada povo um estranhamento. Os mesmos coreanos estranharam que não cozinhamos o presunto e colocamos no meio do pão para comer. Adoraram cebola em conserva que a brasileira do vale do Jequitinhonha ofereceu. Só os homens comeram antes de saber que era bom, depois de aprovado todos puderam se servir. Eu devo ser um bicho de sete cabeças depois dessa noite girando a corta-vento no quarto. Ou acham que todo brasileiro faz isso para espantar maus espíritos do sonho. O que eu estava falando mesmo? Ah sim, da fórmula um dos peregrinos, casal compra roupa ornando, chapéu igual, mochila igual, bota igual, chinelo igual, chegam para fazer o caminho tudo combinadinho. Uma fofura. Até começar o subidão, daí a fofura fica de lado e cada um pisa de um jeito, respira de outro, suor não orna mais, então um larga da mão do outro, é cada um por si e o cajado pra todos. A sintonia só volta quando chega no retão cheio de florzinhas, daí um pega na mão do outro, faz selfie e os dois seguem felizes para sempre. Fácil identificar o par de vasos na corrida. Após dez dias de caminho, eu consigo saber quem é quem a minha frente só pelo conjunto de cores: chapéu, mochila, blusa, calça. Povo troca todo dia a roupa íntima, mas agasalho, corta-vento, mochila e chapéu, sempre o mesmo. Todo dia o grosso da turma sai hora e meia a duas horas antes, nos oito quilômetros seguinte já sei quem vou ultrapassar e quem vai dar trabalho. Tá muito previsível! Estava até pensando em adiantar um trecho, ou atrasar, todo mundo segue o guia da Michelin, param na mesma cidade que o guia indica, procuram o mesmo albergue municipal antes de lotar, depois correm em bloco para as opções que o guia conhece. Todo mundo tem o livrinho de capa verde! Pensei mesmo em andar de três cidades a mais por dia, no terceiro dia estaria um trecho a frente, com outro bloco de gente seguindo o mesmo guia verdinho, mas com outras pessoas para conhecer, pagar mico, contar histórias! Só penso, não me afasto do bandogado, meus trezentos amiguinhos já são da família, até os coreanos estão na minha afeição, eles são ótimos, o único complicador é que a cada dez só um fala outro idioma, geralmente o inglês. Eu não falo inglês, então entendo metade do que me falam e respondo só as partes que entendi... nem dá rolo. Invariavelmente é aí que os coreanos começam a rir no idioma deles e eu no meu. Mas dividir quarto essa noite traumatizou. Os húngaros sumiram.





DÉCIMO PRIMEIRO DIA NO CAMINHO
22/05/2017
Trecho: Villambistia até Atapuerca - 23,3km de distância

Sabe o que é passar fome com dinheiro no bolso? Vem para o caminho que você vai descobrir! Deu duas da tarde fecha tudo! Tudo mesmo. Se o faminto não quiser estourar o orçamento nos bares (boteco nunca fecha), o jeito é esperar o comércio honesto abrir novamente, entre dezesseis e dezessete volta a dona da Tenda toda pomposa e recomeça as vendas. Tenda é mercado, ou quitanda, ou mercado com quitanda e paneteria… enfim, lugar que vende os trem que peregrino precisa! Se tua compra deu sete euros e trinta e oito centavos e você pagou com uma nota de dez euros, ela vai te devolver dois euros e sessenta e dois centavos. Se a compra deu noventa euros e um centavo, você deve pagar os noventa euros e o um centavo. Aqui a porca torce o rabo por cada moedinha! Não tem essa de existir o valor monetário sem que haja moeda correspondente. Cada centavo é cobrado e também devolvido em troco, sem arredondados. Nem balinhas! Nem tô sem troco na próxima te pago. Da briga! Da cadeia. Deve dar cadeia, pela questão que fazem em receber ou pagar. Ê Brasil! Saudadocê… hoje saí de… aquela vila que escrevi o nome ontem, lembra? Eu não. Então, sai rumo a San Juan de Ortega. Sol nascendo, nenhuma nuvem no céu, eu já intui que seria mais um dia sem estrear minha capa, minha calça impermeável e sem tirar a prova dos nove com a bota The North Face com goretek. Cenário de Teletubbies pelo terceiro dia seguido, até passar pelo segundo vilarejo do trecho, então começa o subidão entre bosques. É um trecho de bastante esforço. Perna bambeia, coração acelera e o topo não chega. O jeito é parar na próxima sombra, dar gole na água, desacelerar o coração e depois continuar. Tem uns locais próprios para os peregrinos se restabelecerem, chamam de “Refugio”. Refugio Orisson, Refugio Villatuerta, Refugio Isso, Refugio Aquilo, ou só Refugio. O município oferece mesas, assentos, sombra, água fresca, jumento, lixeira… jumento? Sim, um primo ibérico do nosso jegue está no caminho, tem carimbo para a credencial e você pode fazer uma doação, contei uns oito euros na cuia. E o jumentinho não tem nada de especial, ele só fica para lá, batendo o rabo de um lado para o outro espantando moscas. Pode tirar foto. Pode carimbar credencial. Depois do jumento o caminho continua cortando bosques, árvores estranhas de um lado e pinheiral do outro. No próximo refugio tem tudo outra vez, bancos, sombras, águas, doações, carimbos, menos o jegue. Mas tem uns pedaços de árvores pintados, esculpidos, cortados em rodelas de madeira com nomes de casais, de solteiros, de lugares, de amores, tudo espalhado na orla do bosque. Daí eu como a maçã e jogo o miolo na mata, ouço um resmungo. Como um pêssego de gosto duvidoso, jogo o caroço na orla da mata. Ouço outro resmungo. Viro os olhos em direção ao resmungo, a italiana gordinha agita as mãos e no meu conhecimento de gestuais italianados, ela está dizendo que brasileiro é porco, que brasileiro joga lixo em qualquer lugar, que brasileiro é isso, que brasileiro é aquilo, entre outros desaforos. Eu dou um sorriso, daquele tipo emoji com sorrisão e mexo minhas mãos magras em direção a italiana. No meu pensamento eu disse algo “não joguei em qualquer lugar, joguei no mato” ela deve ter entendido outra coisa porque as faces redondas ficaram coradas, as mãozinhas gordinhas se aproximaram perigosamente da minha cara e a boquinha gordinha dela disparou uma fala sincronizada com os gestuais. Eu poderia entender tudo se conseguisse enxergar as mãos dela, mas estava sem óculos de leitura, e bem pertinho assim... não consigo sem óculos! Durante uns cinco minutos eu tentei interromper a italiana e ela parole, parole, parole, discursando as razões dela. Tentei falar as minhas razões, não dava. Encheu meus pacovás e eu apelei, segurei firme as mãozinhas gordinhas. Ela se assustou e até queria falar algo, mas o povo italiano se você segura as mãos deles acabou, eles não conseguem verbalizar. A boquinha gordinha fazia bico e só saia um chiado. Daí eu falei em italiano, mas vou contar aqui traduzido porque o meu italiano é diferente daquele que o resto do mundo entende: “moça, eu joguei sementes no mato. Com muita sorte vão germinar, virar plantinhas, crescer pés de pêssegos e de maçãs por aqui e em dez anos os peregrinos terão frutos neste ponto de parada. É sorte, é loteria, mas é uma possibilidade”. Ela suava, tremia, estava ficando roxa, eu temendo uma síncope soltei as mãos da moça. Parole, parole, parole, parole… ameacei prender as mãos dela novamente e ela parou, recuou um passo. Mas eu entendi que dizia algo sobre o chão que estava seco, não era tempo de plantio, essas coisas. Respondi no meu italiano macarrônico que a semente tinha ficado com uma reserva de saliva para isso mesmo, e deixar saliva na semente era uma técnica brasileira de produção no agreste. Ela duvidou, mas eu devia estar com uma cara tão séria que encerrou a prosa. Recolheu as mãozinhas gordinhas, pegou o bastãozinho, a mochilinha e saiu pisando forte com suas perninhas gordotas, uma simpatia! Preciso parar de falar com esse povo que não entende meu idioma gesticulático. O mundo não está pronto para minha poliglotice gestual. Acabou que estiquei o tempo no refugio, nenhuma relação com o entrevero com a italianinha, foi preguiça mesmo, depois despreguicei e sai caminhando, passei por San Juan de Ortega, que segundo a placa de informações tem dezoito habitantes e vim parar em Atapuerca, que traduzido para o meu português quer dizer, Porca Amarrada. Me preocupa o teto do albergue. Postei uma foto no meu Instagram (#betomuniz65). E se chover? Creio que vai vazar mais água que minha bota (ainda desconfio do goretek), periga eu estrear a capa de chuva aqui dentro. Capa de chuva! Quatrocentos gramas a mais na mochila, quase quarenta euros a menos na minha carteira e água que é bom não cai do céu. Antes de encerrar preciso elogiar. Ontem jantei tão bem! Imaculada, a hospitaleira lá da vila de ontem, só faltou fazer arroz, feijão e bife acebolado. De resto fez de um tudo para nos agradar, eu e mais três brasileiros. Tem gente que tem o dom, eu não tenho dom nenhum, então só me resta aplaudir e orar. Obrigado Imaculada, Deus te conserve a saúde e prolongue teus dias sobre a face da terra. Amém.





DÉCIMO SEGUNDO DIA NO CAMINHO
23/05/2017
Trecho: Atapuerca até Tardajos - 31,5km de distância

Passei direto por Burgos. É cidade que não acaba mais! De quando comecei a dar a volta no aeroporto até passar a última casa, na última esquina da cidade, foi bem umas três horas de solado gasto, fora o tempo das fotos e das bençãos. E o que é aquela catedral? Show. Fora outros monumentos históricos que tem pelo trajeto. Perdi quase todas as fotos, só salvaram umas que eu já tinha enviado para o Instagram. Coisas do celular que precisei desligar e reiniciar. A caminhada no meu décimo segundo dia de estrada começou as sete e trinta da manhã, subidão de pedras. Pura pedra! De um lado área de militares, do outro lado área de mandalas. O povo peregrino fica carregando pedra para aumentar as mandalas, os monturos, os corações, os nomes, as setas. Tudo feito com ajuntamento de pedras brancas de vários tamanhos e formatos. Tem uma mandala que está gigante, o povo fica dando voltas dentro dela e meditando, e colocando mais pedras para aumentar o tamanho dela. Até falta pedra solta neste trecho, de tanto que já carregaram para as obras de peregrinos. Pensei no jumento de ontem… se algum empreendedor colocar uma marreta para o peregrino quebrar pedra, em troca de doações e carimbo na credencial, vai render mais que o burro. Uma pedra, uma doação e uma carimbada, casal leva duas pedras faz só uma doação e recebe duas carimbadas. Depois do descidão das mandalas, só estradinha de cascalho branco cortando cenários de Teletubbies. E dá-lhe bota até chegar no alambrado que cerca o aeroporto de Burgos. O chão está coberto por asfalto triturado e vai assim até entrar na cidade. Falei das bençãos? Virei santo hoje. Burgos é muito mal sinalizada para o peregrino, de repente as setas amarelas desaparecem e o andante não acha marcações no piso, nem nos postes, nem nada. Peguei meu guia Michelin, que tem o mapa da cidade e notei que deveria atravessar a cidade seguindo o rio. Fiz isso. E tem uma Alameda margeando o rio, tão longa que o final some de vista. Fui por ela, movimentadíssima. Parecia domingão no parque do Ibirapuera, pedestres, ciclistas, excursões, grupos de idosos, yoga, cães, crianças… escolares! Nenhum peregrino a vista, só eu tirando foto daqui e dali, batendo cajado no paralelepípedo. O primeiro grupo de escolares passou olhando. Pelas carinhas de “ohhhhhhh” parecia que nunca tinham ficado tão próximo de um peregrino raiz. Botas empoeiradas, cara de mendigo, cara de fedido, mochilão nas costas, bastão de madeira, fleece num sol de rachar mamonas. Eu! Os alunos do segundo grupo me viram de longe, um cutucou o outro, os da frente reduziram o passo, os do meio trombaram nos da frente e os de trás imprensaram a massa de meninos e meninas do meio. Virou um bolo de crianças na faixa etária de seis, sete anos. O monitor, professor, ou seja lá o nome que dão ao adulto responsável pela excursão, veio ver o motivo dos atropelos e deu de cara comigo. Assuntou meu jeitão, assuntou as carinhas de ohhhhhhh, percebeu a oportunidade de impressionar os pupilos e informou ao grupelho no idioma dele, que eu poliglotamente já traduzi: “este homem é um peregrino” … “ohhhhhhh"... Parei, me fiz simpático a causa do bedel. Ele se animou: “ele está caminhando há dias, atravessando parte da Espanha para visitar o túmulo do apostolo Santiago” … “ohhhhhhh"... no terceiro ohhhhhhh um atrevido saiu do monturo de crianças e estendeu o dedinho indicador até tocar no cajado. Soltou um “Ohhhhhhh" e outros dedinhos começaram a cutucar o cajado. Deixei que pegassem. Pararam com o ohhhhhhh, no entanto continuaram com olhar estatalado, chegando, cheirando, encostando em mim, cutucando a mochila, Um pezinho calçando tênis pisou a ponta da minha bota, outra mãozinha puxou a alça da mochila, a menina quis pegar a vieira, a nerdzinha puxava minha fleece perguntando se eu sentia calor. Nisso o primeiro grupo, aquele que já havia passado, retornou e também se amontoavam uns em cima dos outros e todos em cima de mim. Mochila pesando nas costas, eu não podia mais me mexer, imprensado na horda. Finalmente saiu do controle, um garoto me empurrou, dei um passo para trás e tropecei em alguém, perdi o equilíbrio e quase despenquei esmagando meia dúzia de pimpolhos. Mochila nas costas! O mestre de cerimônias percebeu que a coisa toda desandou e começou a correr em volta dos seus pestinhas, falando algo que eu não entendi, mas pelo gestual e aflição dele, lá em Minas Gerais significaria que ele estava cercando frango pra virar mistura no jantar. Eu resolvi dar um basta e pedi o cajado de volta, a menina antes de devolver caiu na besteira de perguntar se eu era um santo que abençoava as pessoas. Eu sou muito besta. Eu sou tão besta que não percebi a armadilha... Eu não ia estragar a mística do momento, respondi que sim. Pronto! Pediu benção. Fiquei bem sério, solicitei que inclinasse a cabeça, fechasse os olhos e toquei de leve sua testa com o bastão e falei, em português para deixar o momento mais solene: “Eu te abençoo e desejo que sejas forte na adversidade. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Por alguns segundos achei que tinha usado o nome de Deus e da Santa Trindade em vão, mas foi só uns segundos, a criança abriu os olhos e sorriu tão iluminado que seria impossível Deus se ofender. Mas também não deu tempo de ficar neste pensamento cândido, nem com essa imagem linda, três dezenas de pestinhas já me empurravam, cutucavam e gritavam, para desespero do monitor, que agora contava com ajuda de dois outros adultos para cercar e pegar o frango do jantar. Resultado, tive que abençoar todo mundo. Os pestinhas eufóricos querendo benção e eu pensando um jeito de me ver livre, estava imprensado, sentado na mureta que protege o rio… a mureta é de pedra, resistente, mas baixa, antes de algum acidente mandei fazerem fila. Não é que entenderam? Magicamente surgiu uma comportada fila indiana, uns trinta infantes com carinha de anjo. Coloquei um joelho no chão, fiquei com o outro dobrado, a mochila nas costas, e toquei meu cajado na testa de cada um dizendo em português para continuar solene: “Deus te abençoe e te faça forte nas adversidades”. Na dúvida tirei a trindade da história e o meu da reta, até porque me senti infringindo o artigo um sete um do código celestial abençoando inocentes. Depois da bastonada na testa (com carinho), acalmaram e foram com os três adultos. O sujeito que cercava o frango passou por mim, suado e vermelho, pedindo desculpas e se foi. Eu continuei meu caminho. Esse meu Caminho de Santiago de Compostela! É cada surpresa… andei até Tardajos. Ontem eu estava em Atapuerca. Uns trinta e dois quilômetros de bota, estou cansado, internet está ruim, falhando. Amanhã quero chegar em Hontanas, talvez estender até Castrojeriz. Tô bom com os nomes dos pueblos, né? É que o livrinho verde está aberto na minha frente, estou evitando as cidades indicadas pela Michelin. Boa noite!





DÉCIMO TERCEIRO DIA NO CAMINHO
24/05/2017
Trecho: Tardajos até Hontanas - 21,5km de distância

Parei em Hontanas hoje, pretendia ir até Castrojeriz, mas o sol está de matar. Aviso a quem virá para o caminho: não programe parada em San Bol. San Bol fica a seis, sete quilômetros após Hornillos del Camino, mas não tem nada. Nenhum habitante, nenhuma Paneteria, nenhuma Tenda, nenhum Bar, nem fonte de água, nem igreja, nem casas, nada. Apenas um albergue com vinte camas no meio do nada. Lembrei do filme Drink no inferno, do Quentin Tarantino. Se você não assistiu assista, tem George Clooney, Salma Hayek, Julliete Lewis entre outros... pesquisei no google, achou o que? Que minha memória funciona para futilidades e celebridades? Não funciona. Filmaço, vai te convencer a não parar em San Bol. Hontanas é um vilarejo quase completo, só não tem tenda. O vilarejo parece que está sobre a cratera de um meteorito, buracão rodeado de pedras brancas, igreja torruda com sinos que marcam as horas e a missa. Fui à missa do peregrino, do padre ganhei uma cruz num cordão. Tem vários albergues, fiquei no municipal para não perder a mania, mas os outros, os privados, tem preço e serviços compatíveis e Wi-Fi de brinde (internet está valendo ouro). Então, hoje eu ia falar da velhinha, alemoa, ciclista solitária que caiu bem na minha frente, eu tentei ajudar… também teve o cachorrinho que estava correndo atrás do trator, seguindo o dono, provavelmente, e acabou com as patinhas machucadas e não tive como ajudar… mas nada disso é interessante porque envolve dores e vou falar de como se come no caminho. Eu não sou comedor! Sou bebedor. Acordo pela manhã e bebo meio litro de alguma coisa, pode ser suco de laranja ou abacaxi, pode ser um isotônico tipo Gatorade, pode ser um batido de chocolate, pode ser água. Tenho que beber! Depois começo a caminhada, entre um e dois quilômetros depois faço os alongamentos. Sim, é preciso aquecer antes de alongar, não deve exigir nada dos músculos antes deles acordarem. Imagine seus músculos cansados de ontem, estão dormindo de boa e você acorda os coitados no grito: “acorda vagabundo! Tá achando que está aonde? No spa?” Ou pior, joga na cara que está gastando com alimentos: “Tá achando que vou sustentar preguiçoso? Tá achando que vou gastar proteínas com musculatura dorminhoca? Acha que fazer reposição de sais minerais e magnésio pra você ficar de boa? Safado, trate de saltar!” … é mais ou menos isso que você faz quando alonga musculatura fria, trata seu músculo no grito, sem carinho. Periga ele espanar, pedir pra sair, desertar. Comida! Precisamos basicamente de proteínas para fazer o caminho. Eu como ovo cozido. Compro meia dúzia, cozinho no albergue, guardo na mochila com casca, como dois por dia nos percursos. Ovo na casca aguenta dois dias sem estragar, de boa. No caminho se come basicamente macarrão, aqui chamado de “pasta”, esqueça o tradicional arroz com feijão e bife. Isso não te pertence, não pertence ao Caminho, não pertence a cultura européia. Tortilhas. Os espanhóis fazem um omeletão com batatas cozidas do tamanho de uma pizza pequena, elas ficam parecendo bolo, cortam em seis ou oito pedaços e vendem por preços que variam entre um euro e cinquenta centavos até três euros e cinquenta centavos. Quando estou sem ovo cozido, como uma tortilha no café da manhã. Geralmente eles servem com fatia de pão tipo baguette. Aliás, quase tudo é servido com “pan”. Você pede “pasta”, vem com pão. Pede uma ‘vaso de viño’, vem umas fatias de pão. Pede tortilhas, vem pão. Às vezes fazem sanduíche dessa tortilha. Pede salada, vem também o pão. Frango? Tem pão. Pede pão e periga vir acompanhado de fatias de pão. Bocadilho. É sanduíche. Você pode comer bocadilho de jamón (não confundir com jabon), bocadilho de pavo, de chouriço, de salsichão, de polo. Tudo isso é metade de um baguete deles, que tem uns sessenta centímetros de tamanho, portanto são trinta centímetros de pão com algum embutido. Jamón é tipo presunto, pavo é peito de peru, salsichão é salame. Isso tudo fatiado, generoso, saboroso, porque os embutidos deles são muito superiores aos nossos sadias, searas, perdigões e auroras. Nem se compara! E o costume é tacar azeite no pão antes de deitar o embutido. Pizza. Todo bar assa pizza... Opa, não vem com pão e dá pra uma pessoa. Tapas, não é pescoção no pé da orelha, são tira-gosto, aperitivos que acompanham a bebida. Vai desde fatias de pão, lascas de embutido, linguiça, amendoim até chips. Todo bar serve vinho, “vaso” a um euro, acompanha pão ou azeitonas. “Vaso” é a taça ou copo! Escolha azeitonas, não tem absolutamente nada em comum com nossas azeitonas em conservas. São cozidas, tem sabor, não tem gosto de vinagre e sódio. Uma delícia. Rárra de cerveza, nem precisa traduzir... OK, meio litro de chopp no canecão que parece uma jarra. Paella, se come em alguns lugares e não preciso explicar que é a tentativa dos espanhóis de imitar a galinhada mineira, sem galinha. Paellas podem ter gambas, não fede, é camarão! Ensalada mixta, são saladas com dois ou três tipos de verduras, tomate, iscas de frango ou porção de atum ralado, mais ovo, azeite e vinagre. Huevos, ovo. Se come maravilhosamente bem no caminho. Menu peregrino pode ter água, vinho, cerveja, pão, salada, sopa, massa e carne de terneiro, de porco, de frango ou peixe. Bovino é terneiro. Suíno é cerdo. Frango já falei, é pollo. Não falei? A gente escolhe uma bebida, o primeiro prato, o segundo prato e o “postre”, pão e azeite é complemento. Menu peregrino tem em todos restaurantes e alguns bares, no máximo quinze euros, no mínimo oito euros. Não achei mais barato que isso. “Postre” é sobremesa. Fome não se passa! Eu bebo muito, já falei, suco ou batido de chocolate, que é nosso Toddynho, só que aqui com bem menos açúcar e, pasmem, tem cacau. E tem de um litro! Antes de caminhar só líquidos, depois de uns três a cinco quilômetros andando eu paro, como pão com sardinha, ou pão com pechuga de pavo ou pollo, ou pão com queijo. Pavo é peru, pechuga é peito. E dia sim dia não tomo uma cápsula de potássio com magnésio, suplemento vendido em qualquer farmácia por cinco euros. Vem quatorze cápsulas. Banana aqui é caro. Suco de laranja natural é reduzido, servido em taças de vinho. Maçã só a verde. Frutas em geral são caras, talvez porque está fora de época, agora é a vez das flores. Carne bovina uma fortuna, uma bisteca trinta e oito euros. Pollo é comum e mais em conta, para carnívoros. Meio galeto com salada e batatas fritas, seis euros. Pão acompanha. Enfim, eu gasto a média de quinze euros por dia com alimentação. Quase todo albergue tem cozinha, melhor fazer o jantar. Nos bares gasto com o jarrão de cerveja, são três euros na chegada ao destino do dia, pra refrescar se está sol de rachar. Para relaxar, a taça de vinho (com azeitonas) antes do jantar, menos de dois euros. Se estiver em dois ou mais peregrinos na mesa peça a botella, garrafa, mesmo preço de duas taças. Nos bares também compro a tortilha do café da manhã, ou o bocadilho no almoço. Nas tendas costumo comprar o litro de suco, ou litro de batido de chocolate, isotônico, ovo, sardinha em conserva, frutas e itens do jantar comunitário. Inclusive garrafa de vinho por dois a três euros. Escolha o vinho pela região que você estiver, em Rioja tome os vinhos de Rioja. Nas padarias compro o pão - vendem também só metade do pão, embutidos fatiados na hora, pode pedir só uma fatia, ou duas, o tendeiro não vai brigar. Cada centavo será cobrado, lembra? Na farmácia suplemento de potássio e magnésio para a musculatura. Albergue, a maioria tem máquina automática para café, cerveja lata, refrigerante lata, salgadinhos, castanhas e coisiquitas. Ande com moedas de um euro. Salgadinhos tipo elmachips daqui também são diferentes, tem mais sabor. Biscoito aqui é bolo, vende no bar, junto com o croissant que é croissant mesmo. Pronto. Hoje a conversa foi séria, mas isso também é importante ser falado, né? E vale o ditado: “Con pan y vino se hace el camino” que traduzido quer dizer isso mesmo. Aqui o mais barato é o pão e o vinho. Com cinco euros se compra uma baguete de sessenta centímetros (saída do forno na hora) e uma garrafa de vinho (nacional, que aqui é Espanha), se você fizer amizade, divide o pão e a garrafa de vinho durante uma prosa. Eu atesto, na prosa com amigos o pão fica mais bão e o vinho fica mió. E não vou mais tocar nesse assunto! Queria mesmo falar da velhinha alemã que eu quase ajudei. Acabei andando só vinte quilômetros hoje. Estradinhas de cascalho branco até Hornillos del Camino, depois subidas de pedras castanho-ambar ladeadas por cenários de Teletubbies a perder de vista, um sol para cada peregrino. Tédio. Não fosse a alemã da bicicleta e o cachorro atrás do trator, eu teria ficado no primeiro vilarejo depois de Tardajos. Amanhã conto tudo! Ou não, vai que no meu caminho apareça assunto melhor...





DÉCIMO QUARTO DIA NO CAMINHO
25/05/2017
Trecho: Hontanas até Boadilla del Camino - 26km de distância

Dia difícil. Sol intenso, caminho com subidão colossal de Castrojeriz para Boadilla del Camino. Saindo do cenário de Teletubbies para Rogue One, mas não foi só trocar o fundo do palco, tive que me arrastar por longos nove quilômetros de subida, pedras brancas, soltas, quentes, forno sob os pés e lava solar derramando na cocuruta. Ainda faltando quilômetros, só o cenário muda. O coração acelera, nenhuma sombra, a boca seca, a água no cantil ferve. A torre da igreja surge lá no horizonte e dá ânimo novo imaginar sombra, fonte de água gelada, um bocadilho misto - jamón e queijo, o estômago concorda e ronca, a sola dos pés queimam, suor descendo pelas pernas e entrando pelas botas. Nenhuma nuvem no céu. A torre da igreja sumiu. Rogue One ficou para trás, novamente cenário de campos verdes e eu chamo: Laa-Laa? Po? Think Winky? Dipsy? Cadê vocês? O sol gargalha e não me parece um bebê feliz. Estou delirando. A torre da igreja também foi um delírio. O chão de barro seco está marcado, milhares de outras botas já pisaram aqui, os passos ficaram gravados na lama que secou. Um dia, e faz centenas de anos, já choveu por aqui. Vários tamanhos e formatos de calçados se sobrepondo e misturando com marcas de bicicletas, rastro de cavalos, pneus de carros, tratores… Botas predominam. Quantos peregrinos com seus sonhos pisaram este solo antes de mim? Começo a imaginar as razões de cada um, a minha é poder me gabar de ter passado por aqui. As razões do chinês franzino que carrega duas mochilas, quais serão? Ele não conversa, não interage, não diz nada, apenas anda trôpego sob o peso absurdo de duas cargueiras. Ninguém sabe a razão. Ele parece que não vai suportar, mas no fim do dia encontro ele nos mesmos albergues que eu. Ele dorme antes do sol se por e sai antes do sol nascer, diariamente eu o ultrapasso em algum subidão, aceno e desejo “bom caminho” em português mesmo, ele acena de volta sem dizer nada. E continua no seu passo trôpego, frágil, agonizante. Ontem no gramado do albergue ele sentou, descalçou as botas e puder ver seus pés repletos de bolhas, algumas secas, outras em carne. Naquele instante eu senti dor por ele, senti empatia, e no minuto seguinte esqueci. O caminho é duro e não tem memória. Suas botas vão marcar sutilmente esse solo endurecido, as minhas botas também deixam apenas vestígios de pegadas, somos anônimos no caminho e em breve estaremos esquecidos. O caminho fica vivo em cada um eternamente, a recíproca não é verdadeira, o caminho nem mesmo sabe que estamos passando por aqui. Não é atribuição ele ter memória, não é. Ele só existe. Se chover meus passos ficarão marcados na lama até que outro peregrino pise, com sorte uma de minhas pegadas sobreviverá marcada no barro endurecido. Ela será parte do caminho até a próxima chuva… e depois, um dia depois, ninguém mais, nem eu, saberia dizer que foi meu pé que pisou ali. Cada pé, cada passo, cada pisada é que faz a magia acontecer. A torre reaparece no horizonte, eu não ligo mais para miragens, deixo que a torre da igreja cresça no campo de visão lentamente, até provar que não é miragem. Alguém arrastou o vilarejo alguns quilômetros e preciso caminhar para alcançá-lo, deve estar a dois quilômetros ainda. Laa-Laa? Po? Nenhum Teletubbie surge, apenas uma nuvem cresce no horizonte, estou cansado. A cada passo o vilarejo fica mais distante e a nuvem mais próxima de mim. O sol que sempre nasce atrás de mim, aquecendo minha nuca e obrigando o uso de boné legionário, agora está de frente, ele queima meus lábios. Um gole, a água continua quente, a nuvem cresce, a cada passo que dou outras se formam, se ajuntam e escurecem… sol, está na hora de dar tchau! Tchaauuuu… Dipsy acena e o sol faz cara de bebê chorão antes de recolher seus raios. Alguém continua a arrastar o vilarejo para longe. Minhas pernas fizeram acordo, a perna direita é das dores a esquerda é das bolhas. Não sinto dor. Nem bolhas. Sinto sede, fome e fadiga. A mochila pesa uma tonelada, lembro que agora tenho panturrilhas. Estão bonitas, musculatura definida, gosto disso! Estou desidratado, calculei muito mal a caminhada de hoje, ninguém mais no trecho às três horas da tarde. Pouco mais, são quase quatro horas já, a torre da igreja parece tremular. Tiro foto para confirmar se é miragem, a torre está na tela do celular, não estou delirando. Tem um ninho de cegonha ao lado dos sinos. Andei onze quilômetros sem ver ninguém. Nenhuma alma! Na Espanha não tem casa no campo, os agricultores moram nos vilarejos, nos pueblos, e suas lavouras são plantações abandonadas, sem afeto. Dias atrás vi como são os roceiros daqui; de repente um carro para, duas ou três pessoas descem começam a cuidar da plantação e antes que eu ande outro quilômetro os agricultores já estão de partida. Amanhã um trator virá fazer o trabalho duro, provavelmente maquinário de cooperativa. É assim. O campo é deserto de gente. As cidades também, as janelas sempre fechadas, crianças são raras, é um país de idosos. Alguém arrastou o vilarejo mais para longe, as marcas de botas, cavalos, bicicletas sumiram, a estrada agora é cascalho e pedras soltas, nenhuma marca dos milhares de peregrinos ficou neste solo. Nem mesmo as marcas da ciclista alemoa de ontem, caindo e rolando sobre as pedras. Ela marcou seu corpo no caminho, e mesmo cheia de hematomas, não deixou marcas no caminho… não será lembrada. Eu não serei lembrado. Devo estar delirando, bebo mais um gole de água morna e a igreja está enorme no meu campo de visão. Cheguei! Passo pela primeira casa, alguns pingos gelados me alcançam, não é delírio, é só chuva. O dia foi difícil. Alguns dias não têm graça alguma. Este é o caminho! Estou em frangalhos e penso que ele, o caminho, não é mágico, os peregrinos é que são.





DÉCIMO QUINTO DIA NO CAMINHO
26/05/2017
Trecho: Boadilla del Camino até Carrión de los Condes - 25km de distância

Eita que agora estou deitado numa cama só minha, num quarto só meu, com armários, escrivaninha, criado mudo e pia. A mordomia de banheiro privativo ainda não fiz por merecer, decerto. Mas para quem dormiu a noite passada num quarto com dezoito beliches, prosperei. Cheguei depois das duas da tarde em Carrión de Los Condes e não encontrei albergue. Encontrei Jesus - o mexicano, o gaúcho vendedor, o carioca que veio passar vergonha no caminho (depois falo dele), a americana que está com o joelho bichado, os coreanos, encontrei todos eles albergados, banhados, chinelados... Mas albergue para mim, o atrasado, não achei. Voltei para o centro comercial da cidade buscando alternativas para almoçar, às três da tarde todo o povo já dorme, lembra? Nisso o carioca estava vagando, perdido, indicou um hostel numa rua… Lotado. Outro hostel. Lotado. O carioca desistiu de ajudar, me desejou boa sorte e se foi, gente boa, não tem como me ajudar mais, entendo. Fui procurar comida, abastecer o físico e encontrar disposição para encarar mais dezessete quilômetros até a próxima vila. A lembrança do dia de ontem abala o espírito. Pior é andar até lá e não encontrar albergue (pensei), mas tenho que tentar. Antes vou comer! Peregrino faminto não para de pé. Um morador, idoso, viu quando saí do hostel com cara de derrotado e perguntou se eu queria albergue. “Sim, mas estão todos completos”. Ele me examinou de bota a chapéu, torceu boca e nariz e disse num espanhol bem veloz algo que entendi assim: “peregrino tolo, não sabe onde procurar e não pergunta, até merecia dormir na rua”. Na dúvida se era isso mesmo que ele tinha falado eu perguntei “sabe se encontro ‘literas’ em algum lugar?”. Pegou um folheto com mapa da cidade, mostrou o ponto onde estávamos e desenhou um trajeto até a Casa de Espiritualidad Nuestra Señora de Belén Filipenses. Encontrei uma “cela individual” com banho coletivo, roupas de cama e de banho. Jantar e café da manhã. Tudo por um preço menor que nos albergues. Aleluia! Eu precisava disso, do velhinho no meu caminho. O carioca! Desde St Jean Pied de Port o carioca vem na mesma toada que eu. A gente se encontra nas paradas de descanso, nos refúgios, nos vilarejos, albergues, ou seja, estamos no mesmo passo. Fazendo os mesmos amigos. Passando os mesmos perrengues. Vencendo os mesmos desafios diários. Duas coisas tornam o carioca um sujeito especial. Uma; todo santo dia após albergar (achar albergue, carimbar credencial, tirar botas, estender saco de dormir na cama, tomar banho), o carioca sai desfilando uma camisa do Fluminense. Isso mesmo, ele acha bonito passar vergonha na Europa. Brasileiro que gosta de futebol já se acostumou com os tapetões desse clube, mas dia desses o carioca foi parado na rua para uma selfie, culpa da camisa, todo feliz após a selfie ouviu a brasileira comentar com a amiga espanhola: “Essa camisa é daquele time que saiu direto da série C para a série A sem disputar título”. Hoje repetia a camisa quando tentou me ajudar. Duas; ele lê minhas crônicas do dia. Faz parte desse grupo, leu meus relatos diários e pensou “esse Beto Muniz está nos mesmos lugares que eu!”. A curiosidade mordeu e ele foi verificar minha foto, já me conhecia, mas só me apresento como Adalberto, não tinha ligado o nome a figura. Ligou. Ontem cheguei em Boadilla del Camino e ele estava albergado. Camisa do Fluminense! No que me viu já intimou: “vai ter textão no Facebook hoje, Beto Muniz? Eu leio você!”. Confesso que fiquei gelado, sou tímido, não estou pronto para a fama. Mas o carioca não se fez de rogado e anunciou aos albergados próximos: “esse é meu amigo Beto Muniz, celebridade na internet”... E já traduziu o anúncio para o inglês, espanhol e francês (ele é poliglota de verdade). Brasileiros, canadenses, argentinos, coreanos, espanhóis, iugoslavos, americanos, gregos, todos os sessenta e oito peregrinos de diferentes nacionalidades me olharam com algum interesse. Discreto, fui para o banho, voltei me sentei um pouco afastado de todos, na grama, encostei numa pedra e comecei escrever o “textão” de ontem. Nisso o zumzumzum corria solto, celulares trocavam de mãos, albergados apontavam para mim, gringos esticavam o olho em minha direção, a maioria ria, alguns gargalhavam. Eu estava encolhido quando o americano do Colorado sentou do meu lado, pigarreou, falou comigo em espanhol, disse que tinha lido ali dois dos meus textos e que realmente eu tinha talento. Desencolhi. Perguntou se estava preparando livro… antes que eu respondesse as três senhorinhas brasileiras chegaram rindo, uma chorava de tanto rir e segurava o celular. Elogiaram, sentaram ao lado, pediram uma garrafa de vinho, já me fizeram tomar uma taça, tiraram selfie, os italianos também chegaram gesticulando, até o russo, lembram do russo? Ele se esgueirou rente ao muro e ficou me olhando com simpatia. Quando percebi os noventa e quatro albergados estavam ao meu redor. A turma ocupando todo o gramado, trocando traduções dos meus textos, rindo, sinalizando Oks, mocinhas enviando beijos na ponta dos dedos, pedindo selfies! Fotos vão circular na internet, não é nada disso, eu não fiz nada e pode virar um bicho de sete cabeças! Isso dá musica, se já não deu... O carioca já atuava como tradutor de alguns termos que os gringos não encontravam vocábulos nos aplicativos. O dono do albergue me trouxe uma jarra de chopp, oferta da casa, nisso já eram cento e vinte e seis peregrinos me rodeando, abraçando para selfies e formulando perguntas que o carioca prontamente traduzia. O Irlandês que carrega um violão começou a fazer serenata, a senhorinha brasileirinha continuava rindo e chorando com celular na mão. Eu queria só escrever o texto do dia… por sorte o jantar ficou pronto. Os cento e oitenta e dois peregrinos se levantaram e foram comer, eu não tinha reservado menu peregrino, continuei no gramado, fazendo companhia para uma garrafa de vinho vazia, alguns guardanapos amassados, copos abandonados, meio bocadilho sobre um tronco, alguém esqueceu os chinelos! Tive alguns minutos para escrever e publicar. Depois continuei sentado na grama, minhas costas apoiadas na pedra. A chilena de olhos azuis, moça bonita, que vejo sempre sendo cortejada pelos italianos, pelo grego, pelo francês, espanhóis e australianos em cada parada ou refugio - ela nunca falou comigo, veio se sentar perto. Trouxe um livro, óculos de leitura, ficou quieta folheando páginas com ares intelectuais. O americano do Colorado também voltou do jantar, se sentou ao lado, voltou o carioca, voltou a senhora de Brasília, o russo encostou. O povaréu retornando e a chilena puxando assunto, falando amenidades literárias. Eu precisava evitar que a muvuca recomeçasse, pedi desculpas, aleguei o fuso horário favorável para falar com esposa e filhos no Brasil e me levantei. As lentes da moça embaçaram num suspiro resignado. O russo pediu a última selfie, me chamou de “Bêtov” eu corrigi “Bétô” ele insistiu “Bêtov”, desisti dei boa noite e fui para minha “litera”. Peregrino deitado no beliche ninguém incomoda. Foi um dia difícil, mas se não fosse o carioca teria sido uma noite comum. Tive pesadelos com multidão me abordando, pedindo autógrafos, selfies, todo mundo com cara de Harry Potter e falando alemão. Acordei tarde, peguei o caminho quase nove horas da manhã, ninguém no campo de visão, parei debaixo de uma ponte, entrei no rio. Gelado! Tudo nublado, o caminho todo, mas ainda não choveu. Capa intacta! Caminho fácil, gostoso, vinte e cinco quilômetros. Quase que sou obrigado a andar mais dezessete, até Calzadilla de la Cueza, minha recompensa pelo susto? Hoje vou dormir bem, sem roncos, sem luzes acendendo, sem barulho de descarga, sem portas batendo, sem beliches rangendo, sem alarme de celular às cinco da manhã, sem farfalhares de mochilas, sem arrastar de chinelos, sem pigarros matinais, sem sussurrogringos... e sem pum dos coreanos! Graças ao velhinho. Deixa eu falar do trecho Boadilla del Camino até Carrión de los Condes. Lindo, fácil, inspirador. Apenas vinte e cinco quilômetros sem subidas e sem descidas, mas não é um retão entediante. Logo que saí de Boadilla del Camino a trilha emparelhou com o Canal de Castilla, que é o similar a transposição do Rio São Francisco… só que aqui fizeram mesmo uma coisa bem feita e a água é utilizada para o bem comum de todos. E depois que trouxeram água a natureza fez o papel dela, marrecos, passarinhos, rãs, insetos, caracóis... gatos, falcões, cegonhas, roedores, peixes, agricultores, capim, matinho, espinho, árvore tudo vivendo na harmonia que é destino escrito de cada qual. Menos o gato! Gatos, plural. Alguém levou pro meio do nada e eles acharam jeito de sobreviver, avistei meia dúzia por lá. Também vi o corvo de perto. Feio. Não tenho muita cisma com o bicho ser do jeito que foi criado para ser, mas o corvo visto de perto deu arrepio. Ainda mais quando ele gritou: “Crééuuu-crééuuu” e não é funk do Mc Créu, é mais gritado, mais ameaçador, mais ofensivo. Não, é exagero meu... a dança do créu assusta e ofende mais. E tem truta pulando uns vinte centímetros fora d'água para almoçar insetos. Tem pomba cinza-azulado com um colar branco no pescoço. Tem passarinho diferente cantando diferente, parecendo rã, e se escondendo no capinzal. Tem rã também! E camundongos castanhos, gordos, atravessando a trilha para ficar mais perto da água e mais longe dos gatos. Cegonhas forrageando no trigal. E caracóis de diversas cores… a vida acontece intensamente nos cinco a seis quilômetros em que o Canal de Castilla margeia o caminho. Depois tem o primeiro vilarejo, a gente atravessa o canal por uma passarela estreitinha e pronto, vai margear o rio Ucieza pelos próximos treze quilômetros, quase. Quando o rio abandona o caminho, tem uma ponte onde eu parei, tirei as botas e entrei na água. Gelada!! Todo peregrino deveria entrar nos rios do caminho, molhar pelo menos até as canelas. E os caracóis… o bom desse trecho é que as torres das igrejas estão sempre visíveis, são cinco vilarejos/pueblos nos vinte e cinco quilômetros de trecho, olhando para trás ou para frente, sempre vai ter uma torre tremulando, não, hoje não fez calor e as torres não tremularam, só ficaram lá torreando no horizonte. Os últimos quilômetros até Carrión de los Condes são cenário de Teletubbie, mas só de um lado, do outro lado é margem de rodovia. A gente nem liga para o barulho da Carretera, o dia foi tão tranquilo… fora os caramujos! Você vai fazer cara de eca, mas eu preciso falar. Peregrino pisa demais em caramujos nesse trecho beira de água. Mesmo tomando cuidado, a gente não fica olhando só para o chão com tanta natureza fora do chão para ser olhada. Sabe a sensação de pisar num ovo cozido? Com casca! A gente olha só a primeira vez pra ver o que foi, depois não olha mais, só faz essa cara que você está fazendo agora (sim, você está fazendo cara de eca), e vai em frente tentando esquecer. Mas é inesquecível o som e a sensação. Felizmente o trecho também fica bem vivo na memória. É lindo!





DÉCIMO SEXTO DIA NO CAMINHO
27/05/2017
Trecho: Carrión de los Condes até Ledigos - 23km de distância

Para quem faz o caminho de St Jean Pied de Port até Santiago de Compostela, eu estou na metade do caminho. Ledigos é o nome do Pueblo, uns dois quilômetros a mais ou dois a menos, existe uma divergência na localização exata da metade do caminho, isso não importa pra mim que vou fazer uns noventa a cem quilômetros a mais, indo até Finisterra. E também não tem graça se gabar de fazer metade do caminho, tem que chegar lá no fim de tudo, fincar o cajado na beira do mar, amarrar a vieira nele, fazer selfie barbudo, cabelo desgrenhado e deixar tudo lá, voltar pra casa e bater no peito garantindo que realizou mais um feito de respeito. De muito respeito esse feito! Daí contar os causos dos quarenta dias para filhos, esposa, amigos, parentes, netos que virão: “vovô já andou cento e cinquenta e uma léguas nas europa com mochila de uns oito quilos no lombo. Parecia burro de carga, pisando pedra, cascalho, asfalto, grama, lama, subindo morro, descendo serra, tomando vento na cara, sol na cocuruta e chuva até no miolo da bota. Passou frio, suou, teve fome, sede, diarreia, até delirou, mas chegou ‘na beira do porto onde as águas se espáia'.…" Não, esse último é música. Da boa na voz daquela cantora pequenininha, como é o nome mesmo? Nara Leão. Mas vou sim chegar na beira das águas. Hoje andei vinte e três quilômetros em quase cinco horas. O trecho é chato, monótono, cinco quilômetros de asfalto e o resto cascalho branco na beira da Carretera. Só um vilarejo, depois de dezessete quilômetros de caminhada, sol duro, piso quente, parar pra que se não tem nada pra ver? Sai de Carrión de los Condes pouquinho depois das oito horas, quando vi que a beleza no trecho era coisa chinfrin, só taturanas atravessando a trilha, ainda assim poucas, finquei a bota. Com fé e matemática! Coordenei a distância dos passos dentro da constante matemática conhecida por “pi”, lembrando que tenho um e noventa de altura, ajustei a velocidade para o fator e vim; bota, bota, bota, bota... Povo que saiu seis da manhã chegou depois. Ultrapassei até os alemães, descontei os sete a um na copa! Os alemães tudo no tuque-tuque-tuque-tuque, de bermudas, tuque-tuque-tuque-tuque, umas batatas de pernas redonda, gomada, até lustrando de forte, e eu com minha panturrilhas recém formadas, escondidas debaixo das calças, bota-bota-bota-bota, cada pisada respeitando exatamente o cálculo da  proporção numérica definida pela relação entre o perímetro do passo a circunferência formada pelo tamanho de cada perna e o diâmetro da panturrilha, a velocidade foi definida sobre o diâmetro da coxa, porque se fosse também usado o diâmetro das panturrilhas eu não passaria os alemães. As três duplas de alemães alcancei rápido, passar é que foi trabalhoso. A última dupla de alemães dificultou bastante minha desforra, o primeiro alemão que ultrapassei deve ter informado os alemães da frente (vai ver eles usam rádio de fórmula um nos bonés), que tinha um ousado com o turbo ligado. Daí o alemão da ponta emparelhou com a alemoa, botaram as quatro panturrilhas fechando espaço! Tive que ficar contemplando aquelas batatas estupendas, sincronizadas com o tuque-tuque-tuque-tuque, um bom tempo. Dá gosto ver como o DNA do alemão evoluiu pra fazer eles andarem. Eles vestem aquelas calças da Bavária, amarram lencinho protegendo a parte de trás do pescoço, e começam a pisar. No alemão cada panturrilha tem quatro gomos, na alemoa não tem gomo (mulher só pega muque se for fisioculturista), as panturrilhas delas vão se batendo uma na outra e fica aquele calombo de purê de batatas logo abaixo dos joelhos. Canela gorda, vermelha do sol. Eu entrando pra ultrapassar pela esquerda, a alemoa abria os bastões sem sair da cadência, eu voltava pra direita e o alemão adotava a mesma tática, e nisso eu só perdendo tempo porque o tuque-tuque-tuque-tuque deles tem resistência e velocidade constante, mas o meu bota-bota-bota-bota de hoje estava virado no Senna, no que eu fiz que ia pra esquerda a alemoa abriu o tuque - mas eu já estava pulando era pra direita, o alemão percebeu meu bote e também abriu o tuque dele, só que eu  parei o passo no ar e saltei no meio dos dois! Pronto, emparelhei!! Se fosse copa do mundo, sera como se o jogo estivesse um a zero e eu empatasse nos quarenta minutos do segundo tempo, daí eu que estava o tempo todo com bastão no ombro - não usei o cajado porque ele não se encaixa no valor de ritmo do fator “pi”, baixei o cajado bem junto do tuque do alemão. O dele de carbono com sapatilha de borracha, o meu de madeira com ponta de metal… pedra, papel, tesoura! A borrachinha dele pulou longe, o alemão vacilou, se atrapalhou no tuque e foi atrás da sapatilha com todos os gomos da panturrilha vibrando de raiva. Gol aos quarenta e cinco do segundo tempo! Vitória sem prorrogação! Levantei o cajado fazendo pose de capitão do time levantando troféu porque foi mesmo um golaço!! Quando os alemães chegaram no albergue eu estava banhado. Estava de bermudão e fazendo muque nas panturrilhas pra eles verem para quem perderam hoje! Passaram por mim calados, carimbaram a credencial, se banharam e agora estão lá, afogando a derrota nas “rárras de cerveza”. Eu também tomei uma “rárra”, mas foi comemoração, sentimento de desforra pelos sete a um. As pernas protestam até agora, mas o ego tá se gabando! Finisterra? Tô chegando!





DÉCIMO SÉTIMO DIA NO CAMINHO
28/05/2017
Trecho: Ledigos até Bercianos del Real Camino - 26,5km de distância

Domingo é dia santo. Dia de ficar de boa, curtir a vida, caminhar… então bora fazer o percurso até Bercianos del Real Camino. Certo? Ceeerrrrto! Trecho bobo, igual o de ontem. Segue parelha com a carretera o tempo todo, não acrescenta riqueza cultural ou religiosa, só é bom para pensar nos desconsolos da vida, como não tenho nenhum... deixemos de coisa e vamos ao que interessa! Hoje acordei cedo, mais pela expectativa de estrear a capa de chuva que por qualquer outro motivo. Pensei isso porque choveu noite inteira e amanheceu nublado, vento frio, tudo propício a tirar prova dos nove no goretek da bota, só que não foi dessa vez. Depois explico minha teoria! Seis da manhã eu estava de pé, a alemoada toda pronta para fazer o primeiro tuque e desembestar no trecho. Eu ainda desgrenhado, com olho remelento, amarrotado, calça tac-tel e chinelo rumo ao banheiro. Se tem uma coisa que a gente precisa admirar é o espírito esportivo do alemão! Foi ontem que fiz minha desforra particular dos sete a um na copa, não foi? Hoje eles mostraram respeito. Estavam os oito germânicos com panturrilhas cobertas. Baixaram a cortininha da calça bavariana até os tornozelos e se foram. Um exemplo de espirito esportivo e respeito pelo adversário, que se não me emocionou foi por conta da desconfiança - cisma minha, que a parte de baixo é impermeável e só baixaram porque o dia ameaçava chuva. Não choveu, então fica certeza que era respeito. Com os alemães é tudo na base do erro mínimo, se a meteorologia deles diz que tem chuva, vem chuva. Se eles baixaram a cortininha das bermudas e não veio chuva, eles já sabiam, não vamos especular e pronto. Palmas para o espírito esportivo dos alemães. Eu fiz a higiene matinal e vesti bermuda pra caminhada, mas vesti porque estava distraído, sem intenção nenhuma de esnobar a panturrilhada espetaculosa deles que perderam pra minha panturrilhinha nanica. Depois de bermudar percebi que os alemães já tinham saído à francesa, então fiquei a vontade para usar a informação captada: O cenário prometia, os germânicos estavam prevenidos e eu também torcia por chuva, optei pela precaução de vestir calça impermeável. Só que a minha calça impermeável não passa pela bota, se eu fosse pego no meio do caminho teria que descalçar botas, vestir calça impermeável, calçar botas, ajustar o elástico abaixo da linha de cadarços das botas, vestir capa… até aí metade das águas estariam dentro da minha bota TNF de goretek duvidoso. Então já saí prevenido, troquei a bermuda pela calça de chuva. Acontece que não choveu! A calça que comprei em Logroño é a primeiro preço, trem barato, entendeu? Ok, é de plástico! Plástico, esforço físico… resumo; isso foi me esquentando da cintura para baixo, produzindo suor excessivo, escorrendo pelas coxas, joelhos, panturrilhas, canelas, tornozelos, entrando pelas botas, encharcando as meias. De repente era como se tivesse chovido só dentro das minhas calças e botas! E o calor? Ventinho alaskiano na cara e os países baixos no Saara. Pra piorar. Cenário de Teletubbie em toda beira de La Carretera, nem uma moita para eu tirar a bendita calça impermeável (e irrespirável). Restava o jeitinho brasileiro, quando ninguém estava olhando eu esticava o cós da cintura, elástica, até o começo da virilha pra entrar um ventinho coxa abaixo. Era um alívio! Mas durava pouco e ainda corria o risco da australiana olhar para trás, perceber eu baixando as calças até a linha final da cueca e me acusar de exibição libidinosa para o marido, uma versão agigantada do Crocodilo Dundee, com três filhos adolescentes ainda pra piorar a surra que eu poderia levar. Depois de uns bons quilômetros nessa agonia, de cozinhar metade de mim, ventilar furtivamente as partes, de voltar a cozinhar “abajo”, vi um arbusto mais apropriado para a tarefa de troca de calças. Não tive dúvidas, tirei mochila, encolhi atrás da moita, tirei botas, calça plástica, vesti calça de trilha, calcei botas e sai para o trecho novamente. Ação não durou quatro minutos, mas na procissão que se tornou o caminho, uns quarenta peregrinos passaram pela moitinha. Os mais atentos que perceberam meu levantamento, abaixamento, farfalhares e movimentos atrás do mato, só podem ter pensado uma coisa: “coitado, diarreia”. E os que além de mais atentos são também otimistas devem ter pensado: “coitado, diarreia. Ainda bem que não está chovendo!”. Deixei todo mundo passar. No horizonte chovia. No centro, a direita e a esquerda também chovia. Os cascalhos brancos molhados de chuva recente, mas sobre mim nenhuma gota. Só tenho uma explicação - e agora eu explico minha teoria: Acho que a culpa é do meu cajado, ele tem parentesco com aquele que Moisés carregava! Se aquele da bíblia abria o mar, esse comprado em de St Jean Pied de Port eu coloco no ombro, saio andando e ele vai abrindo as nuvens. E só agora eu pensei uma coisa, os alemães no tuque-tuque-tuque-tuque foram longe rapidinho e tomaram toda a chuva que eu via no horizonte, no centro, a esquerda e a direita. Não é que a meteorologia deles acerta todas? É impressionante!! Enquanto eles se secam lá onde albergaram, estou aqui cogitando nunca mais vestir calça impermeável. Vou tacar isso no mato. Já que não vai chover sobre mim, esse troço só serve para fazer peso na mochila.





DÉCIMO OITAVO DIA NO CAMINHO
29/05/2017
Trecho: Bercianos del Real Camino até Villarente - 34km de distância

“Tem dias que a gente se sente um pouco, talvez, menos gente. Um dia daqueles sem graça, de chuva cair na vidraça.” esse é um trecho de música. Raul Seixas. Hoje acordei assim, borocoxô. Noite agitada, acordava toda hora e entre um sono e outro tive sonhos esquisitos. Num deles estava o Emerson Fittipaldi, vestia macacão da fórmula um dos anos setenta. Um bando de gente pedindo autógrafos, eu só olhando, ele rabiscou um monte de papéis, camisetas, cartazes e se despediu sorrindo, acenou, se virou e saiu andando, macacão ridiculamente entuchado nos fundilhos magricelas dele. Fazia até rugas no pano! O povo todo riu, eu decidi não rir. Na vida real, quando estou borocoxô sou igual o Julinho da Adelaide; pragmático. No sonho também devo ser. Decidi não rir, então não ri e pronto. Único dos sonhos que me lembro, tive vários essa noite, talvez mais estranhos ainda... Em Bercianos del Real Camino o Albergue Paroquial é muito divertido, para começar não cobram nada, o peregrino doa quanto quiser ou puder, recebe cama, ducha, jantar e café da manhã. Antes de servir a paella coletiva acompanhada de pão e vinho, canta-se o rap do agradecimento. Depois da refeição cada nação deve ser representada musicalmente, e não escapa ninguém! País por país todos os peregrinos, em grupo, vão para frente dos demais peregrinos e soltam a voz. Os peregrinos neozelandeses tiveram ajuda da única australiana para uma apresentação do haka, com direito a performance recheada de gritos e caretas. Americanos, coreanos, alemães (outros, não a gangue da panturrilha), italianos, argentinos (identificados pela camisa do Boca Juniors), ingleses, grupo após grupo cada qual fez seu show. Quando chegou a vez dos brasileiros tinha dois tupiniquins. Cochicho: “cantar o que?”. “Garota de Ipanema?”. “Óbvio, né?”. “Vc é de onde?”. “São Paulo, mas moro em Brasília”. “Eu sou de Minas, mas moro em São Paulo”. E os brasileiros estão enrolando, gritou o hospitaleiro! “Já sei, você bzzzzz… bzzzzz… bzzzzz?”. “Sim! Sim! Só não sei a letra toda”. “Bora, eu canto e você faz barulho”. Assim como todos fizeram antes e foram devidamente traduzidos para os principais idiomas, anunciei e também tive ajuda de intérpretes: “vamos cantar o hino mais entoado no Brasil. Quarenta milhões de brasileiros se emocionam semanalmente com ele. Antes, vamos ensaiar um refrão”. E durante uns quatro minutos ensinei os outros cinquenta e oito peregrinos o refrão mais famoso do Brasil. Então coloquei a mão direita sobre o peito, a brasileira também adotou postura de reverência, soltei a voz cheia de emoção e a brasileira acompanhou: “Salve o Corinthians, o campeão dos campeões. Eternamente, em nossos corações! Salve o Corinthians de tradições e glórias mil. Tu és orgulho dos desportistas do Brasil” levantei a mão dando o sinal do refrão e dezenas de vozes com diversos sotaques explodiram: “TIMÃO EÔÔÔ. TIMAO EÔÔÔ! TIMÃO EÔÔÔ. TIMAO EÔÔÔ!” Foi a coisa mais linda de se ouvir em terras de Espanha! Emocionei tanto que os olhos avermelharam. Os argentinos não se animaram muito, um dos ingleses também devia ser torcedor do Chelsea, mas esses poucos não comprometeram a festa. Depois todos juntos, hospitaleiros inclusive, cantamos a música do peregrino, no ritmo e coreografia de Macarena e fomos dormir. Show! Acho que comi muito. Se come bem e bastante no caminho, principalmente quando está incluso na diária. E por conta da gula os sonhos estranhos. Emerson Fittipaldi? Macacão de fórmula um dando cuecão no campeão? De onde fui tirar isso? Choveu! Estreei a capa, mas ainda não valeu. Passei por uma chuva de molhar bobo, pouca coisa, ainda com sol! Nem emocionou. Encontrei o casal de brasileiros de Gramado, os gaúchos vendedores e o carioca poliglota, todos albergados, cheirosos e indignados que eu não havia estreado a capa de chuva enquanto eles tomaram toró hoje. Uai! Só sair depois das oito. Saem antes das sete, junto com os alemães, pegam a chuva das sete e meia junto com os alemães. Eu saio depois da chuva… Além do meu cajado abridor de nuvens, tem que olhar o céu, observar tamanho e altura das nuvens, sentir na ponta do dedo indicador (dá uma salivada e levanta acima da cabeça), a direção do vento, a velocidade… tem toda uma matemática de vivência na natureza envolvida. Cajado parente do cajado de Moisés? Pode ser, a gente não duvida de nada, mas é bom conhecer e praticar os paranauês do clima e do tempo. Depois que conversei e matei as saudades das amizades do caminho, deixei os brasileiros almoçando e estiquei mais treze quilômetros, queria cansar o corpo para ele deixar de borocoxôsite antes da hora. Ao despedir dos amigos prometi duas coisas, uma; a gente se encontra amanhã em León. Vamos fazer disso aqui um pouquinho de Brasil Iaiá, desse Brasil que canta e é feliz… Duas; que iria estrear a capa de chuva. Sujeito prometer não é obrigatório, mas cumprir é! Cumpri a parte dois primeiro. Ainda fiz vídeo no Instagram debochando da merreca de água que caiu. Merreca mas estou lá, molhado pra todo mundo ver. E não é “broma”! Conhecendo os ziriguiduns das nuvens com os ventos, eu já previa que teria água no eito antes de fazer a promessa. Estava precisado de chuva, para diversão, porque ainda não chegou o momento de introspecção. Já tenho a hora e o local de auto imersão. Sou pragmático! No Brasil só conheço dois que são assim, eu e o Julinho.





DÉCIMO NONO DIA NO CAMINHO
30/05/2017
Trecho: Villarente até León - 13,5km de distância

Das coisas inúteis ou desnecessárias a se trazer para o caminho, o cachecol é o item mais abandonado pelos albergues e trechos. Cada albergue paroquial ou municipal tem um cesto, caixa, baú, barril, latão, armário ou cantinho onde peregrinos deixam objetos inanimados a disposição do próximo caminhante ou, acredito, depois de um tempo esses trecos recebem destino glorioso. Sei lá, vão embora no caminhão da cruz vermelha ou do exército da salvação, com destino aos acampamentos de refugiados, pessoas necessitadas. Se não acontece isso, fica a sugestão. Tem coisas maravilhosas no cantinho das coisas abandonadas, justamente porque são absolutamente dispensáveis para peregrino. Hinode. Potinhos cheios de melequinhas boas para pele, creminho antirrugas, iluminadores de maçãs do rosto, brush, esmalte, rímel, coloridor de cútis, disfarçador de olheiras e outros pózinhos mágicos que tais. Citei só uma das marcas porque não sou entendido nas artes de maquiagem, mas a variedade vai de Monange a Victória Secret (nem sei se são extremos). Também têm estojos completos de pincéis e vassourinhas para aplicação dessas melequinhas e pózinhos. Voltemos aos cachecóis! De lã. Tricô ou crochê, nunca sei a diferença, produzido pela vó, tia, mãe… todos eles abandonados em cestas de doações ou aquecendo esculturas, cruzes, pedras, troncos pelo caminho. Botas de couro. Não traga bota de couro para o caminho! Não venha com botas de couro para o caminho! Não use botas de couro para caminhar! Bota de couro, tipo coturno, nem o exército da Coréia do Norte usa mais. Couro é inapropriado, inadequado, assassino de pés. Além de pesado. Máquina fotográfica… eu trouxe! Não traga. Vai por mim que nunca minto, veja as fotos no meu Instagram, tudo com celular (menos os passarinhos que postei hoje e foram fotografados no único dia que tirei a câmera da mochila). Meu celular é Motorola, básico, ele também serve para dar notícias para a família e fazer relato diário no Facebook para os amigos, é ruim de digitar textão no tecladinho, mas resolve. Máquina fotográfica é estorvo. É peso. É pior que você trazer um cachecol. Cachecol o peregrino ainda usa um ou dois dias antes de perceber a besteira que fez, máquina fotográfica a gente percebe no primeiro dia e o custo geralmente não permite doação. “Despacha pra Santiago” você sempre acha que vai perder, que vai extraviar… não vai, no fundo a gente sabe que tudo vai funcionar e chegando em Santiago de Compostela seus excessos, todos eles, estarão a sua espera, prontos para retorno a vida de antes, prontos a serem novamente peso desnecessário na mochila. Tem gente que não despacha os excessos porque acha que vai precisar. Não vai! No caminho o peregrino precisa de mochila leve. A cada quilômetro a mochila multiplica seu peso pelo fator climático; se faz sol é duas vezes um terço do peso da mochila cheia. Se chover é quatro vezes o peso das botas molhadas e com barro grudado na sola. Se o dia estiver nublado, multiplique o peso da mochila vazia pelo peso dela mesma cheia a cada quilômetros caminhados. Caminhando a média de vinte quilômetros por dia, debaixo desse sol de maio, é certeza que nos últimos quilômetros periga você jogar a mochila no mato, sair engatinhando por trezentos metros e voltar rastejando depois que lembrar da garrafinha de água no bolsinho lateral. Cachecol. Não traga cachecol para o caminho. Garrafa de água! Não gaste dinheiro com cantil ou similares. Água tem em todo canto, todo Pueblo tem fonte de água potável, gelada, só reabastecer a garrafinha! Você vai reaproveitar a mesma garrafinha pelo menos três dias antes de trocar. As fontes de água no caminho são inúmeras e a maior distância entre elas deve ser de quatro quilômetros, no máximo. Em cada nova fonte que avistar, troque a água e beba um gole. Não beba até estufar a pança, isso prejudica a caminhada. Goles! Bochechos. Não deixe de dar um gole a cada hora. Às vezes você acha que não está com sede, mas seu corpo está perdendo líquidos. Se resolver ter seu porta-águas personalizado, ok, pode comprar. Mas não precisa. E a maior besteira é comprar bolsa d'água com mangueiras que já ficam estrategicamente ao alcance da boca para beber sem parar a caminhada e… cada vez que vai abastecer tem que desmontar a mochila. “mas eu tenho um ‘bag’ de dois litros que dá para o dia todo”... Peso morto! Dois litros de água pesam meia tonelada após a primeira légua de caminhada. Vai carregar peso pra quê se tem fonte com água geladinha em todas as paradas e refúgios? Cajado… Esse é legal! Porém, a menos que você já tenha costume de andar com bastão de caminhada, não gaste dinheiro com bastões coloridos, tipo esses com pintura metálica dos alemães. É só transtornos de embarque, despacho, etc. Cajado de madeira aqui é mato. Meu cajado, por exemplo, além de charmoso para esnucar pedra em cima de totem (depois explico), ainda abre as nuvens por onde passo. E também me serve de proteção, que tenho medo de cachorros. Em St Jean Pied de Port, Roncesvalle ou qualquer cidade mais encorpada, tem lojinha vendendo bastão de madeira, se sentir necessidade, gaste uns seis euros e tenha seu próprio “palito”. Cachecol, não! Não traga a menos que queira doar. Se fizer muita questão procure na loja de trekking o cachecol reverse, que vira gorro, lenço de cabeça, mascara ninja, mil e uma utilidades. Bem leve! Bem pequeno! Bem prático! Esnucar pedra em totem. Ainda não entendi porque o peregrino cisma de fazer montinho de pedras em cima dos totens, esses postes de marcação do caminho. Pilotis, pilastrinhas, morretinho, não sei o nome, mas por todo caminho tem totenzinhos de concreto, com uns quarenta a cinquenta centímetros de altura, fazendo marcações com setas amarela e vieiras azuis. Esses totens indicam o rumo e direção de Santiago de Compostela. São quadradinhos no topo, ótimos para sentar e descansar alguns minutos, apoiar mochila se o capim tá molhado, esticar tendão, apoiar alongamento… ou seja a variedade de serventia dos totens é a mesma que o Bombril de antigamente, hoje Bombril não serve nem pra colocar na ponta da antena da TV para melhorar a recepção da imagem. Acontece que uma turma, grande, acha que ali no topo do totem é pra fazer equilíbrio de pedras e vão colocando pedra sobre pedra, fazendo torres miniaturas. Não sei o significado dos monturos de pedras sobre os marcadores, não me incomoda, a menos que seja o pilarzinho que vai me servir de assento ou apoio. Daí eu pego o cajado e vou dando tacada de snooker pedra por pedra, até limpar a mesa, no caso pilar. Daí sento, coloco mochila, amarro cadarços, faço alongamentos. Mas só se eu for usar o mourãozinho. Se não deixo as pedras lá, empilhadinhas! Tem coturno cheio de pedra em cima de pilastrinhas, tem coturno servindo de vaso e também tem pilha de pedras protegida, com cachecol de lã! Alguém pediu perdão pra tia ou pra vó e deixou o peso morto aquecendo as pedrinhas. Um charme! Falando em charme, hoje cheguei em León. Encontrei uns brasileiros pelo caminho e alugamos um local aqui para descansar com pouco mais conforto, afinal, metade do caminho né? Só hoje mesmo. Não vou precisar do saco de dormir por uma noite, isso aqui no caminho é luxo! Saco de dormir é o extremo oposto do cachecol, absolutamente necessário! Ah, e toalha de banho felpuda, de algodão, grande, esse luxo só por hoje, porque estamos em León! Na mochila nem pensar! Alguém me perguntou no facebook e eu respondo: Estou fazendo o caminho francês, de St Jean Pied de Port até Finisterra, passando por Santiago de Compostela, e nem o idioma português eu domino direito... Até agora me entendi com todos os gringos e só não conversei com um francês, mas é porque eu disse "bom caminho" e ele rosnou. No mais, nenhum apuro! Se tua duvida é se virar falando apenas o português do Brasil, vem peregrinar que é moleza, todo mundo no caminho está com o coração aberto e se esforçando para entender e ser entendido.




VIGÉSIMO DIA NO CAMINHO
31/05/2017
Trecho: León até Villadangos del Páramo - 22km de distância

Hoje é textinho... Passei por León, fiquei tão encantado que esqueci completamente o carimbo na credencial. E encontrei e me hospedei com dois casais de gaúchos, um casal de gramado e o outro de marketing. Marketing não é um vilarejo no Rio Grande do Sul, mas é como eu identifiquei o casal no dia que o conheci, tenho memória ruim para nomes, já deixei isso claro, então eu crio ligações de identificação. E eles são bons em vendas, gostam de vendas, trabalham com vendas, então são os gaúchos vendedores. E me venderam a ideia de alugar um apartamento em León, dividir os custos com outros brasileiros e desfrutar de um ambiente aconchegante, tranquilo, familiar. Topei. O casal de gaúchos de Gramado também comprou a ideia. O carioca poliglota também comprou. Outro casal do interior paulista, que ainda não conheci comprou! Eu não disse que esses gaúchos são bons de vendas? Apartamento com quatro dormitórios, cozinha, sala, terraço enorme. Ao lado de comércio, próximo da muralha - o centro histórico de León fica dentro de antiga muralha. Na rota do caminho para Santiago, da janela da sala a gente vê as setas amarelas lá na calçada. Perfeito! Fizemos almoço, banho com toalhas felpudas, soneca da tarde, jantar com sorvete de sobremesa, bate papo noturno regrado a vinho, sono em cama com lençóis e cobertores (noite de folga do saco de dormir), café da manhã abundante. Estadia e companhias agradáveis, coisa pra ficar na história do nosso caminho... Mas os paulistas se perderam na chegada e acabaram num hostel, já o carioca simplesmente deu perdido. Carioca quando soube dos detalhes arregou. Ficou com receio de dormir no mesmo quarto que eu. Nós dois solteiros, os três casais, quatro quartos com cama de casal? O poliglota achou que isso de dividir cama era coisa de gaúcho, coçou a cabeça, pensou, pensou, falou nada. Só não apareceu para fazer parte desse pouquinho de Brasil, e está sumido desde então. Está no trecho. Arrumando desculpas. Deixa ele... Então, passei por León, esqueci de carimbar a credencial, caminhei até Villadangos del Páramo, vinte e poucos quilômetros, a maior parte do tempo andei sozinho, ninguém a vista tanto na dianteira quanto na traseira, num local ermo do caminho uma moita com uma privada branca. Logo depois topei com uma cobra, foi a segunda que vi no caminho. A primeira foi em Puente la Reina. Eu estava muito estranho. Na verdade um tanto filosófico depois de uma conversa com minha caçulinha, cinco anos de idade, via whatsapp.“pai, por que você está andando tanto? Você perdeu alguma coisa e não está achando?” eu tento explicar que estou conhecendo lugares que eu queria muito conhecer, que caminhar por estes lugares me permite ver tudo sem perder nenhum detalhe. A saudade infantil dá uma surra na minha lógica e ela manda a solução: “você pode ir de carro, a mamãe vai dirigindo bem devagarinho e você só fica olhando, conhecendo, tirando fotos e depois volta pra casa, quando eu chegar da escola vocês já estarão em casa”. Dá vontade de fincar o cajado na beira do caminho e voltar para casa antes dela chegar da escola. As coisas são simples quando a gente não complica... pra que carregar mochila, acordar antes do sol nascer e sair pisando bolhas, dores, em busca dos próximos quilômetros, durante uns trinta dias, se de carro a gente chega em Santiago de Compostela no mesmo dia? Por que dormir em albergues lotados, quarenta, sessenta roncos diferentes a cada noite, após disputar três, quatro banheiros unissex para uma ducha de poucos minutos, se em casa a privacidade e conforto estão acompanhados do carinho familiar? Por que comer pão amanhecido com algum embutido ou enlatado, ou puro, bebendo água, sentado numa pedra na beira do nada, a vista de estranhos, se vários amigos ficariam felizes em me receber com um banquete? Por que esse gasto considerável com passagens e câmbio, passando privações em outro continente, se no meu país está tudo incerto e periga esse dispêndio fazer muita falta? As perguntas que arrocham o gogó, fazendo a gente engolir seco, antes de pensar uma resposta coerente com a expectativa do outro são inúmeras. E como você vai se virar com o idioma? E se fizer mais frio do que você está esperando? E se fizer só calor? E se você ficar doente? E se você não gostar já no primeiro dia? E se gostar e não quiser mais voltar? E se aparecer uma sirigaita? E se aparecer um tarado? Você acha seguro ficar andando no meio dos ermos sem ninguém? As perguntas que a gente mesmo, ou quem gosta da gente, faz também são muitas e são tão importantes quanto banais após o primeiro passo. A verdade é uma só, não tem como explicar as razões que trazem cada peregrino até aqui. A gente só pensa em vir, começar a caminhada em algum lugar, seja em St Jean Pied de Port, em Roncesvalle, Burgos, León, onde quer que seu caminho tenha início. Venha! Enquanto você não vier não terá paz! Foi assim comigo, já estava atrapalhando fazer outros planos, desenvolver projetos futuros, tocar a vida. Enrolar para vir só vai te atrapalhar. Mas vou dizer uma coisa que ninguém nunca nem chegou perto de me dizer. Estou no caminho faz vinte dias. Caminhei mais de quatrocentos quilômetros, passei por estradas intermináveis, por bosques sombrios, túneis úmidos, veredas traiçoeiras, vilas desertas, ermos e campos. Já tive frio, calor, sede, fome, medo, fé, ansiedade, desânimo, euforia, curiosidade, alegria, tristeza, cansaço, dor, pena, raiva. Uma montanha russa de sensações e sentimentos. Mas ainda assim, não tenho resposta para o que eu vim fazer aqui. Por enquanto vim para depois me gabar. Amanhã posso encontrar outra resposta melhor. Hoje o caminho está aqui e eu piso nele todos os dias. Já vi pássaros lindos, flores maravilhosas, plantações a perder de vista, camundongos, cobras, esquilos, lebres, pontes seculares, rios cristalinos, rastro de aviões no céu, gente chorando, rindo, vomitando, obrando. Meu pai era fino, em caso de necessidade fisiológica não dizia número dois, dizia obrar. Já vi muita gente obrando, só o capacete de fórmula um pra fora da moita. Se o caminho nos aproxima de Deus, ele também nos deixa próximo do primitivo, do animal interno, no sentido de esquecer pudores e despertar instintos. O peregrino fica íntimo de estranhos. No albergue dorme a um palmo do ronco do estrangeiro, no banheiro ouve seus ruídos, no menu peregrino divide pão e vinho. No trecho vira amigo da criatividade, do improviso em prol do conforto mínimo. Uma pedra vira cadeira, um gramado vira sofá, mesa, uma sombra se transforma na sala de casa, a gente perde a vaidade. Come com as mãos, lambe os dedos, rasga o pão com as mãos suadas e oferece ao próximo, e ele aceita, e agradece, de coração! Ninguém está pronto para isso e também não percebe a mudança gradativa, passo após passo, dia após dia. Mesmo quem já percorreu o caminho uma, duas, dez, vinte vezes. E ninguem diz essas coisas para o calouro. Nas palestras só me disseram sobre assuntos práticos, saco de dormir, calçados, subidas, descidas, bolhas… Ninguém me disse que uma semana depois todo mundo seria húngaro, trocando calça sem local reservado, saindo de calçolão e sutião do banho. Ninguém falou que o caminho humildifica a gente, o caminho simplifica a gente, o caminho limpa a mente da gente, com o passar dos dias sobra espaço apenas para pensamentos voltados a sobreviver mais um dia, andar mais alguns quilômetros, a vida toda numa mochila. Creio que ninguém disse nada porque não percebeu! A gente não guarda uma informação dessas quando a descobre, quando toma ciência, quando sabe! Disseram que o caminho é seguro. É verdade. Quem quiser pode vir sem medo, pode andar nos ermos, homens, mulheres, jovens, idosos... Não, os bem idosos é bom sempre estarem a vista de outro peregrino. Pedras são traiçoeiras sem maldade, um tombo de idoso é bastante diferente do tombo de um jovem. Integridade física? Segurança pessoal? Isso é tranquilo. A gente até esquece que existe violência no mundo. Mas se não está pronto para se aproximar do animal sagrado que existe em você, se não está disposto a contar com seu instinto de sobrevivência estando imerso num mundo civilizado… (Esse cara tá doidão, tomou muito sol hoje, disse que era textinho e tá alongando uma prosa nada a ver! Amanhã ele volta ao normal e a gente vai rir do textão)… ninguém falou porque não percebeu que fez tudo isso. E exatamente por isso, por simplificar nossas horas do dia em existir, alimentar, andar e descansar é que os milagres acontecem no caminho! A gente limpa a mente e o coração no caminho, arranca gradativamente tudo que é desnecessário de dentro de nós, então sobra espaço para Deus. (O Betão se converteu!!!) A maioria dos caminhantes veem algo de espiritual, de esotérico, de sagrado no caminho de Santiago de Compostela. Não vou fingir que sou tolo, o caminho é um aprofundamento na religiosidade, o caminho é essencialmente católico. As pessoas procuram neste caminho um contato com o sagrado, com o Divino, uma religação com Deus. Caminhar aqui é um exercício de fé. Eu tenho ciência de tudo isso, mesmo assim não creio que o caminho vá trazer respostas ou soluções para questões da vida, do universo e tudo mais. Você tem questões e deseja respostas? O caminho é um palco, um picadeiro, um tablado e você que vai caminhar por aqui, que está caminhando por aqui, que já passou por aqui, você, eu, nós quando estamos olhando os cascalhos brancos em nosso caminho, nós estamos pensando, a gente só faz sentir dor e pensar, trocar os passos e pensar, dar gole na água e pensar, morder pão e pensar, sentar numa sombra e pensar, ajeitar mochila nos ombros e pensar... a cada quilômetro zilhões de sinapses acontecem e dia após dia, passo após passo o show vai se montando, o espetáculo vai se formando e no final cada um faz a sua grande mágica! Já falei sobre isso! Mágicos são os peregrinos que por aqui passam, sentem, buscam respostas até para questões que ainda não foram feitas. A razão de estarmos aqui sempre foi e será caminhar, seja qual for o caminho. No entanto, não acreditar no caminho - e sim na caminhada, é coisa minha, ninguém precisa participar da minha descrença. Até porque, talvez eu esteja mesmo andamos atrás de coisas perdidas do jeito errado. É, conversar com minha filha me deixou sem graça. Pode concordar que não me incomoda.





VIGÉSIMO PRIMEIRO DIA NO CAMINHO
01/06/2017
Trecho: Villandangos del Páramo até Hospital de Órbigo - 11km de distância

Nem lembro mais quando foi que o caminho virou beira de rodovias, creio que faz uns cinco dias. O asfalto, uma valeta para escorrer água de chuva e juntar lixo de peregrinos, uma faixa de grama e o trilho do gado. O trilho é por onde os caminhantes passam em fila indiana. De Villadangos del Páramo a Hospital de Órbigo só onze quilômetros, eu deveria ir adiante, mas o vilarejo é tão aconchegante que fui ficando, fui ficando e resolvi dormir aqui. Estão preparando o pueblo para a maior festa do ano, será neste final de semana… creio que peregrinos vão ficar sem albergue no sábado e domingo. São vários comércios com cartaz de 'cerrado por El Paso Honroso’ é o nome da festa que homenageia Don Suero de Quintones (maiores explicações no Google porque a prosa é longa), mesmo em preparativos para as “justas” que imagino, seja um telecath medieval, a paz em Hospital de Órbigo é o contraponto aos barulhos de motores a diesel o tempo todo na mente. Às vezes a trilha fica tão perto do asfalto, que os comboios de caminhões e carretas deslocam o ar assustando o passante. Outras vezes o caminho do peregrino é pelo asfalto, neste caso a recomendação das autoridades é caminhar na pista da esquerda, de frente para o veículo que avança. A minha recomendação é a mesma. Prefiro ficar de frente para o perigo (não tem perigo), caso o caminhoneiro perca o controle da direção eu já tenho tudo planejado; vou me jogar imediatamente na valeta onde deitam latinhas, saquinhos, copinhos, plastiquinhos, embalagemzinhas, garrafinhas, tudo em miniatura porque peregrino escolhe itens pelo peso, primeiro critério é peso a ser carregado, depois preço. Se o produto é leve e barato, certeza que faz sucesso. E os mais porcos lançam a parte não consumível na valeta onde estou prestes a me jogar em caso de perigo... E a carreta passa por cima sem me atingir! Gênio!! Ou posso levantar o cajado e a jamanta vai voar igual as bicicletas no filme ET. Milagre! Uhúú!! Ou posso invocar o lado negro da força e com meu cajado transmutado em sabre de luz, partir o caminhão em dois… eu já falei que às vezes olho minha sombra tremulando sobre o cascalho e me acho o Darth Vader? Sabe o boné legionário? O vento sopra sobre as abas laterais e minha cabeça ganha a forma do capacete do Lord Vader. Boné legionário é das aquisições mais úteis para o caminho. Se você deseja presentear alguém que vem peregrinar, boné legionário. De abas bem grandes. O sol nasce sempre às costas do peregrino, depois passa para a lateral esquerda do caminhante, o caminho todo é assim e um boné legionário protege pescoço, orelha, face. Uma benção! Esqueça o cachecol, boné legionário na cabeça, literalmente. A sombra da gente pode ficar com cabeça de Darth Vader, mas evita ficar igual o australiano, cangote vermelho, pior, cangote bordô de tanto sol. Imaginar personagem de Star Wars é doideira minha, efeito de insolação, do tédio, da água morna. Trecho longo, ninguém na frente, ninguém até onde as vistas alcançam lá atrás, daí eu até falo sozinho olhando minha sombra no cascalho. “Cara, esse cabeção representa o lado negro, tira esse capacete”. “deixa eu! É só uma sombra”. “exatamente, o lado sombrio da força está dominando e fazendo você gostar disso". “mano, vou procurar a próxima sombra, mas é pra sentar e refrescar o cabeção que você está pirando”. “ali, um morretinho, senta nele e descansa”. “tem pedrinha empilhadas”. “sinuca elas! Seu lado negro é destruidor de mariolas seculares. Mete o cajado nelas, ou melhor, o sabre de luz”. “não viaja, você nem tem certeza se o nome desse monturo de pedras é mariola”. “são marcações centenárias, pau nelas!”. “não vou esnucar nada, o totenzinho está no sol, aqui ó que vou sentar no sol e assar mais ainda o meu cérebro”. “esnuca Zé Ruela. Esnuca só pra ver pedrinhas caírem.” Tiro o boné e deixo de me sentir atraído pelo lado negro. Passo ao lado do pilarzinho, a seta amarela confirma que o caminho vai continuar acompanhando a rodovia, as pedrinhas empilhadas sobre ele ficam intactas, uma ou duas têm nomes escritos com canetas, não são marcações centenárias, nem decenárias, no máximo semanárias. Ou os romanos tinham marcadores de retroprojetor? Vai saber… caramba, levar sol direto na cocuruta é pior que se sentir Darth Vader. Coloco o boné legionário, a sombra muda o formato novamente e eu faço um som rouco, chiado, imitando o vilão: “saia da luz, encontre uma sombra”. Não pareço do mal. Às vezes ele até que me atenta... Não contei, mas dia desses saí do albergue pela manhã, caminhei uns dois quilômetros, preguiça de alongar, fui andando, de repente uma lebre, parada lá na frente. Vai fugir. Fui chegando e ela lá, eu olho nela e ela olho em mim. Eu pisando leve ela orelhas em pé. Eu a vinte metros ela imóvel. Eu pensando maldades ela trocando uma orelha de posição, fez um V. “Essa lebre assada deve ser um belo jantar peregrino”. A lebre voltou a emparelhar as orelhas. “eu sei limpar, tirar couro, tirar o bucho, fazer os cortes, sei preparar um belo quisado também… ok, não sou um cozinheiro grifado, tipo o loiro-alto-forte-de-zóio-azul marido da Fernanda Lima, mas um coelho é igual peixe, menos tempero é mais”. A lebre imóvel e eu chegando. “Tenho sal, não comprei canivete, mais uns cinco passos eu taco o cajado nela, faço de conta que é uma lança, acerto bem no pescoço e essa lebre vira proteínas… Mais dois passos, se ela não fugir”. A lebre botou uma das orelhas para trás. “mais um passo, quebro uma pedra e com as lascas ponteagudas arranco o couro… se eu armar o cajado para arremessar ela foge”... Que cajado? A lebre imóvel, duas orelhas deitadas, pronta para fugir e eu olhando minhas mãos vazias. Cajado? Esqueci no albergue. A lebre finalmente fugiu e, como sou pragmático, demorei uns dois ou cinco segundos para decidir se voltava ou não. “É só um pedaço de pau”... Ok, falei sozinho sim. “Mas ele é seu parceiro desde St Jean Pied de Port”. “grande mérito! Vou agora ter apego emocional com filete de árvore?”. “Ele abre nuvens!”. “Mané abre nuvens o que? Até você (no caso eu mesmo), acreditando nessa asneira”. “e o cachorro?”. “Que cachorro?”. “Que pode ter ali, depois da curva! Aqui é zona de caça!!”. Então... Não dá para discordar de um bom argumento. Voltei os dois quilômetros, porta do albergue fechada, sempre sou dos últimos a sair. Bati, bati, chamei, rodeei o prédio, quando estava desistindo o hospitaleiro apareceu, vindo não sei de onde. Expliquei que tinha esquecido o 'palito’ ele sorriu, abriu a porta, peguei meu cajado e ia saindo todo sem graça, sem assunto - e quando falta assunto é melhor ficar calado ou periga levantar bola pra ser golpeado, então, eu abri a boca: “muito obrigado, eu já tinha andado uns dois quilômetros quando dei falta dele...” e o hospitaleiro cravou: “entendo, todo peregrino se apega ao cajado”. Deu uma raiva da cara de empatia que ele fez! O tempo todo o lado escuro da força atentando. A lebre era do bem, meu Yoda.





VIGÉSIMO SEGUNDO DIA NO CAMINHO
02/06/2017
Trecho: Hospital de Órbigo até El Ganso - 29,8km de distância

Hoje voltei a andar de verdade. Anteontem fiz apenas vinte e dois quilômetros, ontem me dá até vergonha dizer que caminhei só onze quilômetros, por isso os trinta mil metros de hoje é indicação que os dias anteriores foram sim, atípicos. León com os brasileiros não acontece todo dia. Hospital de Órbigo com os preparativos para a festa, cidadezinha tão hospitaleira, tão simpática, que parei para almoçar e só saí de lá hoje de manhã. Tem uma ponte enoooorme, com história centenária, se não for milenar! E a festa é toda relacionada com a ponte, ou seja, a ponte define a cidade e os habitantes têm orgulho disso. O bom de sair de Hospital de Órbigo é que o peregrino não caminha ao lado, emparelhado, com La Carretera. Têm bosques, subidinha, descidinha, estradinhas de terra batida, passarinhos, calangos, insetos… não vi lebres hoje. Até Astorga a peregrinação é prazerosa. Astorga. Palácio de Gaudí! Encontrei três brasileiras na entrada, fui chegando, maravilhado com aquilo tudo e, de repente, ouvi uma conversa que não precisava de tradução. Demorou uns milésimos de segundos para eu entender por que eu estava entendendo tudo, e abelhudo que sou já fui perguntando se era ali a convenção de brasileiros. Três pessoas agradáveis a quem eu peço mil desculpas, mas não lembro os nomes, sei que duas são vegetarianas e a terceira é médica em Mogi das Cruzes. A vegetariana que mora no Canadá perguntou se eu era o Beto Muniz. Gente, eu estou começando a ter receio da dimensão que essas histórias estão tomando! Não vou mais poder pagar mico impunemente… por exemplo, hoje após sair de Astorga, andar uns oito quilômetros, alguém que viesse logo atrás de mim poderia estranhar meu comportamento; andando e apalpando meus glúteos. É assim, deixa eu explicar… literalmente falando, nunca fui bunda mole, mas também nunca fui atleta. A genética ajuda, minha relação peso versus altura é bacana, mas hoje levei um susto ao, distraidamente, dar uma coçadinha no poperô. Sabe o poperô? Aquele pedacinho do bumbum onde as enfermeiras aplicam a injeção de benzetacil? No interior de Minas, quando eu era moleque pobre, chegava no médico com vômito e diarreia o diagnóstico era virose, tome soro. Só vomito, era nada, tome leite de magnésio. Se tivesse vômito com perda de apetite, verme, tome vermífugo! Se me apresentasse com qualquer outro sintoma que incluísse febre não existia diagnóstico, só tratamento: benzetacil! As enfermeiras - enfermagem não era coisa para homem (olha isso!), até sorriam, não sei se sadismo ou tentando acalmar. O fato é que me lembro de sorrisos antes de ficar com calombo no poperô doendo uns três dias. E daí que estava andando, nada para fazer, faltando uns seis quilômetros para chegar em El Ganso, deu aquela coceirinha besta que some sozinha se a gente não coçar, mas eu estava lá sem fazer nada, cocei. No que os dedos bateram no poperô, eu estava trocando o passo, bati a bota no cascalho e o calombo ricocheteou os dedos de volta. Levei um susto! Bati a mão procurando calombo e encontrei foi uma deformidade. O trem estava sem a macieza original que me acompanha desde a tenra idade. Desci a mão e o estrago era geral, poperô, glúteos, bumbum, encontro da coxa, tudo durinho! Passei a conferência para o outro lado, tudo trabalhado na musculatura firme. Dei um tapinha, dois, três e fui entendendo a nova condição. Vinte e dois dias caminhando, pensa! Movimento, exercício, aeróbica. Os músculos da cintura pra baixo estão todos tinindo! Além das panturrilhas, veja só, agora também tenho coxas e glúteos todos gomados, firmes, definidos. Na hora deu vontade de me olhar no espelho, como não tinha espelho eu comecei no procedimento dos deficientes visuais, apalpando, depois dei uns beliscos e conforme fui confirmando musculatura, acabei dando uns tapinhas mais fortes para sentir se o bumbum tremia, só na conferência, pensando “é tudo meu mesmo!”. Se eu fosse famoso, se fosse celebridade, quem viesse logo atrás ia querer filmar e colocar no YouTube: “Beto Muniz apalpando coxas e glúteos no Caminho de Santiago”. Se já virou manchete o Caetano estacionar o próprio carro no Leblon, imagina eu, famoso, com essas distrações? E na porta do palácio de Gaudí a moça mudaria a pergunta: “você é aquele cara do Youtube apalpando os próprios glúteos?”. Aonde eu ia enfiar a cara? Pensando bem, periga alguém ter visto e até filmado porque, pelo que me lembro, não olhei para trás conferindo se vinha gente… Estava tão feliz com o novo eu, este ser trabalhado nos gominhos que vai retornar para o Brasil. E continuo feliz ainda! Oxi, se não.





VIGÉSIMO TERCEIRO DIA NO CAMINHO
03/06/2017
Trecho: El Ganso até Riego de Ambros - 27km de distância

Honra teu pai e tua mãe para que Deus prolongue teus dias sobre a face da terra. Está no livro de Êxodo, capítulo vinte versículo doze. Com uma promessa dessa eu sempre fiz questão de ser bom filho, ser íntegro em todas as questões, guardar os exemplos recebidos dos meus pais e amparar minha família, dentro das possibilidades. Foi pensando assim que tomei posse da herança que meu pai deixou no ano de dois mil e cinco. Ele sempre foi aventureiro, do tipo que não podia ver uma estradinha, uma trilha, uma picada que já queria ver aonde ia dar, que coisas haviam ali para serem vistas, se tinha fim, se terminava em pé de serra ou em olho d'água. Eu era o filho homem mais velho, o companheiro nas pequenas incursões, o filho a quem ele esperava transmitir tudo que sabia da vida e dos caminhos de Deus, Nosso Senhor. Meu pai gostava de ler, tudo que caia em suas mãos ele devorava, sedento de conhecimento. Não era doutor. Era Pastor. Eu cresci com o estigma de ser filho do pastor numa vila com menos de dois mil habitantes, no Triângulo Mineiro, oeste de Minas Gerais. Noventa e sete por cento dos habitantes eram católicos, dois cidadãos eram ateus e os outros trinta e seis moradores da vila eram crentes. Eu era um deles, com a agravante de ser o filho do pastor. Bullying é para os fracos, aos nove anos de idade eu já era forte, já me defendia e defendia meus irmãos, éramos sete. Sete filhos do pastor. Outro dia talvez eu escreva o inferno decorrente desse fato. Voltando ao que interessa no momento, eu tinha em mim a curiosidade e inquietações que, penso, moviam meu pai. Consequentemente eu também lia tudo que meu pai conseguia, lia tudo que me providenciava o padre Dázio, um italiano velhinho, sábio até onde a vida de um padre largado nos cafundós de Minas Gerais permite ser. Eu lia tudo que a Dona Mariah, professora e esposa do farmacêutico, me conseguia de literatura. Eu ouvia todos os causos que os mais velhos contavam, todas as histórias e lendas que corriam na boca do povo, e principalmente, eu seguia meu pai nas pequenas aventuras pelos caminhos, matas, serras e rios da região. Dessa forma cresci, enriquecendo minha mente com estes parcos recursos. Éramos pobres. Absolutamente pobres. Então eu vim para São Paulo aos dezessete anos, tentar melhor sorte. Meu pai continuou suas pequenas aventuras, eu cuidei da minha vida procurando ser íntegro, procurando não envergonhar meus pais. Consegui algum sucesso na vida, para orgulho deles. Foi proporcionando pequenas alegrias e aumentando consideravelmente meus dias de vida sobre a face da terra, que cheguei ao ano de dois mil e cinco. Meu pai faleceu. Por herança tomei uma caixa de material plástico, pequena, medindo dezoito centímetros de comprimento por dez de largura e oito de altura. Era de um microfone que papai comprou para a igreja. Dentro dessa caixa vinte e oito pedras, pequenas, tamanho médio de uma noz. A menor do tamanho de um ovo de codorna, a maior delas do tamanho de um ovo de galinha. Vinte e oito pedras que ao longo de sua vida, meu pai coletou como lembrança de suas aventuras. Um leito de rio, um topo de serra, uma viagem ao Mato Grosso, um culto em Goiás, um passeio no Pará. Eu o levei para conhecer o mar, subiu a serra com uma pedrinha no bolso. As pedrinhas eram suas grandes recordações de pequenas incursões. As pedras do meu pai ficaram comigo, trouxe para São Paulo e ficaram na mesma caixa durante anos. Um dia fui subir a Serra do Lopo e resolvi levar uma pedra para deixar lá. Meu pai gostaria de participar de uma aventura assim. Outra pedra foi comigo e ficou em Pomerode, Santa Catarina. Outra pedra me acompanhou na cachoeira do Elefante, descida Mogi-Bertioga. Meu pai teria chorado de emoção com aquilo tudo, a cachoeira é linda! Sua pedra ficou lá. Outras pedras foram ficando onde ele nunca pode ir, eu levei cada uma delas. E assim as pedrinhas foram diminuindo na caixa de microfone. Uma única pedra tem o nome de meu pai. Ele escreveu seu nome e data, não sei o porquê. E de alguma forma sempre a considerei especial, então, quando comecei a planejar a minha maior aventura, decidi que ela seria a pedra que eu deixaria no Caminho de Santiago. Uma forma de trazer o meu pai para participar comigo dessa caminhada, trouxe a pedra especial já decidido que ela seria depositada aos pés da cruz de ferro. Hoje foi um dia especial para mim no caminho de Santiago de Compostela, passei pela cruz de ferro. O dia amanheceu frio, cerração tomando conta do Pueblo de El Ganso. Comecei a caminhada achando que ia chover. Fleece, corta-vento, touca, luvas... Em Foncebadón o vento ficou mais forte e frio, as nuvens tomaram conta do cenário deixando as casas e igreja de pedras centenárias mais místicas. Para aliviar um pequeno incômodo na perna direita - a perna das dores (a esquerda é das bolhas e unha encravada), e já sabendo que o dia seria de longas subidas e descidas, despachei a mochila pela primeira vez. A pedra no bolso. Cheguei na cruz de ferro, coração apertado, subi o monturo de pedras, chorei, fiz uma oração e desci. Continuei meu caminho procurando não voltar trás. O céu se abriu por alguns minutos e o sol veio, como um alento, aquecer meu coração e meu corpo. A pedra no meu bolso. Por alguma razão, enquanto eu orava, prestes a depositar a pedra no lugar combinado comigo mesmo, me veio o pensamento que não estaria honrando o aventureiro que meu pai foi, se deixasse a pedra no meio do caminho. Ele gostaria de terminar esta aventura, de ver aonde este caminho vai dar. A pedra vai a Finisterra. É lá que esta minha aventura termina.





VIGÉSIMO QUARTO DIA NO CAMINHO
04/06/2017
Trecho: Riego de Ambros até Pieros - 30km de distância

O bicho peregrino é elegante demais. Só que não. É um tal de improvisar proteções contra o frio ou calor, ou mesmo chuva! E amarra daqui, coloca alfinete dali, usa um pregador de roupas aqui, tem uma argolinha lá. A mochila recheada, estufada de tanto treco dentro, e por fora sacolinhas de pão, bolsinhas diversas, pão, capa de chuva, pão, chinelos, botas, pão, garrafinha de água, pão, roupa secando, pão, bastão, pão, tudo pendurado, inclusive o pão. Às vezes umas bananas amarradas ao lado do pão. Sim tem gente que amarra penca de bananas na mochila. Brasileiro é campeão na criatividade visual e também comparando preços lá e cá. No visual nada combina com nada, compra tudo primeiro preço e não importa a cor. Produto tem etiqueta ”dry” e preço “off”? Uai, nóis compra! Daí chega aqui, vai na Decathlon de Madri ou de Pamplona, ou de Logroño, ou de Ponferrada e descobre que, mesmo pagando em euro, sairia mais em conta comprar aqui, na Europa. E aqui dá para ornar tudo!! Coitados de nós com esses impostos made in Brazil!! A gente faz a maior mágica para embarcar os bastões de trezentos reais o par, depois que já está feliz da vida, se sentindo o “masterblaster das espertezas embarcatícias”, na vitrine da primeira loja descobre que pagaria o equivalente a setenta reais no mesmo par de bastões. Ops, o assunto é elegância, foco Betão… Para um francês qualquer roupa é roupa de caminhada, desde que seja toda preta, até as botas são pretas. Espanhol vem de camisa social, calça qualquer, chapéu que estiver mais a mão e botas. O alemão e o japonês vêm de bermudas, meias até o meio das canelas e botas, camisas tanto faz! A diferença é que a meia do alemão cai sobre os tornozelos nos primeiros tuque-tuque-tuque-tuque, enquanto as meias dos japoneses ficam exatamente onde eles vestem. Italiano acha que roupa de ciclismo é fitness multi-uso, então veste camisa babylook, bermuda colante, periga até encontrar um italiano caminhando de bermudas com estofamento no bumbum, e botas. Posso falar das botas? Salvo engano desses meus olhos observadores todo europeu, no caminho, calça botas. Até os caminhantes de domingo, os moradores de entorno que levam o cão para cheirar peregrino que atravessam seus pueblos. Esses locais também calçam botas (os humanos, os cães estão sempre descalços e fico com dó, pensando se não inventam ferradura canina para proteger as patas das pedras)! Tenho a impressão que só americanos e australianos investem nos chinelos ou sandálias para caminhada. O resto do mundo diversifica. Tênis, papete, botina, sapato, chinelo, descalços. Gente, se o povo daqui usa botas, é porque deve saber o que está fazendo! A Espanha é uma imensa pedreira! Tudo aqui é pedra! Quando chove é pedra escorregadia. Quando faz calor é pedra lascada! Falando nisso a minha TNF abriu o bico, descosturou na parte da frente da bota esquerda, também está abrindo um vão na vulcanização traseira da bota direita. Se antes eu tinha dúvidas com o goretek, agora mixou de vez a confiança na marca. Sem contar que o solado está liso, gastou absurdamente. Assim que restabelecer minhas finanças volto para a Salomon, que nunca me deu bolhas nem deixou meus pés molhados. Infelizmente estou desprovido e não posso tacar a bota no mato e adquirir uma Salomon, aqui é metade do preço que pagamos no Brasil-sil-sil-sil... Mochilas são deuter, noventa por cento delas, pelo menos! Os alemães me dão a impressão que ganham mochilas deuter de brinde nas lojas de ferragens. Mas a elegância que me atrai, mais que no traje e acessórios, é no jeito de caminhar. O peregrino tem a postura AT e a PT (nada a ver com política brasileira), aqui estou tratando do Antes do Trecho e o Pós Trecho. No quesito elegância na troca de passos, o brasileiro é campeão em pagar mico - os gringos fazem nossa alegria nas marcas corporais antes e pós sol sobre a pele, no fim de cada dia, nos albergues, todos desfilam de chinelos, vários formatos, é um show de horrores as vermelhidões em ombros, pescoços, meio braço, metade de perna, metade de canela, metade de testa, ponta de nariz, ponta de orelhas, pés. O mais cômico para nós brasileiros são as canelas do povo gringo, as pernas vão passando e cada qual com uma altura de marca do sol, dependendo se a meia estava esticada ou arriada. Joelho é branco. As canelas, panturrilhas e tornozelo são vermelhos, cor de cereja madura. O pé é branco para ornar com o joelho. Os pescoços, atrás, na parte da nuca, em alguns australianos ficam cor de vinho tinto. Bordô. A gente dos trópicos ri parado, sentado, tomando “ràrra de cerveza” ou sangria, mas quando começa a andar... É um desfile de marrecos fora d’água. O brasileiro sofre mais que qualquer outro povo com as caminhadas diárias. Penso que brasileiro é o povo que mais usa carro, não vai à padaria da esquina sem usar um carro! Ao longo da vida os pés desacostumam de suportar o peso do próprio corpo. Daí vem percorrer caminho de Santiago, com mochila a vinte por cento do peso corporal na cacunda… Dói a planta do pé, dói o calcanhar, dói tornozelos, canela, panturrilha, coxa, quadril, baço, fígado, estômago, pulmão, ombros, braços, pescoço, cabeça, olhos, tudo! Dá cãibras até no dedo mindinho da mão. Não falei que dói o rim porque se doer o rim acabou a caminhada! O coração só dói de saudades. E o resultado de tantas dores? O jeito de andar muda. Tem gente que anda torto, corpo penso, fora de prumo, caindo para o lado da dor (eu andei assim um dia inteiro), ou inclinado para frente, ou com a perna dura, mancando, pisando rápido para doer pouco cada um dos pés. Ontem, na chegada em Acebo, bem na metade do descidão após a Cruz de Ferro - a trilha é pedregosa, íngreme, difícil, termina numa curva da Carretera e o peregrino ainda tem que atravessar a rodovia para entrar na vila. A vila começa num bar, perigosamente a beira dessa curva, ali eu fiquei descansando uns minutos. Sentado de frente com o final da trilha. Nisso um grupo de brazucas chegou e, dolorosamente iniciou travessia da pista, uma das mulheres estava no meio da rodovia quando um carro apontou na curva… sabe corrida de caramujo? Em câmera lenta, um a um foram alcançando o acostamento, menos a moça. Ela tentou - claro que tentou, mas nessa hora o cérebro manda e a perna não obedece. O motorista do carro parou e esperou ela completar a travessia. Já do lado de cá o moço pergunta: “por que você não correu?”. Ela com toda sinceridade: “eu esqueci como é que se faz pra correr”. Imagine a elegância dela pra sentar! Depois de um dia todo administrando as dores o peregrino toma ducha, calça chinelos e tudo que deseja é não ter que andar, mas é preciso cumprir a rotina de lavar roupas, buscar formas de se alimentar, depois recolher as roupas secas e finalmente deitar na litera. Se optar pelo menu peregrino no jantar, vai fazer a caminhada coletiva de grávidas. Um bando de marmanjos parecendo que está no oitavo mês de gestação. Anda olhando o chão, sem interesse algum em saber quantos metros ainda faltam para chegar à mesa. Caminha lentamente arrastando chinelos, uma das mãos amparada nos móveis, paredes, corrimões e a outra mão nos ‘quartos’ segurando uma dor. Peregrino brasileiro, após duas horas de descanso, musculatura fria, tem essa elegância peculiar no caminhar, tanto lembra um marreco na areia quanto uma foca num gramado, ainda fico em dúvida. Coitado do brazuca, ele sofre mais, entretanto a verdade é que, em fila indiana rumo ao refeitório nenhum peregrino, de nenhum país, está serelepe e saltitante. Só os alemães, mas eles não são dados a tripudiar e se prestar bastante atenção eles até fingem sentir alguma dor. Não se engane, é broma! ...acho que estou invocado com os alemães!





VIGÉSIMO QUINTO DIA NO CAMINHO
05/06/2017
Trecho: Pieros até Ruitelán - 25km de distância

Hoje estou sem graça pra dizer dum assunto… vamos nos introdutórios que a prosa anda. Ontem parei numa cidadezinha que não lembro o nome porque estou sem o livrinho verde aqui, está lá no quarto e lá não chega wi-fi. São quase dez da noite, não vou enrolar muito que todos já se recolhem, alguns já roncam, é a rotina noturna. Ontem me hospedei num albergue vegetariano, já comecei errado, pois sou carnívoro convicto. Comi filé de pimentão, abobrinha e trigo. Alimentou! Não reclamo. Dormi bem, sou bom nisso, acordei por volta das seis da manhã com os farfalhares de peregrinos saindo. Fiz a rotina matinal, o fato novo é que tomei meio litro de leite - era de graça, botei açúcar para dar energia e fui caminhar. Passei por locais tão bonitos! Vales e veredas, beira de rio cristalino, céu azul intenso, ao lado de montanhas cortadas por ação do tempo e de homens. Vinhedos! Os vinhedos voltaram para o caminho. Hoje, pela primeira vez em minha vida vi uma pereira carregada de pequenas frutas. Pereira, pé de pera. Roubei cereja madura na beira da estrada… no pé carregado de frutinhas vermelhas um cartaz com um pedido que já vou traduzir: “por favor, deixe algumas cerejas para os donos”. Deixei algumas. Muitas! Porém, todas as vezes que eu atento contra um dos dez mandamentos, o castigo vem a cavalo. É pá e pum! Vai vendo… Vi arbustos de galhos azuis. Lógico que foram pintados. Alguém teve o trabalho de pintar galho por galho, dezenas de arbustos secos agora estão azulados, contrastando com a vegetação natural, ficou surreal e belo. Fotografei. Saindo de La Portela de Valcarce fiz o tradicional giro de trezentos e oitenta graus e quase perdi o fôlego. O vilarejo espremido entre duas encostas de serra, as torres da catedral bem ao centro e os telhados de ardósia nas casas compondo cenário de contos de fadas. De encher os olhos. O leite não me caiu bem com cerejas r-o-u-b-a-d-a-s, desandou os intestinos no meio de um trecho, entre uma vila e outra, fui obrigado a visitar a moita. Que moita? De um lado a serra pura pedra, pedra lascada, do outro a pirambeira do rio, se desço nunca mais subo! Além do quê, todo passante me veria de longe. Fui andando, uma subidinha suave, interminável: “depois dessa curva enorme tem que ter uma forma de aliviar”. Não tinha. Somente mais serra cortada, pirambeira de rio e o intestino muito doido, brincando de acionista majoritário da usina de calafrios. Isso foi me comprometendo o ritmo da caminhada! Peregrinos foram me ultrapassando, bom caminho”. E lá vem o próximo tuque-tuque-tuque acompanhado de sorrisos e eu agonizando para responder, “bom caminho!”. A mocinha do Chile também me alcançou, aquela de olhos azuis, da noite de autógrafos, que se aproximou segurando um livro, óculos de leitura, exibindo ares intelectuais, lembra? Então, ela lembrou. Um sorriso Barbiesco: “Buen Camino”. Eu devo ter torcido todos os músculos da face tentando sorrir e responder 'bom caminho’. Ela ficou sem entender se a presença dela me causava enjoos, entorse muscular ou epilepsia. Não deu tempo de corrigir a péssima recepção, pois foi só o tempo de completar a frase 'bom caminho’, e avistei uma descidinha para carros no lado da pirambeira. Pensei: “saio do caminho, acho uma moita e depois volto”. No que achei a solução minha cara deve ter voltado ao normal, pois a chilena engatou conversa. A vicinal chegando e a moça falando, eu só nas onomatopeias e diminuindo o passo. Ela diminuiu o passo também. Faltava uns cem metros para chegar no desvio, a chilena sorrindo e falando sozinha, meu cérebro estava ausente, se comunicando com os intestinos, informando que a solução estava a caminho... virou uma rebordosa geral no interior de mim. Um suador no exterior! A chilena discursando teorias e eu trocando os passos quase pisando nos próprios dedões. A descidinha chegando, eu entortando os joelhos, a chilena falando. Parei! Dez metros adiante o ponto onde eu deveria abandonar o caminho parei. A moça também parou, um sinal de interrogação em cada olho azul. O eu pragmático voltou e só fui sincero: “preciso ir no mato”. Eu falei no idioma e no gestual entendível, resultado? Ela entendeu. “Ok. Vou caminhando devagar e você me alcança?”. Um sorriso que faria qualquer vivente responder “sim, eu te alcanço”. Eu estava torto, engessado, transpassado de cólicas, só consegui balançar a cabeça afirmativamente. Ela insistiu nos benefícios de alcança-la, “Conversar é ótimo para distrair dores durante a caminhada”. Balancei a cabeça concordando, fiquei receoso de dizer que não era a paradinha comum, aquela que nesta altura do caminho de Santiago todo mundo, seja homem ou seja mulher, nem entra tanto no mato, só esconde o principal atrás de um arbusto qualquer e pronto, resolvido o assunto. Deixei ela andar uns quatro metros antes de continuar, fiz o desvio, desfivelei a mochila, desci uns trinta metros pela estradinha, desabotoando cós, grama alta, abri o zíper, beira de rio, aqui! Quase nem deu tempo de pensar “Aqui!!”. Atendi a urgência fisiológica. Tem coisa melhor sim, mas não nessa hora! Acho que orei, agradecendo e pedindo perdão por roubar cerejas. Estava levantando o zíper quando percebi o entorno. Minha mochila ao lado, colada, quase tocando uma fisiologia alheia. O cajado? Por pouco não finquei num fisiológico antigo. Firmei os olhos, fui prestar atenção direito e os monturos eram dezenas, centenas talvez. Sem entrar nos detalhes de cor e consistência, mas cada monturo aparentava uma data diferente. Devia ter obra fisiológica do tempo dos romanos! Eu queria o que? A única moita recatada após quilômetros.. Claro que eu não seria o único peregrino, com urgência, a escapar pela estradinha rumo ao rio. Ao lado barulho de cachoeira. Uma barragem feita com pedras, intervenção humana, a estradinha deve ser acesso de manutenção, imaginei. Subi olhando bem aonde pisava, cheguei no caminho, um bloco de peregrinos passando. Todos discretos, finos, cara de paisagem, porém lendo em minha testa a razão do meu desvio. Lá na frente a chilena parada. Quando a alcancei me sentia um Shrek, ela sorriu Fionamente. Ninguém comentou a minha demora, apenas engatamos uma conversa animada e assim continuou até chegar no Pueblo seguinte. Fiquei, alberguei, ela seguiu adiante. A chilena de olhos azuis realmente gosta e entende de literatura universal, subestimei. Ainda bem que subestimar inteligência não é pecado.





VIGÉSIMO SEXTO DIA NO CAMINHO
06/06/2017
Trecho: Ruitelán até Fillobal - 26,9km de distância

Passei pelo O Cebreiro, nem escrevi a crônica do dia porque dormi cedo... de tão cansado que estava.





VIGÉSIMO SÉTIMO DIA NO CAMINHO
07/06/2017
Trecho: Fillobal até Ferreiros - 38,6km de distância

O Cebreiro. Foi tão tranquilo subir e descer O Cebreiro ontem que fiquei em estado de graça. Paisagem de tirar o fôlego. Frio de tirar o fôlego. Subida de tirar o fôlego. E a presença de Deus? De colocar fôlego na gente. A caminhada começou em Ruitelán, onde passei a noite no albergue Pequeno Potala. Ainda não recomendei nenhum albergue a ninguém, recomendo. Dica: Programe sua caminhada para passar a noite em Ruitelán, no Albergue Pequeno Potala. Potala, para quem não conhece é aquele palácio no Tibet onde o Dalai Lama viveu até precisar fugir… a pretensão do albergue se justifica, o peregrino é tratado como um pequeno rei (eu sei que Dalai não é rei), os dois hospitaleiros são perfeitos em todos os detalhes. Hospede-se e escolha jantar e tomar café da manhã no albergue. Vai se surpreender com os detalhes, e eu sou um sujeito que se prende a detalhes. Pronto, estava falando do O Cebreiro. Coisa mais linda a paisagem, as serras parecendo sorvete de pistache com cobertura de chantilly, andei nas nuvens. Respirei nuvens. E no meu caminho teve arco-íris, vai vendo! Tem foto no instagram para provar, tem peregrino brasileiro que viu também. Sempre bom ter vivente para testemunhar que O Cebreiro fez arco-íris duplo na minha passagem. Betão, F-O-C-O!! O caminho de La Faba, passando pelo O Cebreiro e indo até o Alto do Poio, é uma estradinha por onde passam peregrinos, tratores e vacas. Peregrino passa o tempo todo, e faz selfie, e para pra respirar, e abre caminho para os tratores, e para novamente para respirar, e abre caminho para as vacas… Aqui na Espanha é muito diferente de Minas. Na minha terra o gado de leite é solto na invernada toda manhã, vaca pasta, bezerro aprende a pastar, touro vigia e pasta, no final da tarde o vaqueiro busca todo mundo, aparta vacas de bezerros para dormirem. No curral cada bicho tem seu quadrado coletivo para passar a noite, sessenta vacas nunca canto, cinquenta e oito bezerros no outro. O touro, vinte novilhas e três garrotes ficam no pasto. As vacas prenhas? também ficam no pasto. E o pasto é uma imensidão de capim, fazenda sobe e desce morro antes de chegar no arame farpado da cerca. Aqui cada seis vacas tem um lote de uns dez mil metros quadrados pra chamar de pasto. Moram num galpão onde comem alfafa, feno e outras iguarias. São gordas. Bonitas. Cada bojo que é uma fartura de leite. Das seis vacas, uma carrega um badalo no pescoço. Ela anda o sino badala. Ela abaixa a cabeça para morder capim, badala. Levanta cabeça para ver peregrino passar, badala. Olha a colega vaca ao lado, badala. Troca o passo, badala. Rumina, badala. Espanta uma mosca na orelha, badala. É o dia inteiro o tal do sino badalando no ouvido da coitada! É claro que a vaca fica louca!! Daí os europeus sacrificam milhares dessas coitadas com doença da vaca louca… Gente, é só tirar o badalo do pescoço das vacas! E também não deveriam dar leite com cerejas para as coitadas das vacas. De La Faba até o Alto do Poio, tudo obrado pelas vacas. O chão verde. As moscas verdes. As rodas de tratores verdes. A solas dos peregrino verdes. E eu percebi também que cheguei na Galícia, a fronteira está lá no Alto do Poio. Além do totem avisando que ali começa a Galícia, tem o visual, a coisa muda! Tem passarinho diferente, tem flor diferente, tem borboleta diferente, paisagem diferente, trilhas entre bosques de árvores centenárias, talvez milenárias, que eu acho que são carvalhos. Sabe o pé? Esse trem que a gente tem no final do corpo, lá embaixo, onde termina a perna? Então, esse pé que no dia a dia da vida comum a pessoa, geralmente, esconde dentro da meia, enfia dentro do calçado e depois esquece o resto do dia? Esse coitado, desdenhado em sua real importância e também nos cuidados? Ok, a mulher até cuida um pouco mais, lixa a sola, tira umas cutículas, pinta as unhas, num evento esporádico, ou ocasião especial dá banho de essências, óleos, massagem. Pois bem, aqui no caminho de Santiago de Compostela, o pé do peregrino é a parte do corpo que ganha maior destaque. Após o primeiro passo, seja onde o caminho começar, tudo tem a ver com a saúde e integridade dos pés. Os meus estavam bem, tranquilos, uma dorzinha, uma bolha falsa no calcanhar sem incomodar, uma unha encravando… ontem e hoje meus pés se rebelaram. Estão abrindo o bico na reta final. Hoje caminhei até Ferreiros, não encontrei albergue em lugar algum, sem condições de andar mais um passo, chamei um táxi e voltei para Sarria. Quinze quilômetros de botas e pés ficaram no caminho. Fazia vinte e sete dias que eu não entrava num carro, foi estranho ver a La Carretera por outra perspectiva. O caminho sempre tem surpresas! E a cara dos outros peregrinos me vendo chegar de táxi? Devem estar cochichando sobre mim, sou o peregrino nutella do dia. Quase meia noite e ao invés de dormirem falam sobre eu chegar de taxi no albergue. Como sei? Uai, ninguém roncou ainda! Ah, ontem eu dormi e quanto acordei já era hoje, por isso não escrevi. Nada demais. Quase aconteceu o mesmo hoje. Sorte que faltam onze minutos para ser amanhã... Entendeu?





VIGÉSIMO OITAVO DIA NO CAMINHO
08/06/2017
Trecho: Ferreiros até Gonzar - 16,2km de distância

Estou em Gonzar, um Pueblo logo após Portomarin. No beliche. Estou na cama ‘abajo’ e na cama ‘arriba’ um americano com dois metros de altura e uns cento e vinte quilos de músculos. Cada movimento dele temo pelo pior, eu esmagado pelas grades de madeira, pelo colchão e pelo americano graúdo. Não é nada confortável a sensação de alerta a cada rangido nos estrados e engates do beliche. Terremoto na ‘literas’. Até já sei o roteiro da noite; madrugada, frio, roncos, sinfônica made in corea (hoje talvez não), farfalhar de saquinhos, sacolinhas e além de administrar dores, acordar temeroso diante de qualquer movimento. Uma realidade do peregrino que chega primeiro, escolhe a cama de baixo nos beliches e reza para a cama de cima ser ocupada por alguma avozinha japonesa, minúscula, leve e com bastante senso de comportamento em coletividade. Elas são quase invisíveis! Extremo oposto dos adolescentes que invadem o caminho em busca de aventura semanal. Sarria ficou para trás, é um vilarejo relativamente grande, tem estação ferroviária aonde, a cada três horas, chega um comboio. A locomotiva para, abre as portas do vagões e despeja centenas de novos peregrinos. Eles saem como formigas cheias de afazeres; selfie na praça, selfie no bar, selfie na placa do caminho, selfie na escultura do peregrino, selfie na seta amarela, selfie no peregrino distraído... O peregrino distraído percebe que uma coluna de legionários, na faixa etária dos dezesseis a dezenove, está preste a marchar em direção aos albergues. O peregrino distraído é veterano, ele rapidamente imprime sua estratégia de vinte e oito dias de caminho, ele bate o cajado para marcar ritmo, alonga a passada e até fica feliz quando começa a se distanciar dos legionários. O albergue mais próximo está a quatro quilômetros, é só manter esse ritmo, essa passada, essa estratégia desenvolvida para ultrapassar coreanos no fim do trecho. Sempre deu certo! Coreanos se reagrupam para registrar entrada no albergue, uns vão esperando os outros e formando o grupão de vinte camas a menos nos albergues. Se o peregrino deseja garantir seu lugar na ‘litera’ o jeito é ganhar na velocidade, passar na frente do grupo enquanto se reagrupam, eles fazem isso rapidamente, e pisar na soleira do albergue primeiro. Sempre deu certo! Mas agora que passou Sarria, as lendas dizem sobre albergues tomados por legião em busca da compostelana. Os legionários são de outra espécie, atuam de forma diferente, também lotam albergues e precisam ser vencidos! O peregrino pensa sobre essas lendas, bate o cajado, pisa firme, dói a bolha antiga que está quase curada “não é nada, depois cuido. O importante é chegar no albergue antes dos legionários”. Bota-bota-bota-bota… O peregrino até sorri quando olha para trás, giro de cento e noventa e cinco graus, e não vê ninguém na curva da trilha. Ressuscitar a bolha está valendo a pena. Depois é só cuidar, como sempre fez! Importante é garantir cama, chegar antes dos legionários e dos coreanos. O caminho só fica mais difícil a cada dia, nunca fica mais fácil, por mais experiência que o peregrino adquiriu nestes quase trinta dias seguindo todas as regras da caminhada, regras dos albergues, regras do improviso, regras da sobrevivência… o caminho não tem regras. O caminho só recebe o peregrino. O peregrino acha, só acha, que está mais experiente. Faltam ainda três quilômetros, o peregrino vigia a curva atrás de si e percebe a legião romana - em formação casco de tartaruga, atropelando pedras, troncos caídos, capim. Nada resiste, nem a distância, nem o tempo, nem o caminho, o peregrino se vê engolido pela massa de adolescentes. Abusados! Não desejam bom caminho, não usam bastão, não vestem fleece, corta-vento, mochilas cargueiras. Pior, espantam passarinhos, pisam taturanas, não contemplam paisagem! Apenas falam, riem e avançam. O sangue ferve ao perceber que estão correndo na subida! Correr na subida é uma afronta moral... O peregrino vê a cama bater asas e sair voando. Mentalmente calcula quanto mais terá que andar. Dez quilômetros se perder essa cama! Não pode perder. A bota é um forno assando pele, músculos, ossos e ferimentos. A água da bolha ferve, o pé inteiro está latejando, a entrada do pueblo está a um quilômetro de distancia e a legião romana marcha a sua frente. Só resta rezar para que sobre uma litera. Seria melhor uma cama de baixo, da para sentar e não precisa escalar para dormir, mas qualquer cama será bem-vinda! O peregrino já se dava por vencido quando a legião romana para. Porque pararam? Será que estão reagrupando? Alguma outra mania nova? O peregrino desconfiado com a própria sorte pisa suas dores e passa, silenciosamente, pelos legionários nos seus afazeres; selfie na praça, selfie no bar, selfie na placa do caminho, selfie na escultura do peregrino, selfie na seta amarela, selfie no peregrino atento a placa de albergue. Ele não sorri, bate o cajado no solo, não geme ao tropeçar na pedra, não pensa, não respira, apenas passa pela horda e pisa primeiro na soleira do albergue. Ainda sem respirar solta o ar dos pulmões numa pergunta que acredita estar correta: “hay litera?”.... Suspense eterno de dois segundos… “Si. Pasaporte y credencial”. O coração finalmente volta a bater e os olhos lacrimejam. Nenhuma dor nos pés, está tudo dormente, anestesiado pela adrenalina. Atrás do peregrino a formação casco de tartaruga aguarda com credenciais ávidas pelo primeiro carimbo. Coitados dos coreanos, o peregrino ainda encontra solidariedade para com o antigo adversário. Na cama acima da minha o americano se mexe, o estrado enverga mas resiste. Será uma noite inteira de terremoto na beliche... Quem liga? Eu tenho cama! Só isso importa por hoje.

(para tudo tem uma primeira vez, então, um adendo na postagem de hoje. sim, continuação de crônica pós menu peregrino...)

Deixando bem claro que não tenho nada contra a invasão dos legionários! A cada trinta ou sessenta indivíduos, um ou dez interage com os peregrinos que apresentam alto grau de sofrimento, a popular cara de coitado. E tem muito caminhante se arrastando, mancando, remando com o cajado, encurvado sob o peso da mochila. Nem precisa fazer cara de coitado, tem cara de coitado! A gente que está relativamente bem, apesar das poucas dores e fadigas dos músculos, ainda faz cara de coitado quando convém, mas o coitado raiz, que tem todas as dores impressas em cada ruga da face, esse é o peregrino que recebe um olhar, depois um “ôla” ou “que tal?” e até um “buen camino” e depois que o peregrino geme um agradecimento, talvez receba também uma interação por minutos. Os legionários são felizes! De St Jean Pied de Port até Sarria eu não ouvi nenhuma vez um incentivo “Ultréia” de qualquer outro peregrino - lamento informar que Ultreia e Susséia são lendas, frases do imaginário popular. Mas nos poucos quilômetros pós-invasão dos doces bárbaros, ouço “Ultréia” pelo menos uma vez a cada ultrapassagem. Eu grito de volta: “Ao infinito e além”. Eles ultrapassam, claro! Agora um minuto de seriedade no assunto: A guerra por camas faz parte do folclore do caminho, peregrinos temem ficar sem albergue, óbvio! Ninguém fica impassível diante da ameaça de dormir ao relento num local desconhecido, num país que não é o seu, num outro continente. E tem gente dormindo em porta de igreja faz um tempo! Apavora ficar sujeito a esse transtorno… mas só dorme na porta da igreja quem não esgota todas as possibilidades, e elas são muitas. Eu mesmo já passei por ameaça de estender saco de dormir na varanda de algum prédio por cinco vezes. E nenhuma delas se concretizou. Já andei quase quarenta quilômetros quando tinha planejado caminhar vinte e cinco, teria que andar outros dez quilômetros buscando pouso, o que fiz? Sentei na porta da igreja e fiz cara de coitado e… não, espera, acabou o minuto de seriedade, eu liguei para um taxista que tinha cartaz colado em todo refugio, bar, restaurante, tenda e perguntei se ele poderia me buscar (passei localização) e levar em algum albergue com cama disponível. Ele pediu cinco minutos, fez as ligações e me conseguiu albergue. Voltei quinze quilômetros, de táxi, paguei quinze euros pela corrida e dormi numa cama confortável. Dia seguinte voltei ao ponto original e bola, aliás, bota pra frente! Pisei o verde esterco de vaca galega! Sim, as estradinhas da Galícia são mais verdes. De esterco de vaca. Já falei, mas não é demais continuar dizendo!! A vaca do badalo, a vaca que fica louca, essa vaca bebe leite e come cereja todo dia, só pode! Essa vaca divide espaço com peregrino, trator e também com moscas! Porque é assim, lei da cadeia alimentar; a vaca come capim… É, não dá sequência até o topo da cadeia, mas enfim, o verdume atrai moscas. Moscas em abundância! É impressionante, até mesmo para um peregrino criado no meio do gado mineiro o tanto de moscas. E se já enfrentei vários perrengues neste caminho, sem lamentar nenhum, e sem contar nem a metade, vou agora criar desavença com legionários que me gritam Ultréia toda hora? Susséia neles! Ao infinito e além neles! Truco neles! Grito qualquer frase rápida, já que é melhor andar de boca fechada para não entrar mosquito! E olhando bem aonde piso, claro. A cada vez que um legionário me grita um Ultréia eu só fico incomodado se o adolescente está me achando com cara de coitado… será? Minha mão está até dormente de digitar no celular. Boa noite! Aqui os legionários estão incendiando o Albergue. É muita energia!





VIGÉSIMO NONO DIA NO CAMINHO
09/06/2017
Trecho: Gonzar até Melide - 29,3km de distância

Não tem jeito, ninguém escapa de sofrer no caminho. Passei vinte e sete dias me gabando de bolha bebê que não vingou, de bolha gigante no calcanhar que não incomodava, de dores na coxa que se curaram, de dor na lombar por um dia, dor no gominho do abdômen, sendo que nem tenho gominho no abdômen. Pois então, faltando apenas dois dias para chegar em Santiago da Compostela estou com bolhas nos dois calcanhares, dor na canela esquerda e uma faca enfiada na sola do pé direito. Isso adia minha chegada em Santiago para segunda ou terça, ao invés de domingo. Lição de humildade para não ficar se gabando de bater pé na soleira do albergue antes dos legionários e dos coreanos. Falando em legionários, ontem foi atípico, um salseiro de vozes, risadas, gritinhos, zueiras, furdunço, pegação e sobedesce nos beliches até às vinte e duas horas e dois minutos! O líder da bancada legiônica bateu palmas duas vezes, falou a hora e puff. Um farfalhar aqui, outro ali, ajeita o travesseiro, puxa zíper de saco de dormir e antes das dez e dez da noite nenhum pio. Queria ter esse esquema lá em casa, bater palmas e falar as horas, em oito minutos a caçula dormindo o soninho dos inocentes. Me auto emocionei aqui… Hoje aconteceram três coisas estranhamente mágicas. Primeira; levantei antes das seis da manhã e fui caminhar. Pela segunda vez nesta jornada eu ganhei o mundo antes do sol. Uma trilha entre bosques, pena que ainda escuro, mas a magia é essa absoluta segurança que nenhum mal vai acontecer. Na escuridão o peregrino anda despreocupado, nem passa pela sua mente a possibilidade de violência no caminho rumo a Santiago de Compostela. Segunda; após uns quarenta minutos de bota-bota-bota-bota, os pés doendo, um incômodo a cada passo me entristecendo os ânimos, vejo uma sombra negra, tamanho de um bezerro, se movimentando em minha direção, gelei. Era o gigantesco cão da Galícia, pesadelo que sempre me apavorou os pensamentos e razão de eu ter comprado um bastão. Congelei. Quem me conhece desde criança sabe que tenho medo de cachorros. Já fui mordido oito vezes ao longo da vida, por raças diversas e cães de formatos distintos, desde um fila a um pinscher. Eles definitivamente têm algo contra mim, assim como tem contra os gatos. Minha teoria é que devo ser um gato! Empedrei. Pensei levantar o cajado em posição de defesa, uma paulada bem dada no focinho… não, vou é cravar a ponta do bastão na boca do bicho assim que ele abrir para me abocanhar… o gigante negro se aproximando e eu desenvolvendo fórmulas mágicas de eliminar o bicho, todas elas envolviam o cajado, o mesmo que abre nuvens e não permite que chova sobre mim. Já em estado de hipotermia, e sem mover um músculo em resposta as dezenas de soluções elaboradas mentalmente, eu senti o focinho do monstro entre minhas pernas, separando as virilhas. “Não terei um quinto filho”... Sim, tenho quatro herdeiros. Eu não pretendo ter mais nenhum filho, porém, me agrada poder mudar de ideia, não estava em meus planos uma vasectomia a moda galega. Ok, nem vou sentir dor… “morde logo, pelo menos me deixe vivo!”. O bicho encostou a cabeça na minha perna e ficou. Queria carinho! Fiz. Aliás, não fiz. Só movi a mão e encostei os dedos trêmulos no pé da orelha dele, o medo fez o resto. Ainda tremendo fui movendo um pé, depois outro, saindo, a mão deixando os pelos do bicho lentamente, até eu criar coragem para tirar de vez todos os dedos da pelagem negra. Demorei alguns segundos para completar o primeiro passo, depois outro passo com cuidado, mais um passo lento até me sentir seguro e caminhar normalmente para longe do maior cachorro do mundo. O coração voltou ao normal dois quilômetros adiante. Três; conheci o Rocher, é francês. Eu não sei o nome dele de verdade, então fica Rocher, de Ferrero Rocher. Estava numa capela no primeiro pueblo depois de Gonzar, capela vazia, uma cordinha pendurada. Só prestei atenção nela porque o francês chegou, baixou a mochila, encostou os bastões, pegou a cordinha e puxou com força. O sino na torre badalou alegremente. O francês ofertou a cordinha e pelo gestual era para eu puxar também, puxei. Ele riu como criança quando lhe oferecem tinta para lambuzar as mãos e pintar a cara. “Quelle est votre nation?” claro que sem os parangolês gesticulatícios eu não entendo outro idioma. “Eu não entendo você”. Sempre falo em português com as pessoas. Desde o inicio, lá em St Jean Pied de Port decidi que qualquer inicio de conversa seria no meu bom e velho idioma, no caminho sempre desejo “Bom caminho”, agradeço com o autêntico ”obrigado” e dou “bom dia”, nos bares, tendas, pergunto ao atendente: “você compreende o português do Brasil?”, se o sujeito entender, melhor, se não vamos para os improvisos. Então o Rocher me fez a pergunta mais comum e frequente do caminho: “you from?” até o pessoal da Tailândia entende esse trem! Respondi: “Brasil”... Pronto! O francês disparou a falar. Durante uns quinze minutos parecia o Galvão Bueno discorrendo sobre a apatia da equipe brasileira frente ao dinamismo e superioridade técnica da esquadra alemã em campo. Em francês! O Ferrero Rocher me falando em francês eu só entendi a palavra 'samba’. Interrompi quinze vezes informando “je ne parle français”, até caprichei na pronúncia, nos gesticulatícios, e o francês afrancesando a prosa. Parei e fiquei ouvindo. Ele repetiu ‘samba’ algumas vezes. De repente começou a cantar. De música eu entendo! Foi ele começar a bater palmas e eu bati junto. Ele bateu o pé junto com as palmas, mudou o refrão e aquilo me pareceu catira. Catira é uma tradição mineira que os gaúchos copiaram muito bem. Engatei no improviso e comecei a bater palmas com o Rocher, bati os pés com o Rocher, dancei catira na Espanha! O Rocher se animou, achou que além da dança eu sabia também a letra e deixou o verso seguinte comigo… Rapaz, sou bom nisso! Mexeu as mãos, gesticulou? Entendi tudo. Virei franco-ituramense! Aproveitando que a melodia parecia com aquela do Zeca Baleiro, fui no embalo: “Venha provar meu brunch/ saiba que eu tenho approach/ na hora do rush/ eu ando de ferryboat/ eu tenho savoir-faire/ meu temperamento é light/ minha casa é hi-tech/ toda hora rola um insight/ já fui fã do Jethro Tull/ hoje me amarro no Slash/ minha vida agora é cool/ meu passado é que foi trash”. O francês em êxtase dançando catira na minha frente e eu zecabaleirando a música dele. Se não começasse a chover era capaz que estivéssemos lá até agora… o Rocher se despediu com um abraço sincero, apertado, ainda me beijou o cangote - abusado, tudo isso no idioma francês como se eu estivesse entendendo. Respondi tudo em português, claro, como se ele estivesse entendendo. Foi das melhores prosas que já tive no caminho. Chuva pouca só pra estragar alegria, ainda não fez valer o investimento na capa de chuva. Pode ser culpa do cajado, dancei catira sem ele, mas foi pegar o danado pra correr as nuvens se abriram. Agora estou em Melide, sofri para completar os trinta quilômetros, doeu tudo. Não tem jeito ninguém escapa de dores no caminho. Mas durante a catira não doeu nada! Não comi o polvo do Ezequiel, o que tem de peregrino elogiando, acredito que seja excelente mesmo.





TRIGÉSIMO DIA NO CAMINHO
10/06/2017
Trecho: Melide até Arzúa - 17,5km de distância

Hoje caminhei apenas dezoito quilômetros, de Melide até Arzúa. Amanhã pretendo ir até O Pedrouzo, dezenove quilômetros. Segunda-feira devo chegar em Santiago de Compostela, serão vinte quilômetros de caminhada, mais ou menos cinco horas de bota-bota-bota-bota por dia, tranquilo para quem já caminhou até quarenta quilômetros, num único dia, e ainda precisou voltar quinze quilômetros para se albergar, de táxi! Voltei de táxi, não teria pernas, nem pés, para caminhar de volta. Daí você lê tudo isso e pergunta “ok, cadê a crônica de hoje? isso de quilômetros, paradas, dias e detalhes técnicos posso ler em qualquer site, em livros, folhetos, etc…”. Assumo, isso tudo aí em cima é para encher linguiça, como se diz em Minas. Mas é também para falar de um estranhamento meu com os peregrinos! Já falei aqui que somos uns trezentos caminhantes no mesmo trecho, não falei? Meu bandogado. Em algum lugar deve estar escrito! Essa gente vem se revezando comigo nos trechos, hora estou um ou dois pueblos à frente, hora estou quatro a nove pueblos atrás, depois chega cidade grande e metade do povo fica um dia inteiro descansando, turistando, e eu os alcanço. Enfim, a gente já acostumou a ver as mesmas caras, mesma composição de cores chapéu-mochila-corta-vento-calça e jeitão de andar lá na frente ou lá atrás. A gente se vê nas tendas comprando pão e vinho, nos bares comendo bocadilhos ou tortilhas, cafeterias tomando cola cao, beira de estrada fisiolojando moitas, refúgios de descanso tirando botas, fontes trocando água, igrejas fazendo selfie… sempre os mesmos personagens; Jesus, o mexicano; o italiano que me chamou de irmão; a italiana, que fiz as pazes beijando sua mãozinha gordinha; o russo, que ainda não largou o cajado-galho; o carioca poliglota (me lembre de contar a última com ele); a chilena de olhos incrivelmente azuis; os gaúchos! Todos eles – os gaúchos estão se multiplicando no caminho; o outro mineiro que ainda não falei sobre ele porque ele tem uma coisa, não sei, que só acontece desgraça perto dele… evito; o dinamarquês que torceu o pé e teve que voltar para a aldeia viking; os coreanos solidários - que entupiram os gaúchos de pimenta (também me lembre de contar); os alemães que a cada dia ficam mais batatudos; os panamenhos que sempre gritam coisas ininteligíveis ao me ver (espero que estejam falando coisas boas); o Rocher, de Ferrero Rocher, que sempre via nos trechos, no entanto só recentemente interagimos (tudo tem sua razão de ser). Então, estamos todos convivendo já faz trinta dias, com boas histórias, grandes feitos, imensa fraternidade (apesar de pequenos nacionalismos). E agora na reta final, o caminho encheu de estranhos, alguns muito estranhos, outros tão estranhos que ficam até diferentes! Com tanta cara nova as caras amigas se perdem na multidão. Com tanta cara nova o número de albergues, a cada parada, está multiplicado. Os preços igualmente multiplicados. A economia com o menu peregrino sumiu dos cardápios. Está mais caro peregrinar nos últimos cem quilômetros. E mais frio, impessoal, triste... Em todo o caminho, desde St Jean Pied de Port, existem dois tipos de gente cuidando do peregrino: a gente que faz por amor e a gente que faz por sobrevivência. Quem faz por amor, cuida, afaga, abraça, entende as dores, as saudades, as fragilidades, os medos, as ansiedades, os cansaços e as lágrimas invisíveis do peregrino. E por compreender o complexo universo particular de cada caminhante, essa gente se torna lembrança gostosa, boa de ser levada para casa, recomendada aos amigos e queridos que sonham peregrinar. Já as pessoas que atendem ao peregrino por sobrevivência, estas são esquecidas rapidamente e o peregrino só recorda que em algum albergue, ou bar, ou tenda, em algum pueblo, ou vilarejo, ou cidade, foi tratado com rispidez ou até ignorância. E esquece essa gente antes de recomendar distância para os amigos e queridos que sonham peregrinar. Sim, aumentou a quantidade de peregrino e de lucratividade no caminho... Em compensação a quantidade de carimbos de credenciais a disposição também multiplicou! Toda birosquinha oferece “sello” na credencial. Tem até pedinte com um carimbo nas mãos - solicita um euro para marcar credencial! A paz abandonou o caminho. Os meus irmãos de bota, me parece, estão ansiosos para se livrarem desse assédio e inconscientemente estão acelerando o passo, fazendo quilômetros a mais por dia, só para chegar logo em Santiago! Finalizar o caminho se tornou urgência. A ansiedade existe, claro, mas o objetivo se tornou encerrar o caminho. Achei que o bandogado ia inventar torção de tornozelo, ciático travado, unha encravada, inchaço no mindinho, diarréia, fechamento do brônquios, cisco no olho, qualquer desculpa para ficar mais um dia no caminho… porque, isso aqui parecia ser bom e coisa boa a gente tenta prolongar! Ao invés de lamberem a colher de pau, curtir o finalzinho do doce de leite, a sensação é que estão querendo esvaziar logo o tacho, lavar e pendurar no travessão da cozinha. Eu fico procurando rostos conhecidos nos peregrinos que passam. Encontro poucos. Quando reconheço, aceno, puxo prosa e o sentimento em todos é de despedida, de “amanhã não nos veremos mais”. A grande maioria programou para chegar na catedral de Santiago para a missa de domingo, é amanhã. E ainda me faltam quarenta quilômetros! O finzinho do caminho está mais duro que a subida dos Pirineus. Mas é outro tipo de dureza, uma dureza que faz o povo andar mais, apesar da fadiga acumulada, grande parte do meu povo caminhou forte hoje, esticando o cansaço para faltar somente vinte, dez, cinco quilômetros para amanhã... eu entendo. Só estando aqui para entender. Entendo e não participo, vou sem pressa. Devo chegar para a missa de segunda ou terça feira. Não sei se terei cento e cinquenta rostos conhecidos ao meu lado na catedral, penso que bem menos. Éramos trezentos no bandogado! Desses todos, apenas mais três seguirão adiante, caminhando até Finisterra, justamente outros três que também programaram presença na missa de segunda ou terça. Seremos quatro! De Trezentos!! Mas tem coisa boa acontecendo no trecho. Passando por um desses bosques, sozinho, já que hoje voltei a ser o último a sair do albergue, vi um melro bicando lixo. Melro é tipo um sabiá laranjeira que ficou da cor de um corvo quando Deus resolveu dar cor as aves. Pretinho do bico amarelo ouro, tem muito na Espanha. Daí eu vi de longe, bica, olha onde estou, bica, olha se chequei mais perto, bica, analisa se sou ameaça, bica, acha que dá tempo de mais uma bicada, bica, tô perto demais, bica, avoa. Voou mas ficou no galho mais próximo. Fui ver o lixo que estava bicando. Um saquinho plástico com alguns grãos de milho transformados em petiscos. Peregrino deixou cair ou jogou fora - o que tem de gente porca! O melro via o milho, porém o plástico não permitia que comesse. Tirei os petiscomilhos da embalagem transparente, coloquei em cima do totem com seta amarela - nessa altura do caminho pouca gente tem disposição para juntar pedras e fazer monturo no totens, e conversei com o bicho: "isso aqui vai te fazer mais mal do que bem". Ele torceu a cabeça, de certo tentando achar jeito de discordar. Insisti: "tá cheio de trem melhor pra você encher o papo aí na natureza, isso aqui tem óleo, sódio, outras químicas. Coisa para humanos". Ele mudou de lugar no galho. "Tá bom! A saúde é sua, sou só um peregrino se metendo nos teus assuntos, desculpe". Ajeitei os grãos e afastei meia dúzia de passos. O bicho desceu, bicou um grão, subiu com ele para o galho e ficou me olhando. Aguardei um tempo, olhando o melro e o melro com o milho me olhando. Cansei e dei tchau. Sai. Três passos o melro passa voando e para no galho a minha frente. Milho no bico. Passei por ele já achando estranho. Dei tchau novamente, avisei que se ele marcasse bobeira ia perder os outros grãos lá no totem. Entendeu. Voou para o totem, tomei meu rumo ao mesmo tempo em que outro melro chegou para disputar o milho. Lá na frente olhei para trás e os dois pássaros se fartavam, entre uma bicada e outra olhavam para mim, gorjeando e agitando as asas. Pelo gestual passarídeo creio ter entendido que um dizia ao outro que eu era um tal de Francisco. O outro dizia que isso era lenda contada pelos melros antepassados, imagine se existia mesmo algum humano apaixonado por passarinhos e outros bichinhos? O melro maior, o primeiro, garantia que sim, existia! E apontava pra mim. Segui sorrindo. Saquinho plástico vazio no bolso, até a próxima lixeira, como tem que ser.





TRIGÉSIMO PRIMEIRO DIA NO CAMINHO
11/06/2017
Trecho: Arzúa até O Pedrouzo - 19km de distância

Fernando Pessoa. Sabe aquele gajo dos óclinhos e do montão de apelidos? Português. Cabra bão para encarreirar letrinhas umas nas outras formando palavras, frases, parágrafos, textos da melhor qualidade. Mesmo naipe do Saramago, mesma terra, outro tempo. Fazem falta! Já não se encarreira letrinhas como dantes… então, esses nomes eu nunca esqueço! Fernando Pessoa disse em algum momento, não lembro onde, que um homem razoavelmente inteligente pode mudar de opinião pelo menos vinte vezes ao dia. Eu que não sou convencido das minhas inteligências, creio que posso mudar de ideia pelo menos uma ou duas vezes ao dia. Mudei essa semana. Duas vezes! Depois desmudei uma opinião que tinha mudado, e sendo possível contar essa desmudada, no total foram três opiniões. Bom, isso não importa. Botas é o calçado ideal e correto para percorrer o caminho. Era uma opinião certa, defendida, acatada e posta em prática com sucesso por este que assina o texto. Após quase setecentos quilômetros pisados rumo ao fim da terra, passando antes pela catedral de Santiago, quando eu já me aproximava dos cento e trinta quilômetros finais, a perna das dores resolveu arrumar uma bolha no calcanhar. Dolorida, incômoda, chata, besta! A sola do pé direito já tinha um incômodo ali na frente, onde os dedos começam a existir, cada pisada uma fisgada. Devo ter colocado o passo meio de lado, livrando o pé de sentir dor, e com isso a bota foi mascando o calcanhar e virou esse perrengue. O pé esquerdo, que já era detentor das bolhas por direito de primazia, rogou para si o que lhe cabia nesta caminhada e inflamou a bolha antiga, nasceu outra bolha dentro da bolha, doeu, incomodou, chateou e ficou besta também. Depois disso tornou insustentável acomodar na mesma mente as aflições fornecidas por dois pés! Cada passo um tormento, cada pisada um lamento, cada pedrinha no caminho uma tortura tirando os prazeres da caminhada. O pé assava, latejava, coçava, suava e me subia um calafrio toda vez que eu avistava uma ladeira espanhola, daquelas que só tem pedras para entortar a pisada. No meio de tanto sofrimento, passando por um vilarejo que já esqueci o nome, vejo uma loja de calçados, na vitrine uma papete olhando para mim e piscando, ela de calcanhar aberto, insinuando prazeres e delícias. Entrei, experimentei o tamanho quarenta e três, meus pés sorriram, não descalcei mais. Pendurei as botas na mochila e estou em lua de mel com as papetes, já faz quatro dias! Não falei antes porque estava esperando algum desmerecimento por parte da papete, não teve. Gente, botas é essencial em dias de chuvas e dias pós chuvas, em trechos pedregosos e lamacentos, mas se o chão estiver seco e sem pedras, papete é bom demais. Fernando Pessoa deve ter usado papete. Saramago com certeza! Daí eu venho feliz e saltitante - calçando minhas papetes que não pegam nas bolhas e têm solados macios o suficiente para amenizar as dores na sola do pé direito, um sol para cada peregrino na cocuruta, avisto a máquina de soltar refrigerante por um euro e cinquenta centavos. Foi avistar a máquina e perceber que saltitar é efeito colateral da desidratação. Homem, corintiano, mineiro, filho de Gilberto não saltita feliz se não estiver alucinando! Parei, continuei feliz - felicidade pode!, contei moedas, inseri na boca faminta da engolidora de euros, apertei o botãozinho da FANTA LARANJA, a máquina fez aquele barulho de mastigar moedas conferindo se o sabor corresponde ao valor solicitado, deu umas rosnadas e me liberou a garrafinha de refrigerante. Salivei com os sons de plástico gordo batendo pelos canos da máquina rumo a gavetinha. Placth! A fanta bateu lá embaixo, abaixei, botei a mão, gelaaaada! Um arrepio de satisfação refrescante percorreu a mão, o braço, atravessou o peitoral direito e foi bater lá no coração. Tirei meu refrigerante da escuridão e trouxe para luz… a fanta era coca! Gente, eu não gosto de coca-cola! Eu odeio o sabor de coca-cola! Eu poderia destruir todas coca-colas! Máquina maldita! Confiei no processo automático e fui covardemente traído. O sol lambeu meu boné legionário, lambeu o gelo do refrigerante, lambeu meu coração. Inconformado! Sentimento de ódio. A minha raiva cuspiu no sol, cuspiu no frescor que a coca-cola ofertava, na máquina imbecil, cuspiu no sujeito que abasteceu a máquina, na papete… não, na papete não. Eu fiquei possesso! Desde que me lembro ser gente só bebo guaraná e fanta, na falta desses bebo água, suco, leite, toddynho. No caso estava num local ermo, calor saarico, desidratado, com uma coca-cola geladíssima e um impasse: bebo esse trem pelo bem da minha integridade ou volto a saltitar? Abri, dei um gole. Delícia! Dois goles. Que sensação de alívio! Três goles. Até que Coca-Cola não é tão ruim. Quarto gole. Que eca, esse trem é ruim sim… depois da sede aplacada, um pouco de glicose e sódio no sistema e o maquinário interno refrigerado, voltei ao normal e o paladar reconheceu a velha e insidiosa coca-cola. Metade da garrafinha na mão, pensei em tacar no mato, fiquei com dó do mato, olhei lá atrás, no começo da curva, um peregrino. Pelo jeitão de andar e as cores da fórmula um do conjunto capacete-camiseta, era o carioca poliglota. Esperei e ofereci: “mano, bebe essa coca, tá geladissima”. “cara, odeio coca-cola, se fosse fanta…”. “É refrescante, você precisa se hidratar”. “Ok, oferecendo assim, com tanto carinho fica difícil recusar”. Bebeu. Fez cara de prazer. Outro gole. Cara de satisfação. Mais um gole. Cara de carioca. No quarto gole o poliglota já torceu o nariz e concordamos que coca cola é ruim, eliminamos o restante nas pedras, para não ter que carregar peso, prendi a embalagem vazia na mochila e antes de seguir na caminhada pensei em voltar uns cem metros, chutar a máquina, socar, cuspir salivacoca, qualquer agressão que fosse. “É só uma máquina” pensei. Peguei o rumo de O Pedrouzo. Cá estou! Albergado, hidratado, feliz sem saltitar. Entre desgostar que já era opinião formada, gostar de papete e de coca cola e voltar a desgostar de coca, mudei de opinião três vezes, não disse? Razoavelmente inteligente. Amanhã entrarei em Santiago de Compostela!





TRIGÉSIMO SEGUNDO DIA NO CAMINHO
12/06/2017
Trecho: O Pedrouzo até Santiago de Compostela - 20km de distância

Estou em Santiago. Preciso dizer uns trem... Amanhã! Hoje eu preciso dormir, em onze minutos hoje vira amanhã. Só um recadinho, durante toda peregrinação enrolei para sair dos albergues todos os dias pela manhã. Caminhei onze quilômetros num dia, dezessete num outro, quarenta... Na média fiz vinte e três quilômetros por dia, mas é possível caminhar trinta quilômetros diariamente sem se matar. Completei o caminho em trinta e dois dias de peregrinação. Boa noite.





TRIGÉSIMO TERCEIRO DIA NO CAMINHO
13/06/2017
Descanso em Santiago de Compostela

Hoje já é amanhã de ontem! Então, dia doze de junho de dois mil e dezessete, aproximadamente às dezessete horas entrei na Praça do Obradoiro, em frente a catedral de Santiago de Compostela. Não senti nenhuma emoção extraordinária. Talvez uma satisfação, ou um misto de realização pessoal com curiosidade sobre o sentimento das pessoas a minha volta, não sei, preciso pensar. Talvez eu esteja deslocado, como qualquer outro peregrino que chegou e se deu conta que o caminho físico acabou. Bora falar de ontem! Ontem meu dia de peregrino começou normal; acordei tarde, fui o último a sair do albergue (me lembre de ensinar um macete), romaria de gente no trecho, mambembes com pele queimada do sol, mochilas opacas, botas esgarçadas, rostos cansados se misturando de forma homogênea com a turma do tênis limpinho, mochilinha compacta, barba feita, maquiagem em ordem... não existe disputa entre quem começou em St Jean Pied de Port, em Navarra, em Castella ou Galícia. Aqui a maioria nem tem facebook para discutir se merece mais ou menos, se é raiz porque caminha há dias ou nutella porque iniciou anteontem, são todos peregrinos, corações abertos, dores, sorriso fácil, suores, interação sincera. Somos todos peregrinos, não somos categorias estabelecidas nas redes sociais. Caminhei de O Pedrouzo até o Monte do Gozo sem intervalo, são quatorze quilômetros e meio de papete-papete-papete-papete… antes era bota-bota-bota-bota, lembra? Tá mais gostoso! O caminho também é gostoso, apesar do tanto de gente assustando os passarinhos, arrancando flor, tumultuando a selfie. O trecho tem vários bosques e no meio de um deles, de repente, um estrondo de turbina que a gente fica sem saber onquitá, pronquivai, quifazê. Assuste não, é o aeroporto que serve a cidade de Santiago de Compostela! É bem na metade do trecho, mas peregrino não vê avião subir ou descer, só escuta o ronco dos bichos. Andando mais uns quilômetros, cheguei ao Monte do Gozo, tem esse nome propício a piadinhas, mas é coisa séria nas considerações católicas. Num tempo distante, sem GPS, sem telefone, sem carros, sem roupas dry fit, sem sleepbag-menos-cinco-graus, sem botas goretek, sem selfie, sem setas amarelas, era do alto desse monte que se avistava as torres da catedral. Após muitos dias de penúria essa visão era motivo de alegria por chegar… ainda tinha a volta para casa, sem trem, sem ônibus, sem avião, mas deixemos o peregrino de antigamente regozijar sua chegada e esse regozijo se tornar o nome do monte, foco! Vi muitos peregrinos passando direto pela capela, no máximo tirando selfies com o monumento do papa, depois voltando para a trilha sem perceber o monumento ao peregrino! Duzentos metros a esquerda da capela, vale muito a pena caminhar para ficar uns minutos, umas horas, meditando ao lado das estátuas que gozam a felicidade da chegada. Cogitei ficar no albergue do monte, são quatrocentos leitos, tinha vaga, sobrava vaga, é vaga demais! Enquanto decidia se dormia por lá ou se iria gastar papete no caminho, deitei e fiquei de bobeira na grama - uma sombra generosa ao lado da capela, acabei adormecendo. Acordei com o sol fritando minhas canelas, levantei, papeteei os pés, bebi uma fanta laranja no quiosque, carimbei a credencial, comecei a caminhar e cheguei em Santiago de Compostela. Simples assim! Não fiquei zanzando pela cidade. Lá em O Pedrouzo meu amigo, o italiano descasado (depois explico), fez reserva no albergue ao lado da catedral, três literas, uma para mim. Nos perdemos no trecho (dormi no monte), mas eu tinha o endereço, cheguei e alberguei. A partir desse parágrafo, vou parecer amargo, desculpe, você pode interromper a leitura que não ficarei chateado, aliás, aviso que tem 'spoilers' no meu texto. Em Santiago de Compostela os preços de albergue triplicam sobre a média do caminho, não há o que fazer! Demanda. Sem pressa tomei banho, lavei roupas, fui comer. Encontrei brasileiros, gringos, muitos rostos conhecidos pelo caminho, todos já se despojaram do peregrino, assim como eu. Somos turistas cumprindo os últimos rituais de uma peregrinação moderna. Incentivado por brasileiros eu visitei a catedral bem antes da missa. Abracei o Santiago, por trás, rapidinho que a fila é grande, visitei o túmulo do apóstolo, rapidinho que a fila é grande, depois deixei os brasileiros amigos e fui procurar o rumo de Finisterra, sem querer achei a oficina de peregrinos e outros brasileiros. Fila de meia dezena de ex-peregrinos solicitando compostelana, é gratuita, pedi também. Comprei tubo de transporte para compostelana na mochila, comprei umas lembrancinhas, voltei a catedral por vontade própria e assisti a missa das dezenove horas e trinta minutos. Igreja cheia para uma segunda-feira à noite sem botafumeiro. Os turistas sentados. Os peregrinos sentados, escorados, em pé, desmaiando. Jantei no Manolo, único local perto da catedral que ainda oferecem menu peregrino a preço módico, aqui sem vinho, no menu ao longo do caminho tem vinho. Após comer fui dormir. Como deu para perceber, foi um dia corrido, porém sem graça… Santiago é uma cidade para turistas, as acolhidas calorosas de hospitaleiros não existe aqui, a cidade não é para peregrinos. Em Santiago de Compostela o peregrino deixa de pertencer ao caminho e vira consumidor. Desculpe, mas a cidade é fria. Hoje, dia treze de junho amanheceu chuvoso, coisa pouca, chuva de molhar bobo. Não sou mais peregrino, posso acordar cedo que não tenho obrigação de caminhar. Posso andar sem rumo, posso sentar no café sem mochila para vigiar, não preciso calçar botas, nem papetes, posso ficar de chinelos o dia todo, olhando o mundo sem suar, sem pisar a sola do pé direito. Santiago de Compostela mesmo em dia chuvoso está repleta de gente, peregrinos chegam, anseiam pela catedral, sorriem, ainda não se decepcionaram. Vão perceber em breve que algo já mudou, algumas pessoas que estavam de coração aberto no caminho tornaram a chavear o acesso, são as roupas de cidade. Um ou outro ainda sorri, acena, fica feliz por saber que seu igual também chegou bem no fim do caminho. A maioria de anteontem está embarcando de volta ao local de origem. Os de ontem lotam excursões a Muxia/Finisterra de van, várias, vans saindo praticamente em comboio. Voltam no fim do dia. Pessoas andam por andar, por costume, fotografam prédios que já admiraram anteontem e ontem. Eu estou parado, observando rostos que conheci faz muito tempo, rostos que estão voltando ao mundinho onde não cabem coleguinhas de sonho, de caminho, de dores, de cansaço e de pedras. Se um rosto amigo ainda sorri, três outros já disfarçam, olham para a torre, caminham rumo contrário e se vão, somem nas esquinas. A cidade é cara! Fria. Mesmo assim é bonita. Linda! Tudo gira em torno da catedral, principalmente o ex-peregrino que ainda não sabe bem o que fazer se não existe mais caminho para pisar. Falando no macete, aquele que falei ali em cima; saída do albergue. Se a grana estiver muito curta, seja último a sair e tenha café da manhã completo e gratuito. Peregrino prevenido compra leite, queijos, pães, geleias, etc, etc, depois o comprador não consegue comer tudo e não está disposto a carregar peso na mochila. Faz o que? Deixa na geladeira do albergue, na parte dos “alimentos free” e vai embora. Entendeu? O último a sair toma farto café da manhã gratuito! Uma fartura. Ahá… Beto Muniz saia sempre mais tarde para atacar geladeiras! Bem que eu queria… aprendi só ontem. Tantos macetes a gente aprende na última semana! Reservar albergue, tem macete; no aplicativo diz quando o albergue foi inaugurado, o macete é escolher somente os albergues mais recentes. Albergues inaugurados de dois mil e dezesseis pra cá. Caco velho não vai rolar. Alerta: tem peregrino que ainda não sabe, mas saco-de-dormir é imprescindível. Tem albergue que não fornece nem mesmo a forração para colchão, outros oferecem a ‘sabana’ que dá um suador na gente! Saco-de-dormir é a solução, invista num saco de dormir bom, espaçoso e adequado ao clima no período de sua peregrinação! IMPORTANTE: existe saco de dormir para verão, para outono, para inverno, para inverno extremo, para o pólo norte… cuidado para não comprar a versão polo norte se tua caminhada esta programada para o verão europeu. Outra coisa importante; albergue é uma casa, ou galpão, ou pavilhão, ou qualquer lugar com teto e paredes destinado a abrigar peregrino. Pode dispor de uma até setenta beliches em disposição aleatória e nestes beliches dormem homens e mulheres, sem distinção de raça, credo, origem, estado civil ou posição social. Homens e mulheres roncam! Albergue tem banheiros de uso misto, duchas de uso misto, tudo é misturado, privacidade zero. Não se deixe enganar. Peregrinação não é turismo pela Europa, a situação é precária, porém suportável. Vez ou outra as instalações do albergue, a estrutura, é agradavelmente surpreendente! Mas o oposto também é real. Teve gente que se decepcionou e abandonou a caminhada do início, por conta do susto com a realidade nos albergues. Papete, delícia caminhar de papete, procure comprar modelo com a frente fechada, evita pedrinhas entrando debaixo do pé e protege o dedão em casos de tropeços. Você vai tropeçar, fato futuro! Outra coisa, a cidade de Santiago de Compostela é charmosa, cada edificação um albergue, bar, restaurante, lojinha de souvenir… eu não ligo se Santiago de Compostela é uma cidade que prioriza turistas. Mas me incomoda que em Santiago de Compostela o peregrino não tem vez, nem na missa do peregrino. Catedral tomada de turistas! Turismo torna o comer, o beber, o dormir, o confraternizar em item caro para o padrão peregrino. Amanhã vou tentar me emocionar novamente, restabelecer minha alegria original, vou a Muxia e depois Finisterra, vou caminhando. Amanhã! Hoje estou de férias. Lembrando que o sentimento de chegar em Santiago de Compostela, como peregrino ou turista, é individual. Não existe primeira impressão certa ou errada, nem resposta sentimental adequada ou inadequada. Seja sozinho ou acompanhado, chegar é emoção intransferível. A minha relação com a cidade é só minha e estamos felizes um com o outro.





TRIGÉSIMO QUARTO DIA NO CAMINHO
14/06/2017
Trecho: Santiago de Compostela até Negreira - 26,2km de distância

Ontem eu turistei por Santiago de Compostela, como qualquer mortal comum, afinal sou mortal e comum, visitei becos, mercados, igrejas, vielas, capelas, ruazinhas, bares, outras igrejas… é assim, a cidade tem muitas atrações! Mas no centro histórico, no entorno da catedral, não existe um padrão geométrico para determinar tamanho, largura, rumo ou utilidade para as ruas. A gente desce uma escada e lá embaixo ela vira três ruazinhas, cada ruazinha passa em frente a uma igreja, ou capela, e nas pracinhas das igrejas também desembocam duas outras ruas, ou outra escadaria, que lá em cima passaram também em frente outra igreja, ou cruzaram uma avenida que passou em frente a uma igreja. O certo é que todas as escadarias e ruazinhas desembocam de pracinhas que tem uma igreja, uma torre com sino e ao lado da torre um monte de mesas e cadeiras de um bar. A cidade é isso! Tem um bar para cada peregrino, uma igreja para cada turista e um albergue para cada gosto. Porque tem gente que gosta de albergue em cima da muvuca, tem gente que não gosta, mas não abre mão de ficar ao lado da catedral. Tem gente que fica longe de tudo, do burburinho, da muvuca, da catedral, do centro histórico. E tem gente que se pudesse estendia o saco de dormir na Praça do Obradoiro e dormia ali. Eu dei sorte, fiquei dois dias num albergue a menos de duzentos metros da catedral, a menos de duzentos metros do Manolo, a menos de duzentos metros de tudo que um peregrino - em retiro da função, precisa para sobreviver! Ah, e também eu tinha código para abrir a porta, chique! Funciona assim; ao longo do caminho o peregrino chega no albergue e pergunta a senha do wi-fi; se tem água quente no chuveiro; se tem cama embaixo na litera; a hora que fecha a porta; que horas tem que sair pela manhã; se serve menu peregrino; e por último pergunta o preço da diária. Às vezes muda a ordem… no entanto, seja qual for a sequencia das perguntas, a hora que a porta fecha é tão importante e necessário quanto a propriedade e posse do saco de dormir. Depois do horário estabelecido pelo albergue, ninguém mais entra, a porta trava, os hospitaleiros vão embora (sim, o albergue funciona no automático após o horário de fechamento), e depois que a porta trava, peregrino só sai! Se o albergado ficar para fora, azar! O horário é cumprido e quem está dentro já dormiu, não adianta esperar, gritar, bater… Uma certeza, peregrino dentro do albergue após travamento da porta está dormindo! Peregrino dorme, come e anda, nos intervalos lava roupa e/ou cuida de bolhas. Se ficar para fora após o horário e fizer escândalo, está errado! E aqui quando o sujeito está errado ele está errado, ponto! Não tem jeitinho brasileiro que dê jeito, capaz de vir até polícia! Então não perca a hora de voltar para o albergue, a menos que a porta tenha código de acesso. A minha porta nestes dois dias, tinha senha! A maior alegria do peregrino é senha de wi-fi, a segunda maior alegria é código da porta do albergue. Se não tiver dor ou bolha é melhor, mas o peregrino troca a senha de wi-fi por mais uma bolha fácil. De que adianta não ter bolha se não tem wi-fi? Você que ainda não fez o caminho vai concordar comigo nessas coisas! Então, ontem turistei, falei? Turistei todo apaixonado pela cidade de Santiago de Compostela. Turistei apaixonado pelos pratos do menu peregrino no Manolo. Almocei e jantei os dois dias, sem repetir pratos, e devo ter recuperado uns quatro quilos. Em cada refeição eu estava acompanhado de brasileiros diferentes. Conheci muitos e bons brazucas, de todo canto do país, alguns de fora do Brasil. Ontem no jantar éramos sete brazucas heróicos que caminharam de St Jean Pied de Port a Santiago, lá na outra mesa uns dezoito batatudos também confraternizando a chegada em Santiago… oi? Quem são os batatudos? Uai… Alemães! Homens e mulheres, comportados, nenhum de bermudas, nem nós porque estava frio. Na mesa de cá e de lá brindes com vinho, muita comida e muita alegria, de repente duas moças de lá olham para mim, olhares e risinhos. Achei que eu estava com comida na barba. Passei guardanapo no bigode, fiz a tela do celular de espelho, tudo limpo, mas eu continuava chamando a atenção das alemoas. Mais olhares, mais risinhos e uma delas fez tchauzinho tímido. Olhei atrás de mim, parede. Era comigo! Fiquei vermelho, sou tímido. A moça se esticou e perguntou: “Beto Muniz?”. Fiquei roxo! “Pronto, até as alemoas estão me reconhecendo!” A nossa mesa tinha acabado de comentar sobre minhas crônicas do caminho de Santiago, o casal de Curitiba cobrou que haviam me reconhecido em Hospital de Órbigo, mas foram discretos, apenas esboçaram uma pergunta sobre se eu era o escritor do caminho, mas eu estava entretido com bandeirolas e a questão se perdeu. Confessei que deixei a questão se perder de propósito, coisa de tímido. Não sou exibido, de encher o peito e pedir afagos no ego, até porque escrever é uma brincadeira prazerosa, porém coisa pouca, não merece grande destaque. A jornalista também reclamou que caminhou uns três dias no mesmo passo e albergues que eu antes de se ligar que Adalberto e Beto eram a mesma figura. Estávamos rindo desses eventos, comentando textos, brincando sobre famas, livros e autógrafos e vêm as alemoas perguntando se eu sou eu? Deu convencimento! “Já traduziram minhas crônicas para o idioma germânico!”. De pensar essa besteira e potencializar minha ilusão foi um milésimo de segundo. “Serei o novo Paulo Coelho. Se tem gente traduzindo meus textos é capaz que fizeram versão inglesa, francesa, italiana, russa, mandarim… como é o idioma dos coreanos? já tocaram linha de produção na tradução!” As duas alemoas esperando minha resposta e eu viajando: “caramba, como será que traduziram meus neologismos? será que o tradutor manteve a intenção? se eu não gostar já vou demitir! povo se mete a mudar sem consultar o autor, vou meter processo!”... A moça insistiu na pergunta, pra mim ela falava no idioma alemão, no entanto se eu entendia a pergunta foi simplesmente porque ela falou em português: “você não é o Beto Muniz?”. Sim, sou. Respondi e descobri que as duas eram brasileiríssimas, estavam com os alemães porque nossa gente não é de guardar mágoa futebolística. Uma veio me dar um abraço e explicou que me reconheceu das fotos no Instagram. As duas fazem parte do grupo Caminho de Santiago de Compostela (www.facebook.com/groups/144804788956840), estão adicionadas ao meu facebook e, inclusive, já trocamos mensagem. Eita! Não é dessa vez que vou demitir o tradutor… No final dessa história cada qual se entreteve com sua respectiva mesa. Os alemães saíram, elas foram com o grupo, logo mais os brazucas heroicos foram descansar e eu continuei turistando pela cidade. Fui ver a sombra na catedral, a Alma do Peregrino (tá no Instagram). Fotografei a catedral a noite, ouvi música local na Praça do Obradoiro, desci escadarias, subi ruazinhas e quando cansei de passar frio dei tchau para todos os santos estatuados nas igrejas e capelas, boa noite aos pecadores que cruzaram meu caminho e fui para o albergue. Era quase meia noite, digitei o código e a porta abriu, coisa chique! Hoje acordei no horário padrão e peguei o rumo de Finisterra, antes passei pela praça do Obradoiro, mais brasileiros chegando. Fui lá dar um abraço, pegar a bandeira do Brasil emprestada para uma foto. Encontrar gente da terra da gente é bom demais. O peregrino da bandeira é mineiro, gente feliz! O caminho para Finisterra é muito tranquilo, vazio de gente. Neste primeiro trecho - estou em Negreiros, uns vinte e poucos quilômetros de Santiago e uns setenta quilômetros de Muxia, tem boas subidas e descidas, mas as pernas e o pulmão já tiram de letra. Os bosques e pontes construídas na antiguidade sobre rios transparentes voltaram ao cenário. Parece até que estou lá no começo, em Navarra, quando tudo era novidade no caminho. Se neste trecho tem bem menos gente caminhando, também tem pássaros que ninguém espanta, tem flores diferentes, tem salamandras na única bica de água natural, tem trilhas que parecem seculares e moradores com pouco contato com peregrinos. Os moradores param para conversar, desejam bom caminho, sorriem e acenam ao me ver passar. É uma parte do caminho que ainda não estressou, não monetarizou, não corrompeu pelos excessos, de peregrinos e de comércios. Em vinte e poucos quilômetros, quase trinta, apenas dois lugares vendendo água, bocadilho, zumo, tortilha e etc. Se meia dúzia de peregrinos se revezam no trecho, em outros caminhos, asfaltados, que buscam o mesmo destino que eu inumeros turistas lotam vans. Os peregrinos com menos tempo ou disposição, agora turisteiam utilizando as vans… se soubessem o que estão perdendo! Penso agora, já albergado, fazendo inventário do dia: “enfim um trecho do caminho que é mais mágico que o peregrino”.





TRIGÉSIMO QUINTO DIA NO CAMINHO
15/06/2017
Trecho: Negreira até Olveiroa - 30,5km de distância

Estou em Olveiroa, distante de Muxia uns trinta quilômetros. Amanhã vou até Muxia e no sábado vou a Finisterra, daí acaba minha jornada. Negreira, a cidade onde alberguei de ontem para hoje, é grande. Não depende de peregrino, deve ser por isso que o albergue municipal é pequeno, afastado, fica a dois/três quilômetros longe do centro, já na saída da cidade. O peregrino anda tudo isso, descobre que não tem vaga e precisa voltar tudo, subidão, até o centro onde tem dois albergues privados. Preço de albergue em Santiago de Compostela, sem cozinha! Não consegui cozinhar ovos nem gelar o suco de laranja em conserva, descobri só após voltar do mercado. Chato isso! Saí cedo, por volta das sete da manhã, peguei o rumo de Muxia e dei trabalho para a papete. O trecho até Olveiroa não tem retas, ou é subida ou é descida! A trilha corta bosques similares a nossa mata atlântica, tem muita samambaia rasteira entre árvores de copas altas. Poucos povoados, nenhum deles depende de peregrinação, diferente da maioria dos pueblos no caminho francês. Se até Santiago de Compostela a maioria dos vilarejos e pueblos não tem morador, mas em todos funcionam pelo menos um bar e/ou um albergue, aqui encontrei pueblos com moradores, porém sem bar, sem albergue e sem tenda, apenas casas residenciais e galpões de vacas confinadas. Vacas sem o badalo no pescoço – descobri que este sino é chamado de “cincerro”. O agricultor da região planta milho, cada quintal um hôreo… conhece não? Vou postar foto no Instagram. Hôreo um celeiro de pedras, suspenso sobre uma espécie de palafita, para manter as espigas de milhos longe de umidade e roedores. Estava chegando num pueblo quando a vaca saiu do galpão, fugia, sem pressa, uma vaca saindo ‘à francesa’... Na Espanha! Coisas de globalização. Esses eventos excêntricos só acontecem quando estou sozinho, sem testemunhas. Ao lado do galpão-curral a plantação de milho recém-brotado, cada pé de milho uns quarenta a cinquenta centímetros de verde suculento, a vaca abocanhou o pé de milho e devorou numa única tragada. Ficou apenas a raiz, arrancada do solo e descartada depois de forte mordida no talo. Sabe quando a gente pega uma tulipa de frango, cozida, desmanchando, segura na ponta do ossinho, enfia a tulipa inteira na boca, puxa e sai somente o ossinho? Tulipa é da asa do frango... conhece não? Foi mais ou menos assim que a vaca devorou o pé de milho, e depois devorou mais um, sem pressa, sem culpa, sem o afobamento de uma vaca em fuga, e devorou o terceiro pé de milho. Era uma máquina de devastar lavoura. O dono, da vaca e do milharal, saiu do galpão, igualmente sua vaca ele também sem pressa, sem desespero, apenas ciente de sua função foi até a vaca - que devorou o quarto pé de milho, e tocou na anca dela com o bastão de madeira, tipo meu cajado. Não bateu, não puniu, não agrediu, apenas tocou no costado da criação como quem diz: “acabou”. E fim. A vaca nem tentou devorar o quinto pé de milho, voltou para o confinamento, o dono atrás, bastão no ombro, olhando as ancas bem fornidas da vaca que ruminava milho enquanto ia para junto de suas irmãs. A vaca se acomodou diante do feno e a porteira foi cerrada. Eu segui meu caminho maravilhado com a relação calma do homem com o seu gado, sua lavoura, sua vida. Logo à frente a estradinha bifurcava em três, uma trilha descia, outra seguia reta e a terceira subia e se transformava numa pedreira… a seta amarela mandava seguir a terceira trilha, claro! Se o caminho do peregrino fosse uma prova de múltiplas escolhas, as opções apresentadas seriam sempre uma trilha cascalhada em linha reta; uma estradinha asfaltada que sobe; e uma trilha pedregosa de descida íngreme... A resposta correta, nem precisaria de setas amarelas, seria a ladeira cheia de pedras. Aonde tem pedras é o caminho a ser percorrido! Nesta etapa, trigésimo quarto dia de caminhada, quando pernas e pulmões já estão habituados a devorar quilômetros como a vaca devora um pé de milho, a gente aceita todas as bifurcações sem pestanejar. É pra subir? A gente sobe! Descer? Pode jogar água nessas pedras que lama não atrapalha! Reta? Não, não tem retas nesse trecho. Aliás, têm umas quatro carinhas conhecidas indo a Finisterra! Dos trezentos rostos que peregrinaram eventualmente comigo rumo a Santiago de Compostela, hoje pela manhã reconheci uns quatro. Tem a americana do joelho estropiado, que pelo jeito já curou; tem o chinês com dupla cargueira; tem a escandinava magricela que viajava com uma amiga e o cachorro, a amiga era maior que eu, gigante, a mochila também gigante, mentalmente apelidei de Hodor... parecia! Juro!! Tem a jornalista que, assim como Bispo do Rosário e os beija-flores, está sempre a um palmo do chão. E tem uns alemães, novos, jovens, andam bem, não são tão batatudos, mas já invoquei, peguei cisma e faço questão de andar na mesma toada deles. Batemos o pé na soleira do albergue quase ao mesmo tempo, eles ganharam por pouco, mas é que eu parei e aproveitei uma água boa de botar os pés. Lembrou muito o córguinho lá de Minas Gerais, areia pouco mais grossa, água pouco mais gelada, resto igualzinho! Deu saudade da infância. Saudade da casa no sítio. Saudade de uma vida que ficou no passado, que o tempo transformou em lembranças!! O tempo na vida da gente é como uma vaca devorando o pé de milho... A vaca foi um evento marcante, fazer o que? Deus me presenteia com essas coisas simples que se encaixam e me impressionam. Estou albergado, alimentado, roupas no varal expostas ao ventinho constante que, penso, vem do litoral. Pode ser só imaginação, mas tem cheiro de mar no vento.





TRIGÉSIMO SEXTO DIA NO CAMINHO
16/06/2017
Trecho: Olveiroa até Muxia - 29,5km de distância

Estou em Muxia, de frente para o mar esperando o sol se por. A minha esquerda o monumento a virgem da barca, a direita um velho farol, desativado. O céu começa a ficar vermelho no horizonte e o mar vem quebrar a poucos metros de meus pés. Ondas verdes roncam sua fúria sobre as pedras impassíveis e tanto furor diante da calma eterna se transformam em espumas brancas. Faz frio. O vento é constante e atravessa as duas malhas que me vestem. Sinto frio, mesmo assim não arredo pé. Meus pés agora exibem três bolhas, a sola do pé direito dói quando piso, dor suportável e incômoda, me faz mancar levemente. Estou cansado da jornada, não só a de hoje, a de todos os dias, desde St Jean Pied de Port, desde que pisei o primeiro centímetro do Caminho de Santiago de Compostela. Meu cansaço diz que subir os Pirineus foi desnecessário, neste estado de ânimo não recomendoAtravessar as mesetas é desnecessário, não recomendo. Se alguém me perguntar agora qual caminho fazer, sem pestanejar vou indicar: faça somente o trecho para merecer a compostelana e siga para Muxia-Finisterra. Nessa ordem. O restante do caminho é possível fazer turismo. Faça! Se posso recomendar, faça qualquer caminho, depois venha caminhar até o fim da terra, conhecer estes bosques, de subidas e descidas termináveis. Pirineus é interminável. Deixa marca por dias, dores por semanas, estragos duráveis. Meu cansaço vai passar, essa fadiga que deixa o mau humor a flor da pele vai sumir. Em breve vou recomendar cada minuto no caminho, cada passo desde St Jean Pied de Port. O peregrino não precisa estar sempre empolgado com o caminho, feliz com a caminhada. As emoções devem ser sinceras, neste momento o sol está minúsculo no horizonte. É uma bola dourada, ovalada, numa fita vermelha acima do oceano. Todo o oceano. Tão fácil acreditar que o mundo é plano, a terra é achatada e as águas terminam despenca do no universo vazio. Fico com pena do homem medieval, de cima dessa pedra que me encontro ele contempla essas mesmas águas acreditando que Galileu é um herege. Ele imagina os monstros além do horizonte, imagina os abismos do fim do mundo, imagina que a pedra que o sustenta é realmente o fim da terra… mais trinta quilômetros e estarei no fim do mundo. Ontem e hoje dividi quarto de albergue com três portugueses. São divertidos, cada qual em sua característica, mas igualmente agradáveis companhias. Mar e céu estão se fundindo, na linha do horizonte não se distingue o que é água e o que é céu. Não é mais questão de cor, é questão de escuridão. Ao lado do monumento a virgem da barca um caminho de pedras leva ao cume do morro, a vista é trezentos e oitenta graus, com direito a mais trezentos e quarenta graus. Plantam uma cruz lá no topo. Aos pés do morro que sustenta essa cruz, Muxia vive. Plena. Repleta de gaivotas. O frio me obriga a sair. Eu me demorei, entre observar, fotografar e escrever. Enquanto tudo acontecia um cão todo branco sentou a minha direita, ele se confunde com o farol. Escureceu. Faço uma fotografia do cão, ele me percebe, não sinto medo, não tenho medo, não tenho nada de medo. Acho linda a composição, mesmo faltando luz! Vou publicar… internet somente no albergue. Antes de descer dessa pedra, penso que aqui é um bom lugar para deixar a pedra que peguei por herança. Meu pai teria sido feliz conhecendo Muxia. O cão todo branco se afasta, eu vou pelo mesmo caminho. Frio. Vento constante. Escureceu de vez!





TRIGÉSIMO SÉTIMO DIA NO CAMINHO
17/06/2017
Trecho: Muxia até Lires - 16km de distância

Se as últimas crônicas estão com um pé na melancolia, é por conta da ocasião. Eu escrevo primeiramente para você que não fez o caminho saber, mais ou menos, como será quando vier peregrinar. Segundamente escrevo para quem já veio relembrar ou comparar com as lembranças que estão na parede da memória. Terceiramente escrevo para depois conferir o que eu posso me gabar… é, não escrevi os fatos que não poderei me gabar! Exemplo, não posso me gabar da noite que fiquei trancado pra fora do albergue. Isso não é coisa que se gabe, né? Então não escrevi! Mas alertei que albergue tem hora pra travar a porta! Fique atento! E a melancolia? Uai... é a percepção de que eu só vim para me gabar, sem nenhuma outra questão, porém, e definitivamente, não sou mais a pessoa que saiu de St Jean Pied de Port dia doze de maio. Mudei bastante! A pele do rosto está queimada, a barba repleta de pelos grisalhos cobre metade da minha identidade visual. Meus pés estão estourados, bolhas, dores, lesões. Tenho panturrilhas definidas, coxas com musculatura saliente, glúteos rijos. Cabelos disfarçando a careca… não, não está disfarçando, tá esquisito, cabelos não me pertencem mais. A primeira mudança pessoal envolveu fé. Eu estava meio de bico com Deus, não estou mais. Foi quando eu comecei a caminhada lá no longínquo San Jean Pied Du Port. A perna direita travou nos primeiros quilômetros do Pirineus, não conseguia trocar o passo, paralisou enrigecendo os músculos dianteiros da coxa. Eu temi, eu assustei, eu parei, sentei na beira do caminho, coloquei a mão sobre a coxa e orei: “Deus, pelo amor de Seu Filho, não deixe minhas pernas falharem”. Consegui terminar a subida, a descida, alberguei e continuei no dia seguinte, as pernas nunca falharam! No entanto, a maratonista de Brasília, o primeiro casal mineiro, a arquiteta também de Brasília, as pessoas que estavam na mesma toada da primeira semana, sabem que eu não levantava a perna nem cinco centímetros acima do piso. Minhas pernas não falharam, porém não estavam em plena função. Precisei logo de cara trabalhar a fé e continuar cultivando o bom humor, se não iria me gabar do que? Né? Sim, o primeiro casal mineiro! Esses dois foram as pessoas que mais convivi ao longo do caminho, poucos dias não andamos, não comemos, não dormimos ou não nos encontramos. Estavam em Pamplona quando desci do trem, barbeado, rechonchudo, até lustrando de bonito, mas a mochila me denunciava e a mulher me abordou “usted és peregrino? Acaso vás a San Jean? Se si, puede dividir coche com nosotros, jô y mi maridón?”. Pelo portunhol e gestual saquei que eram tais quais igual que eu, mineirinhos. “Eu sou brasileiro, pode falar português que vou entender”. Rimos, ficamos amigos ali, na hora, e já me levaram a comprar chip de celular, almoçar, rodoviária, ônibus a St Jean Pied de Port, estavam em Pamplona desde o dia anterior, sabiam tudo! Não conseguimos mais peregrinos para rachar o táxi, descemos de ônibus e já na França ela, mais que ele e eu, desenrolou na oficina de peregrinos, no primeiro albergue, na madrugada rumo aos Pirineus… Na missa do Peregrino em Santiago estávamos lado a lado na catedral. Nunca falei deles antes, não foi? O que é de melhor a gente guarda, só revela no final. A maratonista de Brasília fechou o quarteto. Conhecemos no primeiro albergue, na França. Deu liga. Fala, fala, fala, fala, fala… ela é dessas pessoas que falam sorrindo e emenda uma história na outra, as vezes nem emenda, só começa a narrar um fato e antes do fim o assunto perde a importância porque acabou lembrando outra história, então conta a outra. Tem três filhos, aposentada, corre tranquilamente quarenta e dois quilômetros, no caminho andava no passo do amigo recém conquistado que malemá tirava o pé do chão. Depois que curei a dor ela disparava, só mandava whatts de onde estava albergada. O quarteto dividia ovo cozido, pão com jamón, suco de laranja, jantar comunitário, garrafa de vinho, sol, subidão de cascalho, ladeiras pedregosa, compras no mercado, visitas a Decathlon, micos, gorilas, kingkongs. Na missa do Peregrino, com direito a Botafumeiro balangando, os quatro mosquiteiros, sim mosquiteiros, agradecendo a Deus pela proteção na jornada. Se a gente não escolhe parente, peregrino para amar o resto da vida fica fácil escolher. Estão para sempre em meu coração. E isso envolve a segunda mudança, eu vim para me gabar! Definitivamente mudei bastante! Além da pele do rosto queimada pelo sol, da barba repleta de pelos grisalhos cobrindo metade da minha identidade visual, meu coração tem mais gente, a parede da memória tem mais quadros de pessoas, lugares e eventos a se tornem lembranças que não vão doer, vão colorir meus dias. Ser peregrino é encontrar um bando de gaúchos, de paulistas, mineiros, de baiano… acredita que encontrei baiano carregando mochila e gastando botas? É ver para crer! Encontrei gente de todos os estados, até do Acre! Talvez faltou gente do Piauí. É, do Piauí não encontrei ninguém, só se passou ligeiro, levantando cascalho com os pneus da bike. Dos húngaros, já sinto saudades. O russo, no final parecia amistoso, mas quando eu dizia “Ya tebya lyublyu” ele se afastava e ficava me olhando atravessado… desconfio que o polonês me sacaneou, não significa “quero ser seu amigo”. Vou confirmar isso. A última vez que vi os coreanos; aplaudiam uns aos outros logo após cada qual chegar na praça do Obradoiro. Tantos dias de estrada juntos, tantas noites de sinfonia de sopro, são gentis, leais aos seus. Fiz uma reverência e o mais velho deles retribuiu, deu vontade de ir lá abraçar… temi apertar e sair um sopro solo. Não fui. Gringos, tantos e todos que conversei na linguagem universal dos gestuais, gente que interagi, brinquei, briguei, acenei, até os batatudos que quase peguei entojo, todos eles que nunca mais verei, juntos num enorme quadro colorindo a parede da memória... Não tem como não tingir o texto com as cores da melancolia. Hoje era para eu encerrar tudo. Fincar o cajado na areia, amarrar a vieira, queimar a bota TNF (de raiva, não de ritual), virar as costas e deixar de ser peregrino. Era o trato. Não deu… primeiro que perdi o cajado! Não vou dizer aonde, e eu sei onde foi, porque se eu disser vai baixar uma tropa querendo o abridor de nuvens pra si. Se na disputa dois tocam ao mesmo tempo no cajado, capaz de acontecer desgraça com o mais forte, ou habilidoso, terminar cometendo lesão corporal no menos hábil, ou mais fraco. Deixemos que a sorte decida o destino desse cajado milagroso! E quem haveria de discutir a milacurosidade presente nesse bastão se não choveu chuva bem chovida sobre mim enquanto estive com ele? A capa de chuva só me fez gasto de euros e de energia para transportá-la. Outro gasto desnecessário foi… não, não teve. Só capa de chuva mesmo. Bom, segundo motivo para não encerrar jornada hoje, não estou em Finisterra. O fim da terra está a quatorze quilômetros adiante, parei num vilarejo de nome Lires. Estava caminhando, papete, sol, poeira, estradão, quando faço a minha paradinha dos trezentos e oitenta graus avisto uma praia. Sol! Pensa num sol? Tinha dois!! Desviei do caminho e desde então sou um desviado. Desviado, que pegou um desvio, viu? Nenhuma conotação hétero ou homo ou simpatizante ou… todo mundo entendeu! Daí ficou tarde para seguir adiante, alberguei por aqui. No momento estou vigiando as roupas no varal, eu digitando aqui elas lá, vento constante e sol. Ontem em Muxia a última brasa do sol se apagou no horizonte era vinte e duas horas e trinta e seis minutos. A roupas, estava falando da lavagem de roupas, tinha areia branca até no cadarço. E ó, não recomendo mar espanhol, muito gelado! Só se for Ibiza, Mallorca, sei lá. Aqui entre Muxia e Finisterra não dá pé, quero dizer, pé até que dá... Praia de tombo, a gente vai andar estranhando o tanto de moça fazendo topless e leva tombo! Esse tombo também não é coisa pra se gabar.





TRIGÉSIMO OITAVO DIA NO CAMINHO
18/06/2017
Trecho: Lires até Finisterra - 15km de distância

Estou em Finisterra! Sabe o que isso quer dizer? Oxi!!! Se faça de desentendido não, desde o início lá nos idos dos meados de maio que eu venho dizendo! Aliás, creio que disse… Nunca reli o que escrevi dia após dia de peregrino, próxima terça-feira embarco de Madrid para Guarulhos, chego em casa na quarta, beijo meus amores, tiro um dia de descanso (toda quinta-feira é meu rodízio de placa, nem saio de casa se estiver frio), depois de sexta ou sábado devo pegar nos assuntos da vida e sabe Deus quando vou parar e reler todas bobageras que falei aqui… falei nada, escrevi! É certo, vou sentir vergonha de alguns exageros! Tenho essa mania de potencializar miudezas. Cachorro pequinês olha pra mim eu já arreganho os dentes dele, eriço os pelos da nuca, agiganto o porte até chegar no formato de lobo, ponho cor de fogo nos olhos do bicho, coloco baba escorrendo, engrosso o latido e formalizo um ataque de causar inveja a qualquer pittbull estressado. Meu cão sanguinolento sobe árvores, rasga pneu de trator, arrebenta portas no peito e atravessa paredes só para abocanhar um naco de mim. Enquanto isso tudo acontece na minha mente, o pequinês se afasta, deve ficar com muito medo da minha cara de doido. Isso porque entre pensar essas asneiras todas e expressar o imaginado, não custa nada! Torço boca, reviro olhos, entorto as mãos, grunho, babo, capaz até que ataque e morda o pequinês! Então, provavelmente fiz algo parecido nestas crônicas diárias, tô lá, escrito e descrito em algum exagero… eu não tô dizendo que minto, tô dizendo que potencializo a coisa, ou seja, ela bem poderia ter acontecido daquele jeito. Quem conta um conto acrescenta um ponto e é esse ponto que dá vistosidade ao causo. Um conto de um só ponto, não tem graça! Mas isso é coisa que só vou verificar lá pra julho, agosto, setembro… agosto não, agosto tem dia dos pais, aniversário da caçula, mês de cachorro louco, agosto tá todo ocupado! Já por mensagem de whatsapp estou sabendo que a caçula está ensaiando musiquinha para a festa do dia dos pais, está toda feliz e empolgada. Até começou cantar um trecho, mas antes que eu pudesse acionar o lembracionismo melodiático, que é o sistema interno de reconhecimento e insights musicais, ela parou de cantar, fez um som de ops, pediu para eu esquecer a música porque era surpresa. “Pai, esquece a música que eu cantei, tá bom? Eu esqueci que é surpresa para a festa dos pais. Não lembre da música, tá?”. “Tá bom, papai já esqueceu”. Se é para depender dessa minha memória, nunca vai me custar nadica de nada fazer ela feliz!... Não sei a que pai essa minha filha saiu. Onde eu estava mesmo? Ah, sim! Finisterra. Cheguei e as ruas enfeitadas. Flores desenhadas com pétalas, ramos, cores, perfumes, gente metida em roupas de domingo, senhorinhas carregadas de laquê, moçoilas em saltos, marmanjos em ternos e gravatas. Eu batendo bastão. Falei que perdi o cajado? Achei outro. Assim que dei por falta do miraculoso abridor de nuvens, sem remorso algum parei num bar para comer tortilha. Já falei que a tortilha é uma omelete de batatas? É. Deliciosa e nutritiva. Pedi, comi, paguei e sai peregrinando. Uns cinco quilômetros adiante encontrei outro bastão, encostado num totem de seta amarela. Lugar ermo, ninguém a vista, o coitado foi deliberadamente abandonado. Adotei. Bati ele no chão, senti o jeito da empunhadura, esnuquei duas ou três pedrinhas sobre o totem, rodei na mão como fazem as líderes de fanfarras, me pareceu um bom cajado substituto. Retomei a peregrinação. Mas, pelo jeito, o cajado se acabrunhou comigo, deve ter sido nas esnucadas, não tenho certeza, só sei que me abandonou no mesmo dia! É isso ou eu estava avoado naquele dia, pois esqueci o adotadinho na última parada antes de albergar. Andei o dia seguinte, e o outro, e mais um dia com as mãos segurando correia da mochila, não é a mesma coisa, então pedi, se fosse da vontade dos deuses cajadíceos, que eu tivesse mais uma oportunidade. Prometi não esnucar mais nenhuma pedrinha de totem, nem fazer malabares de balizetes. Prece atendida! Parei na moita por conta de duas garrafinhas de fanta laranja pra repor sódio e açúcares consumidos na peregrinação da manhã, e o meu pedido estava lá, fincado, esperando por mim. Olhei para um lado, pro outro, pra frente, apurei as vistas, chamei “olá?”... Ninguém. Então o cajado era pra mim mesmo. Fanteei o mato, passei a mão no meu novo companheiro de viagem, ele tem cara de cabo de vassoura, possui até aquele parafuso na ponta para rosquear rodo ou vassoura, mas recebi por cajado e foi com ele que entrei em Finisterra, batendo ele nas pedras do arruamento, as ruas enfeitadas, o povo enfeitado, banda de gaita de fole. Achei que era tudo para mim, comemoração pela minha chegada em terras de fim do mundo. Até ensaiei uns passos de bolero, estalei os dedos, gritei olé, daí surgiu o andor com o Cristo... tirei a bandana, afastei pra calçada e deixei a banda de gaitas passar, o andor passar, as tiazinhas laqueadas passarem, os moços de terno passarem, o povo com roupa de domingo passarem, todos olhando para mim com olhar de “Pai, perdoe-o pois deve ser um menosvalido”. Menosvalido é só aqui na Galícia, no resto da Espanha é 'descapacitado'. Ok, não enrolando, não são politicamente corretos. É, nada de politicamente corretos, essa coisa chata que impera no Brasil! Chata sim, não discuta comigo que sou de onde saiu Aleijadinho e toda sua genialidade barroca! Na Espanha meu Aleijadinho seria Menosvalidinho, ou melhor ainda; Descapacitadinho! Nem por isso menos lindo, menos gênio!! Estou divagando. Banda de gaita de fole, inventei, falei que potencializo? Era uma fanfarra com tarol, caixeta, zabumba e meia dúzia de flautas de fole tipo escocesa. Flauta escocesa é aquela que o músico sopra um canudo que enche um saco de ar estrategicamente posicionado embaixo do suvaco dele, daí ele aperta saco de ar com o braço - contra o corpo, e o ar sai na flauta fazendo um som agudo constante. O moço tem que ser bom de música, de sopro, de aperto suvacal, de dedos nos furinhos da flauta e ainda de trocar os passos pisando nas pétalas sem escorregar. É de ficar embasbacado com as habilidades da banda! Fiquei embasbacado. Essa foi minha recepção ao chegar em Finisterra, procissão de Corpus Christi. Depois albergue, menu peregrino, finisterrana e, finalmente, carimbo na credencial dizendo que cheguei ao fim do caminho. Isso mesmo, fim! Já posso me gabar.





TRIGÉSIMO NONO DIA NO CAMINHO
19/06/2017
Trecho: Finisterra até Santiago de Compostela (de ônibus)

Antes de começar a potencializar qualquer lembrança sobre o dia de hoje, quero agradecer os milhares de leitores que me acompanharam nesta que foi minha maior aventura. Mais de novecentos quilômetros de caminhada e um leitor para cada quilômetro! Tô sabendo que mais ou menos oitocentos leitores jamais clicaram em curtir meus relatos, nem comentaram meus perrengues, nem nada. Sem problemas! Importa que leu, se chorou ou se sorriu o importante é que emoções viveu… isso dá música. E música pra Roberto Carlos cantar! Bom, vamos ao assunto de hoje: volta para casa! Estava em Finisterra, deitado na beliche do albergue municipal, meia dúzia de peregrinos roncando, sem briga, estavam respeitando um ao outro, quando era a vez do ocupante da beliche de baixo, a direita, fazer ‘ronc’, o da esquerda (em cima), fazia ‘gronf’, o da esquerda (embaixo) segurava na apneia e o meu parceiro de beliche fazia 'fuuuuuiiffff’. A senhorinha da Suíça, que caminhou desde Genebra e ganhou reconhecimento por escrito sobre o feito, afinal não é todo mundo que ultrapassa os dois mil quilômetros na bota, ela não ronca, ronrona. Nem é gata, mas a respiração dela faz rom-rom-rom tanto na expiração quanto na inspiração. Acho que é o diafragma. Mas não destoa, todo mundo roncando em sintonia, ninguém fazendo disputa, ou provocando ninguém. Daí que eu estava todo feliz com a harmonia no albergue, quando começou uns latidos esquisitos, e os cachorros pareciam correr pelo telhado. Tirei a cabeça de dentro do sarcófago, assuntei os latidos e lembrei que não eram cães, eram as gaivotas! Muxia e Finisterra tem um gaivotão para cada chaminé. E como falta chaminé para o tanto de gaivotas, elas estão também nos postes, nas placas, nas cumeeiras, nas torres, nos alambrados, nos cruzeiros, nos morros, nas praias, no mar e todo canto onde couber um gaivotão. É um espaço com vinte centímetros e da para virar poleiro, pode ter certeza que terá um bicho latindo. Daí no meio da latição eu lembrei ter lido, em algum lugar, que ônibus para Santiago saia às sete e trinta da manhã. Eu não precisava levantar cedo. Mas queria chegar cedo em Santiago. Ninguém precisava levantar cedo! Todo mundo finalizou a peregrinação e ontem já pôde queimar as botas lá no farol… não pôde! Mas queimou!! Ontem acabou a peregrinação, a turma da bota pegou 'finisterrana’ e foi fazer o que? Sentar no bar com as pernas pra riba tomando 'canha’ certo? Nada. E-R-R-A-D-O! Todo mundo foi andar mais seis quilômetros. Até eu fui caminhar. O marco zero do caminho fica lá no farol, três quilômetros pra ir e três para voltar. Tudo doido. Até eu. Tudo pra tirar selfie no totem de zero quilômetros. Até eu! Farol coberto pela cerração, frio de doer, povo de chinelos e bermudas voltando para o albergue feliz da vida. Como o sol se põe depois das dez da noite, meia noite foi hora de entrar no saco de dormir, imitar faraó e ficar zipado no sarcófago. Ah, canha é a 'rárra de cerveza' aqui no lado galego. E…deixa eu voltar, madrugando, isso, deu o clarão no oeste a latição começou, anunciando o amanhecer. Povo continuou no ronco amistoso e só eu, pra contrariar, levantei. No passo de formiga, arrumei minha tralha, arrumei minha cara, arrumei o que deu pra arrumar na juba, vou para o local do ônibus e a informação estava errada, só saia às nove e trinta. Mineirinho não perde o trem, nem o ônibus, chega duas horas antes, até na Europa! E se o mineiro chegou cedo, espera. Espera duas horas sozinho. Nem um Iugoslavo para entabular uma conversa no começo de dia. O resto do mundo chegou assim que o ônibus encostou. Europa é tudo civilizado! Até abrir a porta do ônibus… eu me senti tentando embarcar no metrô de São Paulo na hora do rush. De repente eu era o único ouvindo gaivotas latindo nos telhados, de repente eu era uma sardinha jogada para as gaivotas! E teve pisão no pé, cotovelada no estômago, chute na canela, dedo no olho, joelhada nos ovos, pena de gaivota no nariz… lotou antes que eu embarcasse! Perdi o busão, tive que esperar o próximo, mas daí eu já estava esperto, atropelei velhinhas, derrubei um descapacitado, tirei o tênis de uma criança e joguei longe pra mãe buscar. O alemão subiu o degrau emparelhado comigo, mas dei foi um golpe de capoeira na batatona dele, ela se atrapalhou e jogou o danado no colo do motorista. Estendi os doze euros, peguei o bilhete, sentei na janelinha enquanto o alemão procurava a moedinha perdida nos pés do cobrador. No fim deu tudo certo, na hora e meia de viagem ninguém parecia ter guardado mágoa, cheguei em Santiago pouco depois do meio dia e já comprei passagem para Madri - de Santiago a Madri são nove horas de estrada, tem apenas dois horários direto para o aeroporto de Barajas, a passagem custa menos de cinquenta euros e se o peregrino apresentar a credencial e não fizer questão do ponto final ser o aeroporto, ganha desconto de quase quinze euros, fica a dica. Com passagem garantida e oito horas de folga, fui fazer o que? Sentar no bar com as pernas pra riba tomando 'canha’ certo? Nada. E-R-R-A-D-O! Fui caminhar. Mochila nas costas, papete nos pés, fui lá na praça do Obradoiro, comi no Manolo, andei sem rumo, arrumei um rumo, voltei para a 'estacion autobuses’ e falta menos de vinte minutos para embarcar. Dessa vez assento numerado, não vai ter japonês me joelhando as intimidades. Amanhã às sete chego em Madri, embarco só depois das dez da noite… vou fazer o que nas quinze horas de intervalo? Como diz em Minas, vou bater pernas! Isso porque acabou a peregrinação!





QUADRAGÉSIMO DIA NO CAMINHO
20/06/2017
Trecho: Santiago de Compostela até Madri (de ônibus noturno)

Fiquei com preguiça! Estou no terminal um do aeroporto de Barajas, Madri. Andei perdido até me achar neste aeroportão e agora deu preguiça… Não dormi na viagem noturna. Explico: ontem depois que voltei para a estação de ônibus de Santiago, após turisgrinar pela cidade, reencontrei a jornalista de Curitiba, a moça que está sempre a um palmo do chão. Ela também caminhou a Finistere, também perdeu o primeiro ônibus e depois perdeu o segundo ônibus para Santiago. Se tivesse selvageado feito eu no embarque… enfim, alguém ficou com dó e empurrou ela para dentro do quarto ônibus, assim a jornalista chegou na rodoviária de Santiago no final da tarde. Ficou muito feliz ao me ver, ao constatar que não seria a última do 'bandogado’ encerrando peregrinação. Tamanha era a felicidade que até me pagou uma canha. Ônibus dela saiu às dezenove o que, na prática, me transformou no retardatário dos trezentos de maio. Foi para Portugal. Ficou rindo de minhas asneiras e quase perde ônibus para Vigo! É muito avoada! Deus protege quem anda distraído. Daí fiquei mais duas horas na espera e finalmente embarquei. Previsão de chegada em Madri às sete horas da manhã de hoje. Acontece que o ônibus não vem para o Barajas, para na rodoviária de Madri e quem vai voar ganha traslado. Gratuito. Quer dizer, não ganhei o desconto de peregrino e o traslado já estava pago. A viagem toda um gordinho dormindo ao meu lado, tranquilinho, tomando parte dos meus espaços a noite inteira, tive que pular o moço nas duas paradas estratégicas. Pulei e despulei. Sem incidentes! Sem nada de perrengues! Mas se eu cochilava para a esquerda acabava beijando os cabelos loiros do gordinho, se cochilava para a direita a testa trepidava no vidro da janela. É, a caminho de Madri eu sentei na janela... Não sei por que? Viagem a noite não tem graça ficar na janela, nem tem paisagem! Só o escuridéu e lá de vez em quando uma assombração dá tchauzinho, depois some sem deixar provas! Pode prestar atenção na próxima viagem noturna! Fique olhando pra fora, para o breu. E no mais, os perrengues comigo só acontecem quando sou dono do corredor. Cada um que passa dá tapa, dedada, chute, cotovelada, encoxada, sarriada no meu ombro, cafungada na cocuruta, a careca vira aeroporto de espirro, tosse, perdigotos. Nojento? É sim. Infelizmente comigo é assim; sentei no corredor em viagem noturna, pode crer que o da janelinha vai estar sem sono, com desarranjo, coceira, incômodo psicológico, tremedeira, ciste. Já quando estou na janela meu sócio de poltrona é sempre um ser fofinho dorminhoco, se estiver friozinho (e nos ônibus noturnos sempre está), a criatura gordinha de Deus vai sonhar e inclinar cabeça no meu ombro. Sou solidário, deixo me fazer de travesseiro. Solidariedade ou inveja de quem consegue roncar, babar, sonhar com os solavancos de estrada. Mesmo nas estradas de Europa, sempre tem um calombinho no asfalto, uma bacadinha, um pedágio com redutor de velocidade, uma freada. Dormir bem assim é para quem não tem dívidas nem pecados! Tenho os dois!! Mas não é por isso que vou acordar o sócio eventual. Nas paradas, foram duas, pulei e despulei no maior carinho. Na última pulada tirei a mão dele do meu braço, estava entrelaçado como se fossemos passear no parque, depois da despulada entrelacei novamente. Gosto de gente gordinha, fofinha, com sorrisinhos simpatiquinhos - se tiver covinhas nas bochechas é fatal, deixo até dormir de lado, joelhos ocupando metade da minha poltrona, de conchinha na minha perna!! O que? Deixo sim, além de gente boa gordinhos sempre rendem bons causos. Isso quando não começam a suar. Me incomoda! Por sorte, raramente faz calor nas viagens noturnas. E daí que cheguei no terminal quatro, andei até cansar - me fazendo de macho alfa com sentido de direção apurado, desisti e fui me informar. Caminho acertado parei e abracei Jesus, que me viu de longe e abandonou a fila de embarque para me desejar um bom caminho na vida. Emocionei. Jesus, o mexicano que esteve comigo o caminho todo, só nas paradas e albergues, porque ele acorda cedo, anda rápido, é o peregrino oposto de mim. Mas eu era constante, devagar e sempre. Adeus Jesus! Mora no Texas. Após toda essa emoção só cheguei no terminal um depois do meio dia. Tem que utilizar ônibus para ir de um terminal ao outro. Fica longe, proibido ir andando porque os terminais não se comunicam para pedestres. Encontrei fila de dobrar as pernas. Persisti, tirei bilhete, pedi corredor com perna direita livre, aleguei incômodo no joelho após peregrinação, o atendente fez cara de empatia, se desculpou pelas poltronas da frente estarem todas ocupadas (creio que tá cheio de peregrino mentindo para o pobre), olhou a telinha com mais atenção e me deu a poltrona quarenta e um C, por coincidência eu vim para Madri espremido na poltrona quarenta e um E… pela lógica das letras o atendente me sacaneou. Fileira dupla; janela, poltronas A e B. Corredor, fileira tripla; C, D, E e corredor. Fileira dupla; poltronas F, G e janela… a perna livre parece ser a esquerda. Mas nessa lógica porque eu vim espremido se minha poltrona era a E? Eu tinha que ter vindo de São Paulo para Madri com a perna direita balangano e atrapalhando as comissárias, os carrinhos de bebidas, de comidas! Tem coisa errada… Será que é o mesmo avião? Será que só tem esse indo e vindo todos os dias? Oxi, sem paranóia Betão! Negócio certo é que embarco às vinte e três horas, são treze e pouco, quase quatorze horas, deu preguiça! Até eu sair, chegar lá no centro, comer, me animar e papetear chão madrilenho já passou metade do tempo livre, depois arrumo assunto para me distrair e periga eu perder vôo. Tô querendo isso para mim não. Não hoje!





PRIMEIRO DIA APÓS O CAMINHO
21/06/2017
Trecho: Madri-Espanha até São Paulo-Brasil (voo noturno)

Bom dia! Oficialmente demitido da função de peregrino. O último carimbo foi no passaporte, o moço na alfândega de Espanha ficou até triste, perguntou se não tinha gostado de algo para ir embora tão cedo. Respondi que na próxima encarnação volto galego, de tanto que amei tudo, tudinho, sem tirar nem por... Bem, talvez uma diária no Aparador pudesse ser acrescentada, mas é luxo que não me pertence nesta peregrinação. Euros contados. Sobrou um cadinho. Bem cadiquinho, mas sobrou. Não guardei as notas da papete, da capa de chuva, de outras coisinhas, deu mais de cem euros, poderia pedir o 'TAX FREE'. Sabe o que é isso não? Na comunidade européia o turista pode pedir devolução dos impostos pagos na compra de bens de consumo. Um tal de IVA (na Espanha), que corresponde a dez por cento sobre tudo que a gente compra, seja em ticket de cafezinho, seja em nota fiscal de uma bota Salomon pela metade do preço na Decathlon. No embarque de volta a gente apresenta notas, passaporte, passagem de volta e recebe em dinheiro todo IVA pago. Não adianta apresentar ticket de menu peregrino, tem que ser notas, bens de consumo! Fica a dica. Então, vim balangano a perna direita. Tudo certinho, até a ida todo espremido, tambem estava certa. A numeração das poltronas é na sequência enfileirada, mas a adição de letras é alguma ordem não aleatória porém complicatória, coisa para a gente não entender mesmo. Só sei que as poltronas A e C ficam juntinhos, A na janelinha - pra dar tchau pra assombração, e C no corredor - pra levar dedada, cutucada, cotovelada, encoxada e a careca servir de aeroporto de tosse, espirro, etc. E também balangar a perna direita. A esquerda é das bolhas, bolha a gente não balanga, fura e deixa a linha. Dormi! Acordei e estava todo mundo dormindo, parecia um albergue semi vertical, cada qual encaramujado na poltrona reclinada, aliás, não sei por que chamam de reclinada! Enclinar eu entendo que seja horizontalizar o encosto em alguns graus, uns quinze graus pelo menos, reclinada seria inclinar duas vezes, daí o encosto ficaria nos trinta graus... Por aí. Mas o encosto nem chega nos sete graus de inclinação! O nome correto deveria ser outro, sei lá, desemprumar, de tirar do prumo. Fica mais essa dica, nem vou pedir direitos autorais! Comigo é assim: nas pensações que resultam um mundo melhor, a gente doa a inteligência para a humanidade. De grátis! Depois de ouvir roncos no albergue voador, dormi outra vez e fui acordado pela comissária pedindo para eu desbalangar a perna que tinha um carrinho de café e tea querendo servir o povo, todo mundo acordado, parece até que combinaram de ficar olhando para mim. Tirei a perna, pedi tea, comi pão, levantei pra lavar a cara e já era hora de desembarcar. Na recepção aqui no Brasil, só uma moça feliz. A que pediu meu passaporte e desejou bom retorno. Família me espera em casa, que insisti para não atravessarem a cidade de madrugada, neste friozinho, não merecem. Estou no ônibus, mais quinze minutos na Marginal Tietê e estarei ao ponto de onde parti faz quarenta e um dias. Eu era outro! Agora é voltar a ser o mesmo, até porque tudo que aqui ficou, gente, amores, trabalho, contas, cobradores, governo... nada mudou. Beijo, fiquem com Deus.





SEGUNDO DIA APÓS O CAMINHO
22/06/2017
Dormindo o dia inteiro em São Paulo, capital

Voltei a rotina dos meus dias comuns! Diante do espelho não é só a pele queimada ou a barba espessa, estou sim um pouquinho diferente, deve ser a incidência de luz... Sim, estou em casa após quarenta dias de peregrinação. Abraço!





TERCEIRO DIA APÓS O CAMINHO
23/06/2017
Reativando a rotina em São Paulo, capital

Retornar para casa após quarenta e um dias do outro lado do oceano, caminhando diariamente uns trinta quilômetros, grande parte do tempo por trilhas entre bosques, beirando rios, ouvindo pássaros, rãs, tuque-tuque de bastões e os próprios pensamentos… sim, tem pensamento que grita dentro da mente! Retornar é dolorido. Uma buzina na esquina, um escapamento de moto, a freada brusca do ônibus, sirenes de ambulância, polícia, bombeiros, bate estacas de construção, bip-bip-bip-bip de ré do caminhão. São alguns do ruídos antes rotineiros e que hoje incomodam os ouvidos. É preciso reaprender a viver em São Paulo. As dores do caminho ainda se manifestam nos tornozelos, nas bolhas, na sola do pé direito. Pela manhã, ao me levantar e ir ao banheiro, ainda estou caminhando feito grávida, tendões, músculos e planta do pé doem. Retornar não elimina as dores, somente aquelas do coração, a dor da saudade. Retornei faz três dias, lembranças de eventos no caminho já começam a tomar seus assentos no salão da saudade, uns estão acompanhados de rostos, outros acompanhados de paisagens, outros ainda acompanhados de sensações. Dos rostos que se acomodam nos assentos, alguns se apresentam com nomes, outros se apresentam com nomes e lugar de origem, vários rostos estão sem nomes, porém eles têm lugar de origem, ou de evento, e um sorriso. Alguns percebi quando choraram, o caminho tem muitos momentos para lágrimas, de dor, de felicidades, de impotência, de superação, de emoções variadas, de vazio. Eu preferi guardar rostos com sorrisos! Sou ruim de memória para nomes, no entanto lembro de cada lugar, de cada pessoa, de cada evento no caminho e para cada um, novo assento se apresenta e logo é preenchido. No meu coração, para cada saudade que morreu no retorno ao lar, sete outras geradas no caminho nasceram e tomaram lugar. Algumas só preciso deixar doer até esmaecer e se tornar lembrança boa de recordar. O caminho vai esmaecer e se tornar lembrança. Cada passo vai esmaecer, como na música “ Vamos todos numa linda passarela/ De uma aquarela que um dia enfim/ Descolorirá”. Sim, penso que o caminho vai, um dia, enfim, descolorir dentro de mim. Não creio que voltarei ao Caminho de Santiago de Compostela. Não vejo sentido. Mas, já citei o gajo Fernando Pessoa, lembra? Falando em mudar de ideia, relutei e estou barbudo ainda, apesar dos protestos de minha caçula. No primeiro dia ela disse que estou feio. No segundo dia disse que estou feio e envelhecido. Hoje me arrebentou falando dos fios brancos na barba, nos cabelos e nas sobrancelhas: “Pai, você está com muitos fios brancos na barba, muitos fios brancos nos cabelos e também fios brancos nas sobrancelhas. Você está ficando velhinho, está ficando mais perto de morrer”. Amanhã vou tirar a barba, limpar sobrancelhas, raspar os cabelos. Retornar ao visual de antes. E o antes parece que foi ontem! As vezes tenho a sensação que ainda nem fui para Madri, Pamplona, San Jean e que não comecei a andar, depois sinto as dores de uma buzina na esquina, de um ronco de escapamento, as dores da sola do pé, as dores das bolhas e então recordo cada evento, cada lugar, cada rosto, cada sensação vivida no caminho e me parece que foi tudo há tanto tempo no passado que começam a doer todas as saudades assentadas. Um paradoxo temporal! E ainda tem o fuso!! Às nove horas da noite estou que não me aguento de sono, para o meu corpo era para ser duas horas da madrugada! As dez da noite minha mente fica procurando pela a ôla de roncos, os terremotos nas beliches, as sinfonias de sopros. Uma sirene passa gritando urgência. Urgência é o que não tenho no momento, só dores. Mas é tão bom estar em casa. E assim como eu disse ao argentino, no segundo dia de caminhada: “Tá doendo, mas está gostoso”... Ow!!! Pense besteira não! Vai ler a crônica do dia doze de maio antes de pensar em sacanagem! Cada coisa...




OUTROS DIAS DEPOIS...
26/06/2017
São Paulo, capital

Daí o amigo Gilson pergunta se tive problemas com os temíveis percevejos de Albergue... Respondo. Nenhum. Mas eu sou imune a picadas de insetos, seja brasileiro ou inseto gringo, isso porque desde menino pequeno em Minas Gerais fui recebendo vacina natural. Andava descalço, comia todo tipo de fruta e raiz do jeito que colhia, sem estresse de lavar, limpar polir antes morder. Era picado diariamente por mutuca, pernilongo, abelha, formiga, aranha, cobra verde, paca, tatu, cotia. Nadava pelado, tomava ferroada de cascudo, arraia, chorão, mordida de piranha, traíra, cachorro. Tinha até berne! Barriga inchada, pé cascudo, mão calombuda.... Então não é uma chinche que iria me tirar o sono, mas isso sou eu! Tive amigos brasileiros criados a papinha de pêra que ficaram bem marcados com o ataque dessas pragas. Brincadeira a parte, esse bichinho faz estrago sim. Gente alérgica sofre muito, uma picada acaba fazendo mais estragos que uma bolha no pé. Mas eu não sei se fui picado porque assimilo ataques de qualquer inseto na boa, as vezes só gasto um tapa no bicho e já encerrei o assunto.

PRA ME GABAR

Durante muito tempo, lá nos idos mil novecentos e noventa e algum ano, eu sonhei percorrer o Caminho de Santiago. Porem, me parecia um...