27 junho 2018

NOTÍCIAS DO LADO DE LÁ

Morreu Juvânia. Obviamente filha de Juvenal da padaria e Vânia do lar (numa época em que existia lar nas casas).

A morte dela me atinge indiretamente através da lembrança, antiga, de eu menino querendo crescer e tomar o trabalho de Juvânia. Recordo a figura dela sentada diante da fila de dois ou trinta resignados, cada qual com suas páginas de formulários em tantas vias. Tinha habilidades de rotina. Recebia as páginas, cinco dedos espalmavam sobre papéis no balcão e outros cinco firmes na cabeça do carimbo. Almofada azul, pancada na primeira via. Almofada azul, pancada na segunda via. Almofada azul, pancada na terceira via. Juvânia não falava nada, apenas a mão direita golpeava a almofada azul repetidas vezes. Anel de pedra vermelha na destra, pancada em outra via, não movia nada além das mãos, cada qual na sua função automatizada. Devolvia sempre uma página a menos. A mão direita repousando sobre o carimbo, o carimbo repousando sobre a almofada azul, os dedos da mão esquerda recolhiam única via á gaveta. Os dedos da mão direita não soltavam o carimbo quando a boca sibilava "próximo". Juvânia ereta e quieta enquanto a canhota se estendia abocanhando novos formulários com suas variadas vias. O resignado anterior saia organizando páginas, as vezes sorria. Eu admirava tamanha habilidade e decidi, quando crescesse ia trabalhar como carimbador. Não entendia Juvânia, que fazia toda magia num mau humor danado!

Agora essa, recebo notícia que morreu Juvânia. Recordo o departamento bucólico em minha cidade de origem e abro nova frustração; cresci, vim para a capital e esqueci de ser carimbador. Decerto nem mesmo lá nos cafundós se usa mais carimbos!

07 maio 2018

HILDA


Chovia quando o caminhão chegou trazendo a mudança daqueles polacos. Se não eram polacos que fossem dinamarqueses, ou noruegueses, ou então de outra Escandinávia qualquer, onde todo mundo tinha olhos azuis e cabelos cor de fogo. Hilda era a moça da família que veio morar na fazenda, em frente ao nosso sítio, tinha um par de olho azul, tão azulado, mas tão azulão, que a gente olhando assim, de cima pra baixo - ela era bem maior que eu, até chegava a confundir com duas bolotas de céu sem nuvens. O corpo era cheio de ferrugem. Passado uns tempos sua pele foi perdendo o brancor até ficar tostada, foi assim que a ferrugem terminou parecida mesmo com paçoca de amendoim com rapadura. O pai pegava o amendoim, dizia 'achega' e todo mundo chegava para tirar as cascas e tacar no mato. Aí era vez de botar os amendoins cascados no forno. Torrava pouco, só por amor de tirar a pele vermelha, deixando os caroços limpos. O pai despejava num tacho, pegava o moedor e socava todo amendoim dentro. Não moía muito fininho não! Moía médio, mais triturado fino que moído grosso e já ia caindo óleo e tudo numa panela. Acabava que a moagem pra dentro da panela livrava o tacho. Com ele vazio o pai pegava duas rapaduras de engenho, feitas no sítio da Fióta, uma negra que ficava mais preta ainda quando estava emparelhada com a mãe da Hilda - e as duas postas juntas era uma coisa bonita de ser vista. Mostrava as diversidades da natureza, me fazia maquinar que cada uma tinha sido formada para sustentar vida numa parte diferente do mundo. A mãe da Hilda atropelava as palavras pra dizer que lá de onde ela vinha tinha muito frio, muita umidade! Eu guardava pra mim se não era por isso que a família inteira tinha enferrujado. A Fióta não desembestava a língua, ela tinha era um jeito de falar arrastado, manso, de quem recordava as imagens que o cérebro ia transformando em palavras. Atiçava preguiça na gente ouvir a velha contando das terras de suas origens, que ficavam lá pras bandas de onde o calorão só não queimava a alma. No final deu que as duas, cada uma do seu jeito e com sua história, não ficaram onde tinham sido feitas pra povoar. Vieram completar o povoado do Triângulo Mineiro, que tinha sol de sobra, capaz de chamuscar até pedaço da alma e também um tiquinho de frio pra tiritar os dentes, ia da época do ano. Mas deixa eu tornar o assunto da paçoca... As rapaduras compradas, ou trocadas por algum frango, eram colocadas em riba da mesa feita de tóra, que mesa de trabalhos na cozinha não podia ser fraca não, e então o pai pegava o facão, colocava meio de chanfra na quina da rapadura e batia com o cotoco de caibro. O facão entrava na rapadura tirando lascas fininhas, que iam quebrando parecendo tijolo ralado. Depois de muito cotoco batido no facão chanfrado, restava a montuera de rapadura lascada dentro do tacho. Nessa hora o pai deixava a gente comer umas iscas. Não muito, que era pra não faltar doce na paçoca, mas deixava. Depois botava o tacho na trempa maior do fogão de lenha e as raspas iam se derretendo todinhas, virando um melaço que a gente nem podia chegar perto. O pai danava, dizia 'arreda' e a gente arredava! Antes, quem dizia 'arreda' era meu avô, depois ele morreu e o pai ficou com o costume de dizer ‘arréda’ pra tirar as crianças pra longe. Então tenho pra mim que a gente se arredava pra longe mais por costume. Eu ficava de longe esticando os olhos pra dentro do tacho, lambendo os beiços, morrendo de vontade de queimar a língua naquele doçal todo. O pai pegava a panela de amendoim triturado fino, despejava tudo no meio do melaço e ia misturamexendo até virar uma pasta cheirosa, pedindo pra gente meter o dedo ali e experimentar o gosto. Só não metia o dedo porque o pai dizia 'arreda' toda hora e ninguém era besta de não obedecer. Mas no que o cheiro de cana e amendoim ia subindo do tacho a gente também ia desarredando. Aos poucos, meio pé de cada vez, logo já estava a criançada toda em volta do tacho. Os maiores atrás dos menores, porque se o pai injuriasse e desse um pescoção pegava nos primeiros. ARREDA! Arredava todo mundo deixando espaço pro pai tirar o tacho do fogo. Ele, segurava alças com um pano molhado, pra não queimar as mãos. A mesa de tóra rangia com o peso do tacho borbulhando docegrude, mas aguentava! Nisso o pai já tinha preparado, na outra banda da mesa, a pedra de granito arrodeada de ripas pregadas uma nas outras, formando um quadrado. Ele despejava o doçal mole em riba da pedra e ia espalharrumando pra ficar retinho. Nisso a gente ficava raspando o tacho com pedaços de taboca, os maiores na frente, tirando restinhos de doce quente e botando pra derreter na língua. Depois que terminava de misturarrumar o doce, papai cobria tudo com um pano saca de farinha, branquinho, molhado, pra ajudar a esfriar e endurecer a paçoca sem escapar cheiro. Então dizia 'arreda' mais uma vez e se ia pra lavar o tacho e a colher de pau. A pedra coberta com pano de saca ficava bom tempo esfriadurecendo. As vezes dormia ali em cima da tóra. Ninguém mexia, ninguém era doido! Depois vinha o pai com o facão, tirava a saca branca de cima e começava a cortar o endurecido em quadrados miúdos. Era só o tempo de o pai sorrir, provando o primeiro pedaço e todo mundo já podia alimentar a solitária. O pai fazia cara de satisfação enquanto a família mastigava a paçoca. Pra mim, a cor dessa paçoca era igualzinha da cor que a ferrugem da Hilda ficou após queimar no sol de Minas. Eu ficava olhando aqueles ombros da Hilda, na cor de paçoca do pai, e dava uma vontade de botar a língua ali e experimentar o gosto. Não dava vontade de morder não, só mesmo de botar a língua e sentir se era doce. Um dia falei pra Hilda que assim, do pescoço passando pelo ombro inteirinho até a curva do braço dela, tinha cor de paçoca do pai. Ela não deve ter entendido, daí expliquei que eu ficava com vontade de botar a língua ali pra sentir o gosto. A Sueca ficou me olhando com os dois olhos azuis muito abertos, tentando alcançar o que eu estava dizendo. Eu era moleque ainda, mas já bolinava com minhas intimidades, também já tinha esse jeito de controlar os nervos e dizer as coisas que estou pensando, mas escondendo as malícias lá no fundo, bem detrás dos olhos. Ainda faço isso! Faço de um jeito que as mulheres ficam olhando dentro dos meus olhos e só enxergam sinceridade mesmo - que é a única coisa que existe pra ser vista! Então Hilda assuntou lá dentro dos meus olhos e viu que eu estava mesmo só com vontade de experimentar o gosto do ombro, saber se tinha sabor de paçoca do pai. Disso ela deve ter ficado com vontade de me deixar experimentar... Penso isso porque ela pegou minha mão e me levou pra dentro do paiol, arredou a alça da blusa e ofereceu aquela paçoqueira toda, que ia do pescoço até a dobra do ombro. Eu botei a língua lá e não tinha gosto de paçoca do pai não, mas dava uma sensação boa, doce, quente que só raspa do tacho na ponta da taboquinha. Fiquei ali botando a língua no ombro dela e segurando os nervos pra não perder o controle das malícias, que perigava elas escaparem de detrás dos olhos pra vir bambear as pernas. A bem da verdade, meus joelhos falsearam! As pernas tremelicaram um bocadinho quase me traindo pra Hilda... Num é que ela nem botava reparo nas minhas ansiedades? Cerrou as pálpebras, apagando os olhos azuis e ficou dando uns gemidinhos meio suspirado, meio gemido mesmo, dum jeito que aquilo foi me atiçando - igual quando eu me bolinava as partes, e fazendo crescer a vontade de nunca mais tirar a boca da paçoca dela. Hilda desceu a blusa um pouco mais, mostrou parte da pele onde o sol ainda não tinha queimado. Era só ferrugem esparramada inteirinha até onde fazia a curvinha do seio - uma coisa bonita de ser ver. Então ela me empurrou a cabeça para que a língualambenta saísse da paçoca e ocupasse os lados das ferrugens. Eu levei a língua pra lá e fui descendo, descendo, sempre com a mão dela me obrigando a dar língualambidas mais pra baixo. Daí que apareceu o bico do peito de Hilda. Parecia uma amora, só que mais pra amorinha encruada, daquelas que não desenvolve e fica piquitinha no galho, quase madurando, uma parte branca e outra vermelha desbotada. Era uma amorinha boa de botar a boca! Nem era azedinha como de costume são as amoras ainda desbotadas. Eu lingualinguando a ferrugem do seio, nem percebi quando a blusa da Hilda desceu até o umbigo. Quando dei por mim a mão dela estava empurrando minha cabeça, pedindo pra língua ir lingualamber lá onde começava a saia. Eu fui botando a língua ali, assim, no temor de fazer algo errado, arrodeando o umbigo enferrujado dela... Nisso os panos atrapalharam meu lingualinguar.  Era Hilda já levantando a saia! As coxas da moça eram torudas, grossas e inteirinha enferrujadas também, mas nem deu tempo de reparar muito. Hilda empurrou minha cabeça e obedeci, fui lá, pretimoso, botando a boca entre as coxas dela. Daí que encontrei as partes femininas, que eu nunca tinha visto ainda, toda rodeada de pelos. Não era uma coisa bonita de se ver não! Mas não refuguei. Só dei uma estancada por amor de acostumar com a visagem e também me apresentar de boa educação pras intimidades dela. Mas Hilda não quis saber de afabilidades, empurrou e mandou, de voz bem mandada, que eu botasse a língua lá dentro. Eu nem sabia onde exatamente tinha que tirar o gosto daquilo com a língua, mas obedeci. Fui linguando no meio da ruivagem, lingualinguando as intimidades, lingualambendo as partes todas até que Hilda me prensou as orelhas dentro das coxas enferrujadas, deu um suspiro tamanho do mundo, arqueou as ancas pra riba levantando junto minha cabeça, boca, língua. Nessa hora minha língua sentiu um sabor de cândida doce entrando pela boca e descendo goela abaixo. Pego de surpresa, só me faltou engasgar, mas não era gosto ruim não! Foi gosto do bom. De verdade nem era doce, mesmo assim era melhor que isca das rapaduras do pai. A escandinava desfalecida na palha do milho, nem percebeu que eu desconhecia os procedimentos posteriores. Apeei do paiol, assuntei em volta e fui para casa. Sucedeu que depois desse dia, sempre que Hilda me pegava campeando sozinho perguntava se eu queria botar língua na paçoca dela. Era eu fazer cara de acanhado pra ruiva cuidar em volta, se acercar que não tinha viva alma perto do paiol e chispar pra lá. Eu sungava o cós do calção e ia na cola.

13 julho 2012

UMA ADAGA NO VÃO DA PUPILA

 

“Não é o mais forte que sobrevive,
nem o mais inteligente,
mas o que melhor se adapta às mudanças.”
- Charles Darwin

Eu vejo um velho no espelho, um velho interno, dentro de mim. Consigo enxerga-lo pelo vão de pupilas cansadas das intempéries da vida. Esse velho sobreviveu a várias rotações em torno do sol e a milhares de translações sobre si mesmo, morreu tantas vezes que só ele pode dizer quantas. E todas as mortes foram iguais. Ferido por uma adaga. Por isso, ele se obriga a ostentar essa aparência de forte, apesar de não ser nem mesmo inteligente.

O velho não sou eu. É a alma que agora me habita. Eu digo agora, porque já foram tantas, a julgar verdadeiros os presentes que amigos, familiares ou desafetos, em algum momento me ofertaram. A primeira pessoa a me presentar uma alma, foi minha avó materna. Deu para mim uma alma boa. Eu ficava procurando por essa alma em mim, mas não sabia ainda que deveria olhar no vão das pupilas. Essa foi sucedida pela alma de artista, presente de uma professora no primário. Depois minha vida ganhou um espírito cigano... esse eu matei e durante bom tempo me habitou um espírito empreendedor. Espíritos brincalhões são presentes constantes, coisas de amigos mais queridos. Até mesmo um espírito de porco me habitou, era tão perfeito que cometeu suicídio. Agora me habita esse espírito velho! Ele está inquieto e por isso veio espiar comigo seu reflexo no espelho. Eu me pergunto se já houve em mim espírito mais belo que ele. Depois me calo, quero dizer, paro de pensar para que o velho não saiba que já me habitaram tantos espíritos inquietos que nem sei dizer qual foi mais belo. Porque a beleza do espírito está na inquietude. Exatamente por isso tenho essa mania de assassinar espíritos domados. Cada vez que o vão das pupilas revela a quietude morna de um espírito calmo, eu lanço uma adaga e firo de morte a alma sedentária que em mim habita. Na morte desta, nasce uma nova inquietude e vou me renovando indefinidamente. Mas este último não se aquieta, o que me fez desconfiar que fosse o mesmo, velho e único espírito que já tive. Ele está adaptado a mim e nunca morreu de verdade. Aprendeu a ludibriar minhas adagas, ou a mentir que elas feriam. Decerto riu todas as vezes que pensei tê-lo matado... E se morreu alguma vez, ressuscitou. Sua inquietude, agora, vem da falta de adagas arremessadas. Há muito não o firo - desde que a sinceridade de todas as mortes se tornou duvidosa, e isso deve incomodá-lo mais que a mim.

Esse velho é realmente o mais belo, admito num pensamento dentro de outro pensamento que está escondido num terceiro para borrar a resposta a minha pergunta. Sim, essa minha alma é bela em suas inquietudes e atuações dramáticas de falsa-morte! Porém, rir todas as vezes antes de morrer não foi inteligente, já que eu posso feri-la de fato. E para isso nem preciso ser forte... Só preciso cerrar os olhos, fechar o vão das pupilas.

12 julho 2012

POSTIGO NUM DESAMOR QUALQUER

Antes, eu era capaz de expressar em letras os meus desertos e suas dunas imensas, hospedeiras de pequenos oásis. Ontem eu conseguia revelar as florestas tropicais em mim, onde arbustos e velhas árvores abrigavam pequenas clareiras de folhas velhas, decompostas e úmidas. Discorria sobre veredas que conduziam a penhascos suicidas, de onde eu atirava torrões de terras num rio caudaloso. Com palavras eu podia dizer desse meu lago interno, profundo, sereno, frio. Dizer das cachoeiras, das vertigens, dos céus em minha mente ou dos abismos em meu peito. Podia ainda abrir um postigo e mostrar o que havia de grandioso, fulgurante e solitário em mim. Sim, em algum momento, já mostrei a você o astro amarelo aquecendo areias de uma praia vazia, onde pés descalços imprimiam rastros da fome que ardia em meus olhos. Com a escrita eu poderia mostrar meu coração, sangrando numa bandeja de prata, posta sobre pedra escura, sendo oferecido ao ser alado.

Vê? Agora, já não é preciso lápis, papel, palavras. Tuas memórias conseguem reproduzir tudo que havia em mim... E tu vês o voo rasante sobre minhas copas. Ouves o som das ondas. Ainda sentes a quentura da areia grossa, quase pedras que ferem, lancinam e onde estou quedo, desfalecido, qual moribundo sereno, fendendo em duas metades. Se estranhas teus próprios sentidos, e se aproximas, pela brecha no meu peito um espelho te revela, escancara tua face de vampiro consumindo meus desertos, florestas, rios, lago, pés, olhos e coração... Meu coração!? Este já não pulsa. Jaz dilacerado entre teus dentes e em pequenas fibras sangrentas. Então compreendes porque não posso mais revelar as paisagens em mim.

09 maio 2009

CALOTEIRO

Semana do meu casamento. Estava cheio de compromissos e ainda faltava comprar alguns móveis. Na verdade ainda estava com todos os eletrodomésticos por comprar. Foi neste clima de ansiedade e aperto que recebi uma proposta inusitada. Veio do Gérson, um colega de trabalho:

- Se você quiser, podemos fazer uma troca. Eu compro todos os eletrodomésticos que faltam na sua casa, e mais alguns que você nem pensava comprar, e você me dá sua moto.

- Como assim? Os eletrodomésticos custariam bem mais que minha moto!

- Tudo bem. Eu fico com o prejuízo.

- Bebeu?

- Fica como se fosse o meu presente de casamento. É pegar ou largar...

Peguei.

No dia seguinte fomos às compras. Eu, a futura esposa e o bom samaritano. Geladeira dúplex, fogão seis bocas automático, videocassete, televisão 29polegadas, aparelho de som, lava-roupas, secadora, microondas, lava-louças e até uma TV 14polegadas para deixar no quarto. A conta final excedeu em quase três vezes o valor da moto. Protestei:

- Pô Gérson, ficou caro demais. Não posso aceitar!

- Podemos deixar a TV 14polegadas, a lava-louças, o microondas e a secadora... - a futura esposa, barrigudinha de seis meses tentou ajeitar as coisas.

- Nem pensar! Vocês escolheram e vão levar tudo.

O amigo, a essa altura quase um irmão, não estava disposto a regatear e como diziam meus avós: "em cavalo dado não se olha os dentes"'. Aceitamos. Aquele surto de loucura poderia passar, mas se depois de algum tempo ele viesse reclamar eu pagaria metade das prestações. Sim. Tudo foi financiado em várias prestações, porém, como o salário dele não era maior que o meu cada um dos objetos rendeu um carnê de crediário distinto. Cada eletrodoméstico foi adquirido numa loja diferente.

A festa foi pequena. Gente pobre tem mania de reunir amigos e parentes em torno de um evento e chamar de festa. A alegria foi enorme. E a casa? Completa. Não faltou nenhum aparelho de utilidade doméstica. Os utensílios pequenos ficaram por conta dos parentes. Desde a panela de pressão até o tapetinho na porta de entrada, tudo veio de presente. Só em copos ganhamos dezoito jogos completos! Duas semanas depois do casamento o Gérson bateu na porta de casa. Atendi já fazendo cálculos e contas, conciliando parte das prestações com o salário que eu tinha na época. Mas ele estava sorridente. "Muita calma - pensei - espere que diga a que veio". Relaxei e esperei a ladainha. O visitante ilustre conheceu a casa, ouviu umas músicas no aparelho que ainda tinha muita prestação por vencer, assistiu os melhores lances do Corinthians na TV. Abriu várias vezes a geladeira duplex em busca de cerveja estupidamente gelada, e só então me convidou para conhecer seu carro novo, estacionado na frente da minha garagem. Fiquei surpreso ao ver o modelo zero quilometro.

Eu ainda estava em férias, talvez o Gérson tivesse ganhado uma promoção, ou então ele tinha ganhado uma bolada na loteria, ou estava metido com aqueles elementos da rua de baixo, ou... Eu quis saber de onde tinha vindo tanto dinheiro e ele não se fez de rogado:

- Pedi para ser demitido na semana do seu casamento. Peguei o FGTS, juntei com os direitos trabalhistas e deu uma boa grana. Boa parte eu dei na troca da moto por esse carrão.

- Arrumou outro emprego? - perguntei só para disfarçar minha inveja.

- Que nada. Estou de saco cheio de São Paulo. Volto amanhã para minha terra e por isso passei aqui, para dar um tchau. Não queria ir sem me despedir de você, meu colega de serviço, um puta amigo que me ajudou muito quando cheguei em Sampa.

Comovido com a demonstração de amizade eu quis esboçar um comentário, mas o Gérson não permitiu que o interrompesse e continuou:

- E também quero pedir um favor; se alguém perguntar onde estou, qual é a cidade que meus pais moram ou coisa parecida, diga que não sabe. Segura essa?

- Tudo bem, mas por que esse mistério?

- Algumas pessoas vão me procurar e não quero ser encontrado.

Pronto! Estava envolvido com os tais elementos da rua de baixo.

- Porra Gérson! Como você foi se meter nessa enrascada?

- Do que você está falando?

- Estou falando de você se envolver com traficantes.

- Bebeu? Eu estou limpo. Não me meto com bandido não!

- Então está fugindo do quê?

- Dos cobradores! Casas Bahia, Pernambucanas, Lojas Marabrás, Kolumbus, Extra... Todo mundo levando calote.

- Caralho!!!

Não é incomum que um homem converse com outro homem falando palavrão para mostrar que é homem, mas nem era esse o caso. O palavrão foi a única coisa que consegui dizer quando entendi a situação.

Ele ficou um bom tempo passeando de carro novo e fazendo sucesso com as conterrâneas, lá no nordeste. Depois vendeu o carro e juntou toda grana que tinha para montar um boteco na beira da praia. Dois anos atrás, quando os protestos/SPC-SERASA caducaram, ele me escreveu dizendo que ia deixar o pai cuidando do bar e voltar para São Paulo. Sujeito bom de conversa, boa aparência e ficha limpa na praça, não demorou muito para encontrar um bom emprego com um bom salário. Mora do outro lado da cidade e faz questão de manter a nossa amizade, por isso aceito seus convites para almoçarmos. Conversamos, bebemos, rimos e sobre o calote nem um pio. No último encontro, na saída do restaurante, olhou meu carro como se fosse um comprador e perguntou com sincero interesse:

- Você não está precisando trocar seus móveis?

Entrei no carro e fugi antes que a tentação me fizesse responder que sim
.

15 fevereiro 2007

ARROZ SEM FEIJÃO


- Trinta e sete reais e quarenta centavos. Isso já paga tudo que te devo né?

- Endoideceu homi? Lógico que tem troco. Tira aí dos cinqüenta e vê quanto você ainda me deve!

- Você quer ver o meu oco! - ele resmunga sabendo que ela tem razão.

- Tô fazendo é muito por você! O aniversário é do teu filho e eu nem devia descontar da pensão.

- Ajeita tudo nesses sacos e vamos embora.

Zé Comum e Maria Normal separaram e ela ficou com Mariazinha e Zé Filho para criar. Zé foi morar do outro lado da cidade, ele bebe além da conta, mas é bom pai e paga cinqüenta reais de pensão todos os meses. Maria se vira do jeito que pode, lava roupas, passa, faz faxina em escritório, casa, qualquer coisa que ajude a sobreviver. O filho está de aniversário e o pai veio ajudar cantar parabéns. Pela conversa dela fico sabendo que vão convidar os filhos da Rosa, prima do Zé, os meninos da Zéfina, irmã da Maria, e um ou outro moleque que estiver por perto na hora do parabéns. Já estão de saída, Zé e Maria, vieram comprar farinha, ovo e leite para o bolo; um pote de doce de leite para rechear; leite condensado e Toddy para fazer brigadeiro; cinco refrigerantes. Aproveitaram e estão levando pão, café e seis latinhas de cerveja. São boa gente. Conheço os dois desde que namoravam, dou um pacote de bexigas para enfeitar o barraco.

Ele pergunta se pode abrir uma cerveja e leva um xingo acompanhado da informação - nova para mim, que cerveja quente faz a gente mijar. Zé não diz mais nada, assunto encerrado, e enquanto arruma tudo nas sacolas plásticas, na distração, encoxa Maria.

- Homi, não encosta que estou pegando fogo!

- Vixi! Arrumou outro traste ainda não?

- Eu sou mulher de arrumar um traste seguido do outro assim? Me Respeite!

- Tá ilesa faz quanto tempo Maria?

- Desde que você foi embora ué!

Eu sei que Maria está mentindo. Anda se pegando com o Oreste, marido da Zuleide, tudo escondido, mas aqui detrás desse balcão fico prestando atenção no bairro, mais por falta de trabalho que por interesse na vida alheia. Inclusive o amante andou pagando uns atrasados da Maria aqui na venda. Só pacote de arroz ela devia três. Não me meto na vida de ninguém e finjo que não sei de nada. Zé já está nitidamente encoxando a mãe dos seus filhos. Cara de pinguço que viu cachaça.

- Oito meses só pensando besteira é? Vamos resolver isso...

Eu finjo não estar presente, os dois continuam ensacando produtos em ritmo de acasalamento, finalmente ela amansa a voz e recolhe as garras. Gata no cio.

- As crianças voltam da creche só depois das cinco e meia...

Maria topou! Mais que depresa o Zé quer ir para o barraco da ex, oferece dois dos fardos plásticos para ela levar, são cinco no total. Ela imagina o peso, coloca dengo na voz para reclamar uma dor constante no braço. Faz pose de macho, pega todas as sacolas, enfia a mão nas dez alças, o peso cortando os dedos da mão esquerda. Passa a mão livre na cintura da fêmea que se desvencilha. Ela topou, mas avisa que não quer que o povo da rua saiba. Eu penso que Maria quer é esconder do Oreste.

Dia seguinte recebo um pedaço do bolo. Agradecimento pelos balões. Maria Normal desfia maravilhas da festa e reclama da prima do Zé.

- Rosa é uma abusada, pegou o pote inteiro do Toddy para fazer os brigadeiros e não devolveu o resto, disse que não sobrou. É capaz? - tenta me meter no assunto e eu esquivo.

- Vai ver é isso mesmo.

Maria resmunga mais um pouco, pega um pacote de arroz e manda marcar, já sei que esse também fica para o Oreste acertar.

Semanas de rotina depois Maria vem, pede outro pacote de arroz e solicita o telefone do mercado, vai ligar para o Zé. Anoto mais um real na caderneta e entrego o aparelho.

- Alô, Chama o Zé pra mim?

- ...

- Isso, Zé Comum.

- ...

- Encontra ele e diz que é Maria Normal, que vou ligar novamente em cinco minutos.

Só eu e ela no mercado. Até que seria uma mulher bonita, se não fosse tão judiada. Barriga mole, peito caído, fala muito palavrão. As pernas são fortes. Oreste deve suar para dar conta desse arrozal todo. Menos de dois minutos manda marcar mais um real na conta e liga outra vez. Não é justo mas eu marco cinqüenta centavos só para não perder o costume de cobrar. O Zé já estava esperando ela não prepara terreno:

- Tenho uma notícia pra você homi. Vai ser pai outra vez, tô de três meses.

- ...

- Do Espírito Santo é que não é seu filho-da-puta!

- ...

- Faz as contas desgraçado! Zé Filho fez aniversário quando?

Conversa mais uns minutos, chora. As lágrimas secam, ameaço marcar mais um real, ela manda o Zé tomar no olho do cu e desliga. Sai pisando duro, coxas grosas, as carnes da bunda tremendo embaixo da saia de algodão.

Pelo que pesquei da conversa ele quer largar tudo lá do outro lado da cidade e vir pra cá. Acho que vai dar rolo esse assunto e penso quanto de arroz tem marcado na conta. Maria Normal some na esquina, verifico as anotações, é quinto dia útil. No final da tarde fico na porta, Oreste passa eu chamo, ele paga. Com esse tipo de gente é muito bom saber algumas notícias antes delas se espalharem.

14 setembro 2006

DANOU-SE!!!

A Polícia Ambiental de Mato Grosso do Sul utiliza um cão vivo como isca para capturar onças pintadas próximas a zona urbana da cidade de Corumbá.

Alguém precisa informar as autoridades do MS que eles estão infringindo o artigo 32 da Lei de Proteção Ambiental Nº 9.605 - 12 de fevereiro de 1998!

Os responsáveis em zelar pelo bem estar da nossa fauna são os primeiros a violar a Lei. Não podiam usar um ganso? Também não é legal, mas com um ganso–patola ficaria mais engraçado...

30 agosto 2006

FALA SÉRIO!!!

Em outubro eu devo comparecer na minha sessão eleitoral e escolher um, entre os vários candidatos ao cargo de presidente do Brasil. Acontece que não quero eleger nenhum dos concorrentes, não confio no Lula, não acredito no Alckmin, Heloísa Helena é destemperada e Cristovan Buarque é um ingênuo. Os demais são figurantes em filme trash.

Se nosso legislativo fosse formado por gente séria, eu jamais seria obrigado a sair de casa para escolher um desses que se apresentam como candidato a comandar o país durante quatro anos após janeiro de 2007. Entre exercer a cidadania por acreditar que meu voto pode melhorar a situação geral do país e votar por que sou obrigado, nem deveria existir a segunda opção! Votar não é um direito?

Em alguns países - Brasil tá no meio, o voto não é um direito, e sim uma obrigação.

A prática do voto obrigatório remonta à Grécia Antiga, quando o legislador ateniense Sólon fez aprovar uma lei específica obrigando os cidadãos a escolher um dos partidos, caso não quisessem perder seus direitos de cidadãos* ... mas naqueles tempos ser cidadão romano tinha lá suas vantagens!!!

No Brasil, o voto é obrigatório para cidadãos entre 18 e 65 anos, e opcional para cidadãos de 16/17 ou acima de 65 anos. O meu voto ser obrigatório é uma distorção, pois votar é um direito! Ninguém pode ser coagido a exercer seus direitos... lógico que perde a graça se eu falar das sanções impostas contra quem não exerce seu DIREITO de voto.


*fonte de pesquisa: Wikipédia, a enciclopédia livre.

09 junho 2006

PURO E BESTA


(autobiografia - parte 6.756 de 14.600)


Tinha dezoito anos quando cheguei em São Paulo. Não era inocente, nem puro e muito menos besta. Era alto e magro, extremamente magro, e cultivava um bigodinho ralo de menino querendo parecer homem... Talvez eu fosse um tantinho assim besta.

Peguei carona num caminhão de madeira que me deixou em Matão, interior do estado, e foi pedindo carona que me aproximei da capital. Vim para a cidade grande contra a vontade de minha mãe e desafiando meu pai que duvidava das qualidades que eu teimava possuir. Os desafios impensados seriam uma constante na minha vida – isso sei agora. Nos incolores anos oitenta eu era apenas um molecote abusado que acreditava ser capaz de sobreviver sem pedir ajuda a ninguém. Com certeza, tudo que precisava era encontrar rapidamente um emprego e mostrar que poderia, sim, viver livre de regras domésticas, de horários para chegar em casa e sem interferência paterna. Estava obstinado a não pedir socorro aos tios, avós e amigos da família que moravam em São Paulo. Começaria do zero e venceria. Num simbolismo que mascarava a fé e o medo, propus-me a decidir os rumos da nova vida exatamente no marco zero da cidade: em frente a catedral da Sé.

Desci do trem que me trouxera de Jundiaí até a Estação da Luz e caminhei, orientado por taxistas e policiais, até a praça da Sé. No marco zero decidi viver na região oeste da cidade. Não sei exatamente qual critério usei, mas lembro que era apaixonado pelas histórias de caubóis e heróis americanos que colonizaram o velho oeste. Na mochila eu carregava meia dúzia de revistas do Tex e um livro que contava a história de Wyatt Earp. Destemido como um colono americano, tomei o rumo da Rua Benjamin Constant. No primeiro ponto de ônibus solicitei maiores informações: bairro da Lapa. Subi. Alguns minutos depois desci na Rua Guaicurus, em frente ao Shopping Center Lapa. Sempre pedindo informações, cheguei na Rua Clélia e aluguei uma vaga na pensão da Dona Ziza. Se decidisse por um quarto individual com duas refeições diárias, meu dinheiro daria para um mês; se, no entanto, escolhesse dividir um quarto com mais três pessoas, e duas refeições diárias, a mesma quantia era suficiente para três meses de aluguel. Bom senso! Paguei dois meses adiantados. Dona Ziza riu quando pedi que não me devolvesse dinheiro algum mesmo que eu resolvesse ir embora antes do combinado. Era uma boa mulher e deve ter me considerado um rapaz inocente e puro.

Os três colegas de quarto eram operários que antes das cinco da manhã despertavam para o trabalho, e toda madrugada eu era acordado por ruídos e impropérios. Quando reclamava era pior. Eles debochavam me chamando de preguiçoso, mesmo sabendo que eu não precisava acordar cedo. Meu primeiro emprego foi como vendedor de sapatos na praça do Correio e meu turno de trabalho começava às quatorze horas. Invariavelmente eu retribuía os deboches da madrugada acordando-os por volta da meia-noite, hora em que chegava do trabalho. As provocações aconteceram até o dia que um deles partiu para a briga. Fizemos uma algazarra e Dona Ziza me trocou de quarto. Fiquei com um olho roxo, mas o estrago no adversário foi maior. Acredite!

Apenas onze dias após a chegada em São Paulo consegui emprego na loja de calçados. Um parente da Dona Ziza era gerente na matriz, QI é muito importante. Comecei a trabalhar, sem registro em carteira, numa filial do centro. Eu achei que a experiência de anos auxiliando papai a atender clientes no mercado da família seria o suficiente, mas não foi. Eu não era bom em vendas. Quinze dias depois de empregado cheguei na pensão e fui fazer contas. A comissão acumulada não daria para pagar nem a Dona Ziza, pois assim que comecei a trabalhar contei com o pagamento e me mudei para um quarto individual. E mais, almoçava na pensão e jantava numa lanchonete ao lado da loja. Precipitação! Se continuasse no mesmo ritmo, a lanchonete e a condução comeriam todo o ganho acumulado em um mês de vendas. Comecei a ficar desesperado. Por mais uma quinzena teria onde almoçar e dormir, mas e depois? Depois eu não tinha nem idéia, mas na hora decidi que era o caso de arrumar mais um emprego – meio período pela manhã, pensei. Ou então outro emprego em período integral perto da pensão, assim poderia eliminar a condução e economizar na refeição. A comida da Dona Ziza era bem melhor e mais barata que a da lanchonete. Pensei em milhões de possibilidades e só não pensei em desistir.

Havia uma concessionária de motos Honda bem em frente a pensão e, qual desbravador americano diante duma planície ocupada por garanhões selvagens, eu perdia alguns minutos todas as manhãs admirando aqueles cavalos modernos (terrível essa comparação, mas a biografia é minha. Não te mete!). No dia seguinte acordei cedo e fui até a loja, conversei com um funcionário e disse que gostava de motos e queria saber se tinha algum trabalho. Qualquer um. Apesar da boa vontade do sujeito, que era um dos sócios, não consegui o trabalho. Caminhando meio sem destino, fui parar no shopping Lapa. Na administração tentei, sem sucesso, um emprego. Tentei nas lojas, nada. Em quatro manhãs eu visitei todos os estabelecimentos em torno do Shopping e da pensão, sem conseguir nada. No quinto dia de procura, retornei ao meu quarto e me preparei para vender sapatos como fazia todos os dias. Estava cansado e desanimado, mas lembrei que seria dia de receber meu primeiro salário na nova vida. Quinze dias de suor seriam materializados em notas de dinheiro que me sustentariam por mais uma quinzena. Bem ou mal (ou seria mau?) o meu trabalho já estava me mantendo - pensei. Pagaria a lanchonete e compraria alguns passes de ônibus. A caminho da praça do Correio relembrava a discussão com o pai, as lágrimas da mãe, e o assombro dos irmãos enquanto eu saia de casa carregando tudo que tinha numa maleta e uma mochila. Lembrei dos parentes que moravam em São Paulo e ainda não visitara. Lembrei da a avó que morava na Freguesia do Ó, bem próximo a pensão. Lembrei tantas coisas vividas até aquele dia e me senti adulto, dono do meu destino, senhor da minha vida. Um vencedor! Esqueci do desânimo, do cansaço e também que o dinheiro a receber não seria suficiente. O ônibus sacolejava passando diante do parque da Água Branca e eu pairava feliz, acima de qualquer desconforto. Eliminando os detalhes, eu era um vencedor sorrindo para o verde do parque que ficava para trás.

Cinco da tarde, o gerente entregou um envelope contendo meu primeiro salário em São Paulo. Continuei atendendo e minha euforia, sentindo o volume do envelope no bolso da calça, contagiava até os ânimos dos clientes. Vendi bem. Ninguém que atendi saiu sem comprar ao menos um par de chinelos. Sete e meia da noite estava pronto para ir a lanchonete jantar e pagar a dívida quando entrou o ladrão. Em princípio me pareceu mais um cliente, então fiz a abordagem padrão e me coloquei a disposição para atendê-lo. Como num filme de faroeste a arma surgiu nas mãos do bandido antes que o mocinho pudesse esboçar qualquer reação. Acostumado com armas, pois desde criança que manejava cartucheiras e winchester's nas caçadas aos predadores do sítio em Minas Gerais, eu nunca tivera uma delas apontada para esse ponto bem ao centro dos olhos. Sabendo o estrago que uma arma pode causar, obedeci ao comando do assaltante e andei em direção ao caixa. A distância era pequena, mas cada vez que meus pés tocavam o solo, eu relembrava uma história da violência paulistana. Mortes brutais e gratuitas, daquelas que todos os dias apareciam estampadas em jornais e revistas, eram parte da realidade próxima de ser vivenciada. Eu não estava pronto para morrer! Eu não saíra de casa para ser assassinado numa loja do centro de São Paulo. A arma do bandido estocando minhas costelas devolvia o medo esquecido em Minas e me fazia perceber que ainda não era um homem. Era pouco mais que uma criança. Dependia sim da proteção do pai, e mais que isso, do carinho de mãe, da companhia dos irmãos. Durante todo o tempo que durou o assalto fui a primeira opção de alvo. Após retirar o dinheiro do caixa, o bandido, já com o auxílio de mais dois comparsas, começou a exigir os bens pessoais do gerente, dos clientes e dos funcionários. Nesta ordem. Senti a mão do sujeito arrancando minha carteira e acompanhei meu envelope ser passado de mão em mão até ser enfiado dentro de um saco de papel pardo. Durante a breve viagem do envelope algo se quebrou dentro de mim. Não sabia e ainda não sei bem o que era, mas ele sumindo dentro do saco pardo foi como um cair de noite repentino. Não lembro o que aconteceu em seguida, só recordo que nunca mais voltei à loja de calçados. Nem à lanchonete. A única lembrança daquela noite é ter deixado o centro da cidade no último ônibus da noite. Cheguei à pensão em silêncio para não acordar ninguém e, pela manhã, quando os operários do quarto ao lado saíram para trabalhar, eu também saí, levando todas minhas posses. Aos bens que trouxera de Minas Gerais tinha acrescentado um par de tênis. Antes das seis da manhã eu bati na porta da casa da avó, mãe do pai. Estava pedindo arrego.

27 maio 2006

BIROLO

(autobiografia - parte 4.051 de 14.600)

Na vila não tinha escola para todas as séries, só o Grupo Escolar de Ensino Primário, onde a mãe era professora. Por esse motivo eu terminei a quarta série e fiquei sem ter onde continuar os estudos. O pai não queria saber de moleque vadio dentro de casa e inventou de levar a gente para catar algodão nos vizinhos. Nosso sítio era pequeno, dois terços do ano a gente plantava arroz e no outro terço plantava milho, abóbora e feijão. Metade da colheita de arroz era vendida, a outra metade era beneficiada de ameia e alimentava a nossa família o ano inteiro. O milho e abóbora serviam de ração para galinhas, porcos e cavalos. Feijão a gente comia tudo o que colhia. Enquanto nosso arroz granava, as colheitas de algodão começavam. Então tínhamos mais de um mês para ganhar dinheiro nas roças vizinhas. O pai catava até oito arrobas por dia, eu comecei colhendo de duas a três arrobas, então, no final da primeira semana o pai avisou que o que eu catasse acima de três arrobas era dinheiro meu. Quando terminou o primeiro mês de colheita de algodão, eu catava acima de quatro arrobas! Por dia eu ganhava mais de uma arroba. Então paramos para cuidar da nossa roça, colher o nosso arroz. Deu quatro dias de corte. No quinto dia fizemos o girau de ripas e forramos embaixo, depois começamos a bater o arroz. Nas colheitas artesanais a gente pega uma moita de palha, bate o lado dos grãos na bancada feita com ripas – intercaladas a cada quatro centímetros, os grãos vão se desprendendo e caindo onde está forrado para não misturar com a terra. A palha sem grão é colocada de lado, pode ser moída e misturada na ração dos cavalos, ou então a gente guarda para colocar debaixo das flores de abóboras e melancias, para proteger o fruto que vai nascer e crescer no período das chuvas, do contato com a terra molhada. Depois de bater, recolher, ensacar e armazenar o arroz no paiol, nós retornamos para a cata de algodão alheio. O pai era esperto e disse que o que eu colhesse acima de quatro arrobas era dinheiro meu. No começo fiz corpo mole só de birra. Catava pouco mais de três arrobas por dia, mas acabou a semana e eu não vi a cor de dinheiro nenhum, então na semana seguinte eu catei algodão feito louco! Longe do pai, que dele eu não queria nem chegar perto. O pai pegava um eito e eu ia pra longe, pegava dois eitos de uma vez. Ia apanhando algodão numa rua e voltava na outra, para não perder tempo! A gente só se encontrava na hora da bóia. Ainda assim porque a mãe fazia questão de mandar nossa comida na mesma panela. O pai dividia tudo por igual em dois pratos esmaltados que vinham bem embalados para não pegar sujeira de roça. Coisa de mãe mesmo! Nessas horas eu ficava olhando com ternura para o pai, que era bem maior que eu, trabalhava mais, no entanto dividia a bóia em partes idênticas e ainda, se eu quisesse, podia escolher o prato primeiro porque o pai não comia antes de agradecer a Deus e beber um gole d’água. Geralmente ele ainda estava com a moringa nas mãos e eu já estava mastigando comida fria. Depois de duas semanas o pai começou a preparar nossas terras para o plantio de milho, coisa que só pedia esforço do cavalo e apoio de um homem controlando o arado. Eu continuei na colheita de algodão e terminei a temporada catando seis arrobas por dia. Foi com esse trabalho que comprei minha primeira bicicleta. Engraçado, lembrando disso hoje, é que eu poderia facilmente ocultar do pai o total colhido diariamente. No decorrer do dia, cada vez que enchia a saca de algodão, a gente devia levá-la para pesar e esvaziar, a cada pesagem o dono da roça emitia um bilhete com o peso aferido, bastava eu esconder os bilhetes de duas pesagens e depois receber diretamente do produtor no sábado à tarde. Mas nem me passou pela cabeça enganar o pai, todos os dias eu chegava em casa e antes do banho, do jantar ou de qualquer coisa, entregava direitinho cada um dos bilhetes. No ano seguinte o pai avisou que o que eu catasse acima de seis arrobas era dinheiro meu, ainda assim, sequer pensei em desviar um só bilhete. Sempre tive berço!

19 maio 2006

CÓRREGOS

(autobiografia - parte 3.301 de 14.600)

Minas Gerais não tem mar, isso é mais do que sabido, no entanto, ali na região do Triângulo Mineiro tem fartura de água doce. É tanto rio, ribeirão, riacho e córrego que é bem capaz de fazer inveja a qualquer região praiana. A vila em que eu morava era rodeada por água, parecia uma ilha. Além de freqüentar muito o Rio Paranaíba e o Rio Grande, que são os rios principais, algumas vezes a família inteira ia passar o domingo na beira do Rio São Domingos, ou então no Alencastro, raramente no Santa Rosa. Tinha vez de ir mais longe ainda, no Rio Bonito, então íamos de Perua. O pai tinha uma Rural, da Willis, e quando o tempo estava bom combinava de dividir combustível com outra família. Enchia a carroceria de moleques, tralhas de pesca, comidas, panelas, panos. A gente fazia festa o tempo inteiro e nem percebia que as mães sofriam nesses passeios. Saíamos de madrugada e voltávamos na boca da noite. Na volta era um cheiro de peixe dentro da perua! Só mesmo para maltratar as mães mais um pouco. Nas redondezas da vila, menos de meia légua para qualquer lado, ainda tinha uma infinidade de córregos! Cada qual com a sua função: O córrego do Chapéu era o melhor para nadar e bom de pescar Piau, Piapara e Piauçú. Isca para essas qualidades de peixes é milho verde, então a gente levava um caniço e uma espiga para disfarçar - que a mãe via perigo na fundura do córrego, e ficava mesmo era nadando a tarde inteira. Depois jogava a isca e tirava meia dúzia de Piaus e voltava para casa dizendo que o dia não estava para peixe. O córrego dos Cordeiros era o mais perto da vila e também o mais movimentado, por isso não servia para nadar nem para pescar, mas tinha serventia! Fornecia água para lavar roupas, porém, isso só do lado de cima da estrada! No lado de baixo passava cavaleiro toda hora, de vez em quando uma boiada, e sujava tudo. Eu tinha para mim que se soubessem, os cavalos e bois não beberiam água de sabão feito em casa com bucho de porco e soda, e que era uma judiação deixar os animais na inocência bebendo bucho derretido. Nunca gostei muito do córrego dos Cordeiros! O córrego do Calais era bom de pescar Lobó, Traíra e também dava para caçar Paturi no meio do brejo. O pai dizia que por ali tinha jacaré amoitado, então a gente evitava ir lá. O xodó da vila era mesmo, pelo menos para nós, moleques, o córrego da Serraria. Se lá no Chapéu tinha um poço fundo de água limpa e gelada, bom pra mergulhar de cima dos troncos, ali na Serraria era razinho e não oferecia perigo algum. Tinha até areia na margem de cá. Na margem de lá era uma pirambeira só. A gente nem precisava mentir para a mãe, todo mundo sabia que o “córgo da serraria” era lugar da molecada brincar e pegar Lambari com peneira. A mãe nem ligava se a gente dizia que ia nadar lá. Quando era tempo de cheia todas as águas ficavam barrentas e então a festa era pegar Bagres e encardir calções. A mãe não gostava não. Nessas épocas todas as mães da vila proibiam os filhos de nadarem. Ai de quem pegava caniço ou peneira dizendo que ia pescar! Daí a gente mentia que ia para outro canto, fazer outras coisas, e ia pra serraria nadar pelado!

08 maio 2006

INTIMIDADE COM LIVROS

(autobiografia - parte 2.386 de 14.600)
O LIVRO DA JUVENTUDE, Seleções Reader’s Digest – 1963, eu guardo até hoje. Depois que aprendi a juntar letrinhas em carreirinha e descobrir nelas os segredos escritos, foi um tal de ler tudo o tempo todo que para me ver quieto, sossegado em um canto, o pai me deixava pegar o livrão de capa dura, predominantemente vermelha, onde o foguete modelo Apolo antes de ir para a lua divide espaço com um índio hollywoodiano - tem ainda uns beduínos de verdade e outras figuras menores. Foi nesse livro que conheci a história de Wyatt Earp e de Cochise, o maior dos apaches. Fique sabendo que existiu um detetive chamado Sherlock Holmes e também o aterrorizante e Abominável Homem das Neves - Walt Disney e seu mundo encantado estão no livrão, mas este eu já conhecia de outras leituras promovidas pelo pai, com o intuíto de me sossegar o facho. Durante meio ano manuseei o livrão, incansável, empolgado. Acredito que foi ele, o livrão, que desenvolveu em mim o gosto pela aventura escrita e libertou a imaginação criativa. Nunca parei! Fui crescendo e desenvolvendo o gosto que era alimentado pelo pai, feliz com o filho leitor para acompanhá-lo nas tardes de chuva... Sentados no alpendre cada qual abria seu livro e ficávamos absortos. Eu com o nariz enfiado dentro de exemplares do Círculo do Livro, ele que era pastor, dedos ágeis correndo pelas páginas da bíblia. Anos depois eu sento ao lado de minha filha que, maravilhada, descobre os patinhos feios, os lobos maus, os porquinhos, os pés de feijões e a infinidade de criaturas fantásticas produzidas pela literatura infantil. Ela e eu, essa cena, evoca o passado. Busco meu livrão, vou acarinhando página por página, relembrando as leituras, a infância, o pai... meus olhos se enchem d'água. A filha vem pra cima e eu disfarço. Nem precisava, ela espicha os olhos e a curiosidade para a gravura de Cochise, o maior dos apaches, e vai tomando espaços no meu colo e se perdendo dentro do livrão aberto em minhas mãos.

02 maio 2006

CICATRIZES

(autobiografia - parte 4.386 de 14.600)

Tenho quatorze cicatrizes espalhadas pelo corpo, a maioria delas esta nas pernas, próximas aos joelhos. Uma grande, solitária, parecendo queimadura, está no braço, alojada no tríceps. Mas apesar de grande, esta não é maior do que aquela lá no tendão de Aquiles. Quase perco o pé! Começou com mordida de cobra verde, sem veneno, mas inchou tanto e acabou virando uma bolota, parecia um terceiro e bizarro osso de tornozelo, logo acima do calcanhar. A mãe tentou cuidar, fez compressa de azeite quente com folha nova de mamoneira, mas qual? Moleque não para quieto e foi assim, fazendo farra, correndo pelo algodoal, que a proteção caiu e o agrotóxico que deveria exterminar lagartas entrou pelos buracos da mordedura. Um estrago! Três meses de: Amputa, esquece! Amputa, nem pensar! A saída é amputar! Filho da puta nenhum vai tirar o pé do meu filho! E o pai que não gostava de ver a mãe falando palavrão, me trouxe na cacunda até o trem da FEPASA – Santa Fé do Sul-São Paulo. O pé ficou por três meses sendo curado na Santa Casa de Misericórdia da capital. Mãe chorou de felicidade, logo ela que tinha se desidratado nesse ínterim por conta da filha, a caçula, perdida para a meningite. Ter voltado inteiro foi das maiores alegrias que dei a ela. Contentamento pouco, logo eu estava fazendo novas artes, cortando as pernas e formando novas cicatrizes, ao todo, quatorze sobressaltos visíveis. Cada um deles pode ter afligido o coração da mãe por dobrado. Vai que esqueci algum corte, que agora anda bem fechado, pode contar sem medo de erro uns trinta sobressaltos no coração materno!

24 abril 2006

INSEGURANÇA

Num mundo perfeito eles se atrapalhariam bastante no início, mas depois de alguns minutos perceberiam que nem ele e nem ela quer dizer a palavra final, aquela que vai fazer com que ambos se virem, cada qual para uma direção, e sigam com suas respectivas compras. Então ela falaria primeiro; um comentário qualquer sobre a quantidade de macarrão instantâneo dele. O moço pensaria em dizer que é bem menos que a quantidade de preservativos dela, mas se calaria a tempo. Diria apenas que gosta de miojo, e estenderia a conversa discorrendo sobre a variedade de receitas que inventa. Estudando cada gesto, ela emparelharia os carrinhos e começaria a andar pelo corredor, devagar, apenas para distrair o restinho de tensão. Perguntaria se ele já cogitou trocar as seletas em conserva por legumes frescos e a conversa se estenderia. Quando se dessem conta, um já teria convidado para experimentar da culinária do outro. Fechariam acordo no macarrão dele temperado com os horti-naturebas dela. Aquelas camisinhas todas? O estoque dela não seria suficiente para terminar a primeira semana! Na quinta-feira iriam às compras juntos. Ela nunca mais faria ligações para Londres. Despacharia o noivo com uma foto dela se esbaldando no miojo com lingüiça. Especialidade do moço!

Tudo começa no domingo pela manhã, supermercado vazio, no corredor de massas.

Após anos de namoro-morando-junto a Lú cismou de conhecer novas possibilidades – na hora o moço não entendeu o que isso significava exatamente. Descobriu rapidinho que “novas possibilidades” era eufemismo para pé na bunda. Solteiro, sem grandes habilidades na cozinha o jeito foi se acostumar a jantar macarrão instantâneo. Raramente aceitava os convites da irmã que morava do outro lado da cidade. De segunda a sexta o almoço não era problemas, apesar de insosso, típico de refeição em grandes volumes, o cardápio era elaborado pela nutricionista da empresa. No jantar e finais de semana forrava o estômago com macarrão-água-tempero pronto. Às vezes enjoava do macarrão instantâneo e passava o fim de semana tomando vitaminas de frutas com aveia. Segunda-feira retornava ao prato-pronto na empresa e prato-rápido em casa. Nessa rotina o moço foi se especializando no miojo à moda da casa, um dia misturava com sardinhas em conserva, outro dia esperava esfriar e temperava com maionese, depois experimentou com seleta de legumes; ovos; carne moída; bacon. Após meses de experiências fazia molhos fantásticos, dignos dos melhores chef’s italianos, para incrementar seu macarrão instantâneo. Sem saber que culinária chinesa autêntica já seria ofensivo, tentou impressionar uma paquera nissei e cometeu o sacrilégio de fazer yakisoba com o miojo. Sexta-feira passada fez dois meses que a japinha saiu do apartamento prometendo ligar. Nunca ligou.

A quantidade de pacotes de macarrão instantâneo chamou a atenção da moça, também fazendo compras: “Tão bonitinho e ainda solteiro? Deve ser gay” – deduziu. Mas, como não tinha nada a ver com as preferências alimentares do moço, deu de ombros e seguiu com suas compras.

Na esquina do corredor de enlatados trombou carrinhos com o bonitinho-solteiro-gay. Esboçou um sorriso de desculpas pelo semi-atropelo e se admirou com a quantidade de latas: “Coitado, só ingere químicas”. Desviou e seguiu adiante como se a mente já estivesse no próximo item da compra, mas o pensamento cobiçava: “Boca gostosa! Merecia ser alimentada melhor” e se imaginou na Roma antiga, sem pudores, em decúbito dorsal, cortesã, ofertando uvas verdes diretamente nos lábios do bonitinho-solteiro. “Que imaginação doentia! – ela mesma se passou a reprimenda. Sempre no mundo da lua, inventando situações ridículas, sonhando acordada... Quem manda querer namorar à distância? Aquele desavergonhado deve estar se esbaldando no assanhamento das inglesas mal-amadas, loucas por um latino, moreno, cheio de ginga e tempero... Filas de branquelas sem sal e sem açúcar caindo na lábias do safado, uma por uma abrindo as pernas finas para o galinha...”.

- CACHORRO!

“Culpa da imaginação! Agora o bonitinho-gay está achando que sou uma louca”. Disfarçou e saiu empurrando o carrinho sem pegar uma só lata de conservas. Ele lá, parado, tentando entender o por quê do xingo. “Mania de falar sozinha. Preciso mesmo me cuidar! Um analista... Que terapia que nada. Preciso mesmo é de um homem. Perto! Coladinho! Juntinho, fazendo dengo, trocando carinhos, beijos... dormindo de conchinha igual a Paula. Quanto tempo faz que eu não beijo? Desde que o safado-galinha-dissimulado inventou de fazer especialização. Para ser bom fotógrafo não precisa atravessar o oceano. Quem é bom de verdade faz um curso no Senac e pronto! Tantas coisas esperando para serem fotografadas aqui no Brasil e o desgraçado vem com essa conversa fiada de curso em Londres? Durante seis meses? Ainda fala que vai passar rápido. Cachorro!”.

Na despedida o noivo dissera que seria só o tempo de acumular a saudade e o tesão... Pediu para ela ir pensando na volta, na farra que eles fariam! Seis meses depois, por telefone, informou que tinha conseguido uma bolsa para o curso mais fantástico que já tivera a oportunidade de conhecer! Desligou depois que esticou a temporada para um ano. Fazia três meses que vencera o ano e nada de retornar. O último telefonema foi para avisar que ficaria mais três meses.

“Eu tenho que subir pelas paredes mais noventa dias??? Safado, safado, safado! Tá pensando o quê? Mulher também sente falta!!! Um ano e seis meses sem dar sequer um beijinho?? Tonta! Quem manda você ser caxias, toda certinha?? Ninguém mais é fiel nesse mundo. A Paula trepou com todo mundo no departamento e ainda diz na maior-cara-de-pau que ama o marido. O trouxa nem desconfia. Certa ela! Passa a tarde inteira dando pro amante e a noite ainda tem o marido para dormir de conchinha. E eu aqui, fiel feito uma mula empacada, acumulando tesão, sendo torturada até em sonhos enquanto o canalha deve estar se esbaldando com todas aquelas branquelas, sardentas, de nariz empinado e quadril quadrado. Desgraçado! No início ligava dia sim, dia não. Agora as ligações são quinzenais e cronômetradas. Cafajeste!!!”

No corredor de higiênicos ela para de se recriminar e se concentra novamente nas compras. Vê o bonitinho-solteiro dando sopa lá no outro extremo. Como quem não quer nada, esquecida do xingo à pouco, vai empurrando seu carrinho, de olho nos produtos das gôndolas, até chegar perto. “Comprando anticaspa? Credo...” – desdenhou, mas não saiu de perto. Quando o moço dá dois passos em sua direção ela disfarça, pega alguns produtos e finge nem perceber a presença dele. De repente sente que o bonitinho a encara. Então faz pose e levanta os olhos fingindo naturalidade. Ele a encara sim, porém, com ares de assombro.

“O que é que eu fiz agora?” – pensa. Baixa os olhos para os produtos em sua mão e os dedos, involuntariamente, se abrem deixando escapar dezenas de preservativos. A mercadoria se espalha aos seus pés. “Meu Deus! Vai pensar que sou uma depravada”. Não sabe se agacha e recolhe as camisinhas ou se sai correndo, largando o carrinho e tudo. “Se não fossem os genes afros da vó Alminda o meu rosto agora estaria mais vermelho que a cabeça de um pau... JESUS-AMADO! Que tipo de comparação é essa?”. Agacha e começa a recolher os envelopes de preservativos antes que pense, ou pior, cometa mais alguma idiotice.

De repente enxerga as mãos dele ajudando, juntando envelopes. Não tem coragem de levantar os olhos, percebe quando o moço fica de pé e deposita bem uma dúzia de preservativos dentro do carrinho dela. Ela ainda de cócoras vira-se para o outro lado, pega alguns mais distantes. “Chão limpo, hora de me erguer e agradecer... Cara de paisagem! Isso, faz cara de paisagem, de mulher segura, independente... Preciso me levantar. Preciso me levantar. Preciso... LEVANTA LOGO SUA BURRA!”. O salto escorrega e quase a derruba.

O moço não sabe bem o que fazer, se a ampara, se fala algo, se vai embora. Ela o xingou de cachorro dez minutos antes, e tudo que ele estava fazendo era escolhendo uma azeitona em conservas. “Pode até ser louca, mas é uma doida encantadora”. Apesar do receio que ela lhe agrida verbalmente – “Sabe-se lá que tipo de maluca tenho pela frente”, ele sorri tentando parecer gentil.

A cara de doida-estúpida se desmancha e ela fica quieta, parece indecisa entre atirar os preservativos na cara dele ou chorar. Termina por depositar as camisinhas dentro do carrinho. "Melhor pensar que sou uma devassa que carente!"

“Putz!! Aonde é que ela vai usar tantas camisinhas?”. Distraído ele fica olhando a moça se recompor. Ela passa a mão pelos cabelos, ajeita o blusão e continua muda. “Melhor eu sair de perto” – ele decide, e já está se virando quando ela balbucia alguma coisa.

- Como?

- Nada! Quero dizer, obrigada.

- Não por isso.

“Não por isso? – ele se desespera – Estúpido, de onde foi que você tirou esse tipo de resposta? Não por isso! Isso o quê? Pensa algo melhor para dizer ou vai continuar batendo punheta por mais dois meses, seu imbecil”.

Ela já se sente menos estúpida sem saber o por que. Olha para a boca dele e pensa o quanto seria gostoso beijá-la. “Magro, alto, olhos cor de mel, dentes bonitos, as mãos são grandes, o dedo é grosso... Como é mesmo aquele funk? “...Tô ficando atoladinha/tô ficando atoladinha...”! QUIETA!! Pense em algo inteligente para dizer”.

Não pensam. O mundo não é perfeito. Ficam alguns segundos, um de frente para o outro. A moça deseja encontrar um bom motivo para não beijá-lo. Ele pensa num modo mágico de levá-la para casa, de usar com ela todas aquelas camisinhas. Ela balbucia novamente uma interjeição qualquer, se vira e vai continuar suas compras. Ele espera mais alguns segundos: "Ainda há tempo para um milagre". Nada acontece e o moço toma o rumo do caixa.

Talvez seja melhor dar chances para um final feliz...

Antes de pagar suas compras ele se dá conta que faltou pegar o requeijão. E lá no corredor de laticínios a moça está indecisa: margarina ou manteiga?

27 março 2006

COISAS QUE ENCATAM II

Eu e a Catarina no mercado:
- Pai, vamos comprar esse ovo de páscoa para a minha professora?
Eu, que devido aos preços estava tentado 'esquecer' de comprar ovo nesta páscoa, sugeri virando o carinho de compras para a banca de frutas:
- Olha que pêra mais linda! Que tal você levar uma pêra para sua professora?
- PAI!!!!! É ovo de páscoa e não ovo de pêra!

09 janeiro 2006

COISAS QUE ENCANTAM

Catarina, seis anos, aprendendo a ler. Minha companheira em sebos (sou viciado), compra livros infantis que custam centavos, quando muito reais inteiros. Vai longe essa menina!

05 janeiro 2006

COMPLICAÇÕES NO PARTO

Mesmo quando não tenho nada a dizer, sento diante do teclado e tento exercitar os neurônios e a escrita. Às vezes surge alguma idéia, ela é postada na tela e em seguida vai para os meus arquivos. Geralmente, quando sento diante do monitor, já tenho em mente o que quero escrever, a idéia vem sendo curtida desde a manhã e na calada da noite transfiro para o Word. Para quem não conhece o Word, explico: É um editor de texto com uma infinidade de funções direcionadas a facilitar o trabalho desse que vos escreve. Bem, pelo menos deveria. Acontece que o Word vem acompanhado de mais quatro ou cinco programas, e esse conjunto de software ganha o nome de Office. Todo mundo compra o pacote fechado, o Office, mas tenho certeza que oitenta por cento dos clientes usam apenas o Word, outros quinze por cento usam também, o PowerPoint (irmão do Word) e os cinco por cento restantes não usam software algum desse pacote. Uma maravilha esse sistema de venda casada. Criação do Bill Gates, aquele do windows. Após instalar o software no micro, o que demanda boa dose de coragem e tempo, além de muitos mega bites disponíveis no seu disco rígido (não se preocupe, até aqui é tudo automático, você só tem que colocar o cd-rom e aguardar), você pode clicar no ícone recém criado que uma tela em branco, como se fosse uma folha de papel, surge do nada diante dos teus olhos. É o inicio de uma bela e maravilhosa amizade. Para começar bem essa camaradagem, é preciso escolher a tipologia, ou melhor, o modelo da letra. Nem pense que é complicado, é simples. Você deve clicar na função FORMATAR (ali, na barra de ferramentas) depois escolher o comando FONTE, e então uma janela de diálogo se abre e outras infinidades de opções surgem: Tamanho, fonte, estilo da fonte, sublinhado, tachado, itálico... Se o sujeito estiver em dúvida, quanto às convicções literárias, acaba por desistir e não escreve nada, a idéia genial para o conto acaba por morrer sufocada no emaranhado de opções. Mas se o candidato persistir, acaba por definir esses detalhes que só influenciam no visual do texto (mais nada), e começa a longa viagem rumo ao céu dos escritores. A longa viagem passa pelas ferramentas; ARQUIVO, EDITAR, EXIBIR, INSERIR, FORMATAR (esse você já conhece), FERRAMENTAS, TABELA, JANELA e AJUDA. Pronto você acaba de ser apresentado para a Barra de Ferramentas Padrão do Word. Não é mole não! Só não pense que agora a coisa melhorou. Também não piorou. Só complicou. Cada função esconde dezenas de comandos em seu bojo. O FORMATAR, que você pensava conhecer tão bem esconde nada mais que 14 (eu digitei os algarismos um e quatro, ou seja, quatorze) comandos. Beleza. Dominar quatorze comandos é fácil! Ótimo que alguém pense assim, porque dentro de cada comando pode vir outras dezenas de opções embutidas. Eu já desisti de aprender noventa por cento dos serviços oferecidos dentro dessas ferramentas. Acionando o comando FONTE, você se depara com 28 (vinte e oito) subcomandos de uso. Um deles é o que escolhe a TIPOLOGIA a ser usada. Dentro dele encontrei 74 (setenta e quatro) fontes diferentes. Antes que você considere esse texto uma apologia à renúncia em escrever, esclareço que não é nada disso, quero que você seja persistente, escreva, supere todas as dificuldades e adentre ao maravilhoso mundo da criação literária, mas eu aviso que verifiquei, fiquei horas diante do micro chafurdando nos bastidores do Word (só do Word), e descobri que você pode, além de formatar seus textos de acordo com suas necessidades, formatar o software de acordo com suas preferências. Só vai ter que escolher entre 18 (dezoito) barras de ferramentas diferentes, num total de 1033 comandos. Um mil e trinta e três comandos com suas varias opções de subcomandos... Opções que não consegui somar, desculpe. Sentiu o drama de um escritor? Cada texto é um parto! O sujeito cheio de idéias (entupido mesmo) senta diante do teclado e começa a preparar seu livro. Logo de cara encontra essa multiplicação automática de escolhas. Desvia o pensamento e perde um terço da criatividade, e um quarto do tempo disponível, só para formatar o texto de acordo com suas necessidades. Isso cansa! Tanto cansa que, na maioria das vezes, o sujeito escreve uma crônica qualquer, no lugar do conto que imaginava, e vai para a rede. Estressado. Quem perde é o leitor! E nem adianta recorrer à função AJUDA disponível lá na barra de ferramentas. Essa função que deveria esclarecer metade de nossas duvidas (pelo menos metade), esconde mais quinze (quantos?) comandos em seu interior. É só clicar para se complicar!

02 janeiro 2006

ANÚNCIO

ALUGO!

Dez dedos bem dispostos e íntimos do teclado, com disponibilidade para escrever história que você não saberia contar.

Se este anúncio funcionar eu serei um excelente Ghost Writer... Interessado?

29 dezembro 2005

NOMINAIS

Ligo para o celular de minha melhor amiga, mal ela atende pergunto:

- E aí, beleza? Tudo na paz com você?
- Tudo bom, mas quem está falando?
- Não reconhece? É o Adalberto!
- Não tenho a menor idéia de quem seja!
- Então me desculpe, foi engano...
Não desligo, permaneço mudo esperando desligarem do outro lado. Ela não desliga, pelo contrário, mantém o celular empunhado, ouço a respiração dela e imagino o que se passa na cabeça dessa criatura que conheço tanto. Finalmente cai a ficha lá do outro lado:
- ABÊ???
Sorrio.
- Eu mesmo! Quem mais se chama Adalberto no seu círculo de amizades?
- Que eu saiba nem você tem esse nome. Desde que te conheço só te chamo por Absurdos ou Ab... No máximo um Beto, mas nunca imaginei que Beto viesse de Adalberto!
- Tem tudo a ver... Adalberto, Beto.
- Muito distante. Ainda se fosse Roberto, Alberto, Norberto...
- Não exagere. Adalberto também pode ser resumido para Beto.
- Trabalhei com um Dagoberto que se recusava a dizer o nome e se apresentava pelo sobrenome, Silva, quando a turma fez uma festa de fim de ano e solicitou um nome menos formal, disse que preferia ser chamado de Beto.
- Também não esculacha com meu nome, Adalberto é muito mais bonito que Dagoberto.
- Não combina com você. Muito pesado para um amigo meu... Não consigo me imaginar amiga de um Adalberto. Qual é seu sobrenome?
Não sei se ela falou sério, tanto tempo de amizade e só agora descubro que minha amiga (antes virtual e agora real), se recusa a ter amizade com um cara que tem o nome de Adalberto. Lá do outro lado da linha ela percebe que pode ter exagerado e solta uma gargalhada. Do lado de cá a minha orelha já está quente. Conversar muito pelo celular esquenta a orelha! Passo a informação que motivou a ligação, desligo e começo a pensar em nomes. Já fui chamado até de Abrangente! Mesmo assim gosto do meu nome, ele tem uma peculiaridade que sobrepuja a pompa (eu acho meu nome completo um tanto quanto pomposo), chega a ser uma preciosidade, meu nome começa no A e termina no Z.
Será que meus pais pensaram nisso quando escolheram, juntos imagino, o nome desse filho que vos escreve? Será que os pais consideram, quando estão decidindo o nome do filho, que o pobre vai carregar essa escolha por toda uma vida? Se bem que não somos obrigados a carregar nomes que nos são impostos. Os filhos da Baby Consuelo, por exemplo, cresceram e escolheram nomes diferentes dos que receberam. Aliás, a própria Baby trocou o nome, agora é Baby do Brasil. Coisa linda! Uma flor de maracujá. Linda é toda a família do Pepeu, bem resolvida, sem neuras com essa coisa de nomes:
- Mãe, vou trocar meu nome...
- Legal filha, vai nessa que espero você voltar e a gente treina a te chamar pelo novo nome.
- Tchau!
Meia hora depois a jovem retorna:
- Voltei... Agora sou Sarah Sheeva.
A porta ainda nem fechou quando chega o Pepeu:
- Consuelo, viu minha calça? Aquela com tecido feito da cannabis?
- Meu nome não é Consuelo, é Baby do Brasil!
- Ué! Que bicho mordeu sua mãe Riroca?
- A Riroca deixou de existir pai, agora meu nome é Sarah Sheeva!
- Xiiiiii... Entrei na casa errada?
A Baby, ex-Consuelo, alopra:
- Nem pense em fazer graça entrando no apartamento da frente! Acabo com você e com aquela lambisgóia oxigenada!
- Pô Baby, não encana com a vizinha... E o nome dela não é lambisgóia, é Lourdes Di Gengiba!
- Gengiba pai?
- Isso.
- Que maneiro! Se soubesse que podia ter nomes esquisitos teria trocado o meu para Bassora!
Os pais carinhosos e compreensivos esquecem a vizinha loira, abraçam e consolam a filha que ainda está em crise nominal:
- Semana que vem você troca novamente filha.
- Troca sim. Se quiser vamos te chamando de Beréba para acostumarmos.
- É Bassora mãe!
- Que seja... que seja.
Melhor ser confundido com um Dagoberto. Ou mesmo um Abrangente! Desencano e ligo para o Deco. Esse é quase um irmão e sabe todos meus nomes e apelidos.

NOTÍCIAS DO LADO DE LÁ

Morreu Juvânia. Obviamente filha de Juvenal da padaria e Vânia do lar ( numa época em que existia lar nas casas ). A morte dela me ating...