
Uma vez por semana! Em dupla ou trio, o combinado era tirar sarro nas putas da boca do lixo. Eu bolinava seios, coxas, barrigas, empatando o lucro das biscates até ser desprezado pela falta de grana. Numa dessa o amigo tinha como pagar o uso do reservado e eu, após ser expulso, fiquei esperando, vestígios de inveja na gota de tristeza, encostado ao poste na calçada. De alguma janela, bailando no ar e impossível identificar a origem, escapava o lamento cortante de Maysa:
Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem pena de mim
Uma saudade de casa! Do colo da mãe. Do abraço de uma das tantas Marias da adolescência. Maria, a última, que jurou não me esperar se eu viesse para a capital. O carro azul escuro encostou e pensei que estava estacionando, não estava, a mulher se entortou inteira para baixar o vidro e me olhar nos olhos. Deve ter perguntado se eu estava disponível, entendi ela perguntar se poderia ajudá-la e respondi que sim. Então entra. Entrar? É. Só então a ficha me caiu. Tentei explicar, mas a mulher não tinha tempo para conversas e deixou isso bem claro. Eu também não devia estar querendo me explicar direito... Maysa estava me deprimindo com sua doce melancolia. Melhor me afastar da Major Sertório. Entrei e fechei o vidro prendendo a música dentro de mim.
Não sei se me explico bem
Eu nada pedi
Sem nenhuma conversa fomos para o motel na Barra Funda, onde ela avançou sobre meu corpo como se fosse formiga carnívora. As horas passando e eu descontando nela meus meses de solidão paulistana. Tinha jeito de mulher rica. Talvez não fosse, mas ficava a impressão por culpa da cara lambida de quem atropelou o tempo. Hora eu achava estranho, hora achava feio, hora achava que estava envelhecendo com dignidade e hora a achava bonita. Nenhuma ruga, apenas dois vincos nos cantos dos lábios. Amanheceu comigo e se assustou com o sol. Como se eu fosse leproso impediu que eu me aproximasse, lavou-se, trocou-se e perguntou meu preço. Não tenho preço. Querido, até eu tenho um preço! – sibilou. Foi um engano, não faço programa. Como não? Estava esperando um amigo e você me chamou, eu vim. Pareceu que ia sorrir, mas o sorriso mordeu e os lábios assoviaram alguma felicidade. Só então notei os dentes, branquinhos... Seriam bonitos se não fosse a boca fina, quase máscula, e os cabelos grisalhos escorrendo por sobre a orelha emoldurando o rosto liso, sem as marcas do tempo drenando a mocidade de sobre a pele. Na saída o letreiro verde ainda acesso: Over Night. No peito um desafogo misturado com a sensação de pecado. De adultério! Maria se apagando na saudade e Maysa em sofrimento eterno na música de ontem.
Nem a você nem a ninguém
Não fui eu que caí
Nos encontramos outras vezes. Várias. Sempre às quintas-feiras, dez da noite, na Major Sertório. O monza parava, como se fosse estacionar, e eu entrava. Algumas vezes dizia que estava vindo de algum evento ou compromisso social e por isso o batom, forte, descabido. Eu não ligava. Sempre o mesmo motel, a mesma fome de formiga carnívora e o mesmo medo de lepra ao amanhecer. Insistia em perguntar meu preço – a língua bipartida tateando o ar. Nunca tive. Vitória mordia o riso.
Sei que você me entendeu
Sei também que não vai se importar
Dezenas de quintas-feiras depois ela faltou. Fiquei até quase sexta-feira esperando, um frio! Era 1985 e ainda existia garoa em São Paulo, depois foi se acabando e nunca mais garoou. Eu já esquecera as Marias de Minas Gerais e fora esquecido pela Maria, a última, que cumpriu a jura se casando com alguém que não viria para a capital, não freqüentaria a Major Sertório nem empataria serviço de puta. Também não encontraria o fantasma de Maysa surfando em acordes pela garoa paulistana.
Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar
Fui embora. Corpo em brasa, abstinência de formiga carnívora. Jamais voltei à boca do lixo numa quinta-feira. Era pouco mais homem. Sabia Nada! Nem a certeza se o nome dela era mesmo Vitória. Capaz que fosse.
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