24 abril 2006

INSEGURANÇA

Num mundo perfeito eles se atrapalhariam bastante no início, mas depois de alguns minutos perceberiam que nem ele e nem ela quer dizer a palavra final, aquela que vai fazer com que ambos se virem, cada qual para uma direção, e sigam com suas respectivas compras. Então ela falaria primeiro; um comentário qualquer sobre a quantidade de macarrão instantâneo dele. O moço pensaria em dizer que é bem menos que a quantidade de preservativos dela, mas se calaria a tempo. Diria apenas que gosta de miojo, e estenderia a conversa discorrendo sobre a variedade de receitas que inventa. Estudando cada gesto, ela emparelharia os carrinhos e começaria a andar pelo corredor, devagar, apenas para distrair o restinho de tensão. Perguntaria se ele já cogitou trocar as seletas em conserva por legumes frescos e a conversa se estenderia. Quando se dessem conta, um já teria convidado para experimentar da culinária do outro. Fechariam acordo no macarrão dele temperado com os horti-naturebas dela. Aquelas camisinhas todas? O estoque dela não seria suficiente para terminar a primeira semana! Na quinta-feira iriam às compras juntos. Ela nunca mais faria ligações para Londres. Despacharia o noivo com uma foto dela se esbaldando no miojo com lingüiça. Especialidade do moço!

Tudo começa no domingo pela manhã, supermercado vazio, no corredor de massas.

Após anos de namoro-morando-junto a Lú cismou de conhecer novas possibilidades – na hora o moço não entendeu o que isso significava exatamente. Descobriu rapidinho que “novas possibilidades” era eufemismo para pé na bunda. Solteiro, sem grandes habilidades na cozinha o jeito foi se acostumar a jantar macarrão instantâneo. Raramente aceitava os convites da irmã que morava do outro lado da cidade. De segunda a sexta o almoço não era problemas, apesar de insosso, típico de refeição em grandes volumes, o cardápio era elaborado pela nutricionista da empresa. No jantar e finais de semana forrava o estômago com macarrão-água-tempero pronto. Às vezes enjoava do macarrão instantâneo e passava o fim de semana tomando vitaminas de frutas com aveia. Segunda-feira retornava ao prato-pronto na empresa e prato-rápido em casa. Nessa rotina o moço foi se especializando no miojo à moda da casa, um dia misturava com sardinhas em conserva, outro dia esperava esfriar e temperava com maionese, depois experimentou com seleta de legumes; ovos; carne moída; bacon. Após meses de experiências fazia molhos fantásticos, dignos dos melhores chef’s italianos, para incrementar seu macarrão instantâneo. Sem saber que culinária chinesa autêntica já seria ofensivo, tentou impressionar uma paquera nissei e cometeu o sacrilégio de fazer yakisoba com o miojo. Sexta-feira passada fez dois meses que a japinha saiu do apartamento prometendo ligar. Nunca ligou.

A quantidade de pacotes de macarrão instantâneo chamou a atenção da moça, também fazendo compras: “Tão bonitinho e ainda solteiro? Deve ser gay” – deduziu. Mas, como não tinha nada a ver com as preferências alimentares do moço, deu de ombros e seguiu com suas compras.

Na esquina do corredor de enlatados trombou carrinhos com o bonitinho-solteiro-gay. Esboçou um sorriso de desculpas pelo semi-atropelo e se admirou com a quantidade de latas: “Coitado, só ingere químicas”. Desviou e seguiu adiante como se a mente já estivesse no próximo item da compra, mas o pensamento cobiçava: “Boca gostosa! Merecia ser alimentada melhor” e se imaginou na Roma antiga, sem pudores, em decúbito dorsal, cortesã, ofertando uvas verdes diretamente nos lábios do bonitinho-solteiro. “Que imaginação doentia! – ela mesma se passou a reprimenda. Sempre no mundo da lua, inventando situações ridículas, sonhando acordada... Quem manda querer namorar à distância? Aquele desavergonhado deve estar se esbaldando no assanhamento das inglesas mal-amadas, loucas por um latino, moreno, cheio de ginga e tempero... Filas de branquelas sem sal e sem açúcar caindo na lábias do safado, uma por uma abrindo as pernas finas para o galinha...”.

- CACHORRO!

“Culpa da imaginação! Agora o bonitinho-gay está achando que sou uma louca”. Disfarçou e saiu empurrando o carrinho sem pegar uma só lata de conservas. Ele lá, parado, tentando entender o por quê do xingo. “Mania de falar sozinha. Preciso mesmo me cuidar! Um analista... Que terapia que nada. Preciso mesmo é de um homem. Perto! Coladinho! Juntinho, fazendo dengo, trocando carinhos, beijos... dormindo de conchinha igual a Paula. Quanto tempo faz que eu não beijo? Desde que o safado-galinha-dissimulado inventou de fazer especialização. Para ser bom fotógrafo não precisa atravessar o oceano. Quem é bom de verdade faz um curso no Senac e pronto! Tantas coisas esperando para serem fotografadas aqui no Brasil e o desgraçado vem com essa conversa fiada de curso em Londres? Durante seis meses? Ainda fala que vai passar rápido. Cachorro!”.

Na despedida o noivo dissera que seria só o tempo de acumular a saudade e o tesão... Pediu para ela ir pensando na volta, na farra que eles fariam! Seis meses depois, por telefone, informou que tinha conseguido uma bolsa para o curso mais fantástico que já tivera a oportunidade de conhecer! Desligou depois que esticou a temporada para um ano. Fazia três meses que vencera o ano e nada de retornar. O último telefonema foi para avisar que ficaria mais três meses.

“Eu tenho que subir pelas paredes mais noventa dias??? Safado, safado, safado! Tá pensando o quê? Mulher também sente falta!!! Um ano e seis meses sem dar sequer um beijinho?? Tonta! Quem manda você ser caxias, toda certinha?? Ninguém mais é fiel nesse mundo. A Paula trepou com todo mundo no departamento e ainda diz na maior-cara-de-pau que ama o marido. O trouxa nem desconfia. Certa ela! Passa a tarde inteira dando pro amante e a noite ainda tem o marido para dormir de conchinha. E eu aqui, fiel feito uma mula empacada, acumulando tesão, sendo torturada até em sonhos enquanto o canalha deve estar se esbaldando com todas aquelas branquelas, sardentas, de nariz empinado e quadril quadrado. Desgraçado! No início ligava dia sim, dia não. Agora as ligações são quinzenais e cronômetradas. Cafajeste!!!”

No corredor de higiênicos ela para de se recriminar e se concentra novamente nas compras. Vê o bonitinho-solteiro dando sopa lá no outro extremo. Como quem não quer nada, esquecida do xingo à pouco, vai empurrando seu carrinho, de olho nos produtos das gôndolas, até chegar perto. “Comprando anticaspa? Credo...” – desdenhou, mas não saiu de perto. Quando o moço dá dois passos em sua direção ela disfarça, pega alguns produtos e finge nem perceber a presença dele. De repente sente que o bonitinho a encara. Então faz pose e levanta os olhos fingindo naturalidade. Ele a encara sim, porém, com ares de assombro.

“O que é que eu fiz agora?” – pensa. Baixa os olhos para os produtos em sua mão e os dedos, involuntariamente, se abrem deixando escapar dezenas de preservativos. A mercadoria se espalha aos seus pés. “Meu Deus! Vai pensar que sou uma depravada”. Não sabe se agacha e recolhe as camisinhas ou se sai correndo, largando o carrinho e tudo. “Se não fossem os genes afros da vó Alminda o meu rosto agora estaria mais vermelho que a cabeça de um pau... JESUS-AMADO! Que tipo de comparação é essa?”. Agacha e começa a recolher os envelopes de preservativos antes que pense, ou pior, cometa mais alguma idiotice.

De repente enxerga as mãos dele ajudando, juntando envelopes. Não tem coragem de levantar os olhos, percebe quando o moço fica de pé e deposita bem uma dúzia de preservativos dentro do carrinho dela. Ela ainda de cócoras vira-se para o outro lado, pega alguns mais distantes. “Chão limpo, hora de me erguer e agradecer... Cara de paisagem! Isso, faz cara de paisagem, de mulher segura, independente... Preciso me levantar. Preciso me levantar. Preciso... LEVANTA LOGO SUA BURRA!”. O salto escorrega e quase a derruba.

O moço não sabe bem o que fazer, se a ampara, se fala algo, se vai embora. Ela o xingou de cachorro dez minutos antes, e tudo que ele estava fazendo era escolhendo uma azeitona em conservas. “Pode até ser louca, mas é uma doida encantadora”. Apesar do receio que ela lhe agrida verbalmente – “Sabe-se lá que tipo de maluca tenho pela frente”, ele sorri tentando parecer gentil.

A cara de doida-estúpida se desmancha e ela fica quieta, parece indecisa entre atirar os preservativos na cara dele ou chorar. Termina por depositar as camisinhas dentro do carrinho. "Melhor pensar que sou uma devassa que carente!"

“Putz!! Aonde é que ela vai usar tantas camisinhas?”. Distraído ele fica olhando a moça se recompor. Ela passa a mão pelos cabelos, ajeita o blusão e continua muda. “Melhor eu sair de perto” – ele decide, e já está se virando quando ela balbucia alguma coisa.

- Como?

- Nada! Quero dizer, obrigada.

- Não por isso.

“Não por isso? – ele se desespera – Estúpido, de onde foi que você tirou esse tipo de resposta? Não por isso! Isso o quê? Pensa algo melhor para dizer ou vai continuar batendo punheta por mais dois meses, seu imbecil”.

Ela já se sente menos estúpida sem saber o por que. Olha para a boca dele e pensa o quanto seria gostoso beijá-la. “Magro, alto, olhos cor de mel, dentes bonitos, as mãos são grandes, o dedo é grosso... Como é mesmo aquele funk? “...Tô ficando atoladinha/tô ficando atoladinha...”! QUIETA!! Pense em algo inteligente para dizer”.

Não pensam. O mundo não é perfeito. Ficam alguns segundos, um de frente para o outro. A moça deseja encontrar um bom motivo para não beijá-lo. Ele pensa num modo mágico de levá-la para casa, de usar com ela todas aquelas camisinhas. Ela balbucia novamente uma interjeição qualquer, se vira e vai continuar suas compras. Ele espera mais alguns segundos: "Ainda há tempo para um milagre". Nada acontece e o moço toma o rumo do caixa.

Talvez seja melhor dar chances para um final feliz...

Antes de pagar suas compras ele se dá conta que faltou pegar o requeijão. E lá no corredor de laticínios a moça está indecisa: margarina ou manteiga?

27 março 2006

COISAS QUE ENCATAM II

Eu e a Catarina no mercado:
- Pai, vamos comprar esse ovo de páscoa para a minha professora?
Eu, que devido aos preços estava tentado 'esquecer' de comprar ovo nesta páscoa, sugeri virando o carinho de compras para a banca de frutas:
- Olha que pêra mais linda! Que tal você levar uma pêra para sua professora?
- PAI!!!!! É ovo de páscoa e não ovo de pêra!

09 janeiro 2006

COISAS QUE ENCANTAM

Catarina, seis anos, aprendendo a ler. Minha companheira em sebos (sou viciado), compra livros infantis que custam centavos, quando muito reais inteiros. Vai longe essa menina!

05 janeiro 2006

COMPLICAÇÕES NO PARTO

Mesmo quando não tenho nada a dizer, sento diante do teclado e tento exercitar os neurônios e a escrita. Às vezes surge alguma idéia, ela é postada na tela e em seguida vai para os meus arquivos. Geralmente, quando sento diante do monitor, já tenho em mente o que quero escrever, a idéia vem sendo curtida desde a manhã e na calada da noite transfiro para o Word. Para quem não conhece o Word, explico: É um editor de texto com uma infinidade de funções direcionadas a facilitar o trabalho desse que vos escreve. Bem, pelo menos deveria. Acontece que o Word vem acompanhado de mais quatro ou cinco programas, e esse conjunto de software ganha o nome de Office. Todo mundo compra o pacote fechado, o Office, mas tenho certeza que oitenta por cento dos clientes usam apenas o Word, outros quinze por cento usam também, o PowerPoint (irmão do Word) e os cinco por cento restantes não usam software algum desse pacote. Uma maravilha esse sistema de venda casada. Criação do Bill Gates, aquele do windows. Após instalar o software no micro, o que demanda boa dose de coragem e tempo, além de muitos mega bites disponíveis no seu disco rígido (não se preocupe, até aqui é tudo automático, você só tem que colocar o cd-rom e aguardar), você pode clicar no ícone recém criado que uma tela em branco, como se fosse uma folha de papel, surge do nada diante dos teus olhos. É o inicio de uma bela e maravilhosa amizade. Para começar bem essa camaradagem, é preciso escolher a tipologia, ou melhor, o modelo da letra. Nem pense que é complicado, é simples. Você deve clicar na função FORMATAR (ali, na barra de ferramentas) depois escolher o comando FONTE, e então uma janela de diálogo se abre e outras infinidades de opções surgem: Tamanho, fonte, estilo da fonte, sublinhado, tachado, itálico... Se o sujeito estiver em dúvida, quanto às convicções literárias, acaba por desistir e não escreve nada, a idéia genial para o conto acaba por morrer sufocada no emaranhado de opções. Mas se o candidato persistir, acaba por definir esses detalhes que só influenciam no visual do texto (mais nada), e começa a longa viagem rumo ao céu dos escritores. A longa viagem passa pelas ferramentas; ARQUIVO, EDITAR, EXIBIR, INSERIR, FORMATAR (esse você já conhece), FERRAMENTAS, TABELA, JANELA e AJUDA. Pronto você acaba de ser apresentado para a Barra de Ferramentas Padrão do Word. Não é mole não! Só não pense que agora a coisa melhorou. Também não piorou. Só complicou. Cada função esconde dezenas de comandos em seu bojo. O FORMATAR, que você pensava conhecer tão bem esconde nada mais que 14 (eu digitei os algarismos um e quatro, ou seja, quatorze) comandos. Beleza. Dominar quatorze comandos é fácil! Ótimo que alguém pense assim, porque dentro de cada comando pode vir outras dezenas de opções embutidas. Eu já desisti de aprender noventa por cento dos serviços oferecidos dentro dessas ferramentas. Acionando o comando FONTE, você se depara com 28 (vinte e oito) subcomandos de uso. Um deles é o que escolhe a TIPOLOGIA a ser usada. Dentro dele encontrei 74 (setenta e quatro) fontes diferentes. Antes que você considere esse texto uma apologia à renúncia em escrever, esclareço que não é nada disso, quero que você seja persistente, escreva, supere todas as dificuldades e adentre ao maravilhoso mundo da criação literária, mas eu aviso que verifiquei, fiquei horas diante do micro chafurdando nos bastidores do Word (só do Word), e descobri que você pode, além de formatar seus textos de acordo com suas necessidades, formatar o software de acordo com suas preferências. Só vai ter que escolher entre 18 (dezoito) barras de ferramentas diferentes, num total de 1033 comandos. Um mil e trinta e três comandos com suas varias opções de subcomandos... Opções que não consegui somar, desculpe. Sentiu o drama de um escritor? Cada texto é um parto! O sujeito cheio de idéias (entupido mesmo) senta diante do teclado e começa a preparar seu livro. Logo de cara encontra essa multiplicação automática de escolhas. Desvia o pensamento e perde um terço da criatividade, e um quarto do tempo disponível, só para formatar o texto de acordo com suas necessidades. Isso cansa! Tanto cansa que, na maioria das vezes, o sujeito escreve uma crônica qualquer, no lugar do conto que imaginava, e vai para a rede. Estressado. Quem perde é o leitor! E nem adianta recorrer à função AJUDA disponível lá na barra de ferramentas. Essa função que deveria esclarecer metade de nossas duvidas (pelo menos metade), esconde mais quinze (quantos?) comandos em seu interior. É só clicar para se complicar!

02 janeiro 2006

ANÚNCIO

ALUGO!

Dez dedos bem dispostos e íntimos do teclado, com disponibilidade para escrever história que você não saberia contar.

Se este anúncio funcionar eu serei um excelente Ghost Writer... Interessado?

31 dezembro 2005

ESTHER

Depois de muito tempo eu até considerava o Dionleno um cara bacana, mesmo assim nunca dei trela a esse portador de aberração no registro de nascimento. Os pais analfabetos se encantaram com a música gringa martelada na vitrola do bailinho onde se conheceram. Não deu outra, marcaram casamento e combinaram que o primeiro filho receberia o nome do cantor que embalou os primeiros beijos. Tudo bem que o pai não sabia a grafia, a mãe repetiu de memória o nome do cantor ao escrivão, que não tinha tempo para futilidades e mais que depressa eternizou a intenção. Foi assim que surgiu o Dionleno, que até parece um cara bacana, mas também é bizarromônimo de John Lennon e ladrão de mulher. Dionleno aprendeu cedo a se defender das gozações feitas com seu nome, respondia fazendo graça e de tanto treinar ficou engraçado de vez. Fez disso uma profissão e foi trabalhar no circo. Palhaço para honra e glória do vilarejo que nunca mais soube dele, foi fazer fama na capital, depois no sul e ninguém mais soube onde. Mas Dionleno acabou em Minas Gerais, deu flor de plástico para Esther, mocinha com agá no meio do nome e olhos verdes na cara. Quando ela sorria fechava um pouquinho os olhos e abria um montão a boca vermelha de batom. Eu queria virar, junto com ela, estátua de Michelangelo em mármore branco e para sempre ter Esther sorrindo de frente para mim. Se Esther me beijava acontecia um furacão no meu peito, uma quentura no estômago, um arrepio se alastrando, roupa incomodando. A mesma sensação dos anjinhos na pintura humorada - talvez Piero di Cosimo, dois peladinhos com a bunda rosada selando os lábios. Mas o circo chegou! Não éramos ainda estátuas, nem anjinhos pelados, apenas bons namorados andando de mãos dadas no dia de estréia. Tinha o palhaço e também malabarista, um leão magro desengonçado, uma zebra só osso e outros esqueletos enjaulados. Judiação! Nunca chorei tanto, escondido, raivoso, querendo dar fim no palhaço banguela de cabelos azuis, boca amarela e nariz vermelho. "E o palhaço o que é?"... - Vai te embora sozinho, diacho de ladrão desgraçado, deixe minha Esther! Não teve jeito, quando a lona foi arriada ela também foi embora, coração enjaulado feito animal feroz, magro, faminto de estrada e de Dionleno. Esther voltou anos depois, fome apaziguada, na mão um menino e no colo outra cria. No ar, talvez dum rádio, a música STAND BY ME dando as boas vindas ao palhaço de cara limpa, nariz descolorido, boca endentada, duas malas nas mãos. Veio morar com a sogra, minha vizinha. Demorou pouco para eu perceber que minha dor, tantas vezes chorada, nem mesmo existia. E por cima do muro Esther esboçava um sorriso me olhando com seus dois olhos verdes, mas eu já não via neles a menor graça. Diacho! Achar graça eu até achava... Porém, outra coisa que eu achava é que o Dionleno parecia um cara bacana. Nunca dei trela. Nem pra ele nem para ela.

29 dezembro 2005

NOMINAIS

Ligo para o celular de minha melhor amiga, mal ela atende pergunto:

- E aí, beleza? Tudo na paz com você?
- Tudo bom, mas quem está falando?
- Não reconhece? É o Adalberto!
- Não tenho a menor idéia de quem seja!
- Então me desculpe, foi engano...
Não desligo, permaneço mudo esperando desligarem do outro lado. Ela não desliga, pelo contrário, mantém o celular empunhado, ouço a respiração dela e imagino o que se passa na cabeça dessa criatura que conheço tanto. Finalmente cai a ficha lá do outro lado:
- ABÊ???
Sorrio.
- Eu mesmo! Quem mais se chama Adalberto no seu círculo de amizades?
- Que eu saiba nem você tem esse nome. Desde que te conheço só te chamo por Absurdos ou Ab... No máximo um Beto, mas nunca imaginei que Beto viesse de Adalberto!
- Tem tudo a ver... Adalberto, Beto.
- Muito distante. Ainda se fosse Roberto, Alberto, Norberto...
- Não exagere. Adalberto também pode ser resumido para Beto.
- Trabalhei com um Dagoberto que se recusava a dizer o nome e se apresentava pelo sobrenome, Silva, quando a turma fez uma festa de fim de ano e solicitou um nome menos formal, disse que preferia ser chamado de Beto.
- Também não esculacha com meu nome, Adalberto é muito mais bonito que Dagoberto.
- Não combina com você. Muito pesado para um amigo meu... Não consigo me imaginar amiga de um Adalberto. Qual é seu sobrenome?
Não sei se ela falou sério, tanto tempo de amizade e só agora descubro que minha amiga (antes virtual e agora real), se recusa a ter amizade com um cara que tem o nome de Adalberto. Lá do outro lado da linha ela percebe que pode ter exagerado e solta uma gargalhada. Do lado de cá a minha orelha já está quente. Conversar muito pelo celular esquenta a orelha! Passo a informação que motivou a ligação, desligo e começo a pensar em nomes. Já fui chamado até de Abrangente! Mesmo assim gosto do meu nome, ele tem uma peculiaridade que sobrepuja a pompa (eu acho meu nome completo um tanto quanto pomposo), chega a ser uma preciosidade, meu nome começa no A e termina no Z.
Será que meus pais pensaram nisso quando escolheram, juntos imagino, o nome desse filho que vos escreve? Será que os pais consideram, quando estão decidindo o nome do filho, que o pobre vai carregar essa escolha por toda uma vida? Se bem que não somos obrigados a carregar nomes que nos são impostos. Os filhos da Baby Consuelo, por exemplo, cresceram e escolheram nomes diferentes dos que receberam. Aliás, a própria Baby trocou o nome, agora é Baby do Brasil. Coisa linda! Uma flor de maracujá. Linda é toda a família do Pepeu, bem resolvida, sem neuras com essa coisa de nomes:
- Mãe, vou trocar meu nome...
- Legal filha, vai nessa que espero você voltar e a gente treina a te chamar pelo novo nome.
- Tchau!
Meia hora depois a jovem retorna:
- Voltei... Agora sou Sarah Sheeva.
A porta ainda nem fechou quando chega o Pepeu:
- Consuelo, viu minha calça? Aquela com tecido feito da cannabis?
- Meu nome não é Consuelo, é Baby do Brasil!
- Ué! Que bicho mordeu sua mãe Riroca?
- A Riroca deixou de existir pai, agora meu nome é Sarah Sheeva!
- Xiiiiii... Entrei na casa errada?
A Baby, ex-Consuelo, alopra:
- Nem pense em fazer graça entrando no apartamento da frente! Acabo com você e com aquela lambisgóia oxigenada!
- Pô Baby, não encana com a vizinha... E o nome dela não é lambisgóia, é Lourdes Di Gengiba!
- Gengiba pai?
- Isso.
- Que maneiro! Se soubesse que podia ter nomes esquisitos teria trocado o meu para Bassora!
Os pais carinhosos e compreensivos esquecem a vizinha loira, abraçam e consolam a filha que ainda está em crise nominal:
- Semana que vem você troca novamente filha.
- Troca sim. Se quiser vamos te chamando de Beréba para acostumarmos.
- É Bassora mãe!
- Que seja... que seja.
Melhor ser confundido com um Dagoberto. Ou mesmo um Abrangente! Desencano e ligo para o Deco. Esse é quase um irmão e sabe todos meus nomes e apelidos.

26 dezembro 2005

ANA


O nome dela começava com a letra r, de Rosana. Mas Ana não achava graça alguma em rosas, por isso eliminou a Rosa do próprio nome e continuou preferindo margaridas.
Ela mesma confessou que gostou de mim quando deixei escapar na sala de aula a predileção por margaridas. Eu sempre tive muita sorte com frases soltas. Já no intervalo Ana me insinuou calores em seu corpo magro de busto e ancas retas. Da amizade para o namoro bastou o primeiro de maio despetalando girassóis num mal-me-quer-bem-me-quer. No oitavo girassol, bem antes das pétalas todas serem arrancadas, concordamos que nosso tempo seria bem melhor aproveitado se desistissímos do sortilégio e arrancássemos mutuamente camisas, calças e suspiros. Deixamos em paz as pétalas e ficamos algum tempo ocupados com nossas peles, nossas bocas, nossos corpos leves, magriços.
Trocamos margaridas no dia dos namorados, nas férias, no dia dos pais, no sete de setembro, dia das crianças, finados, natal, ano novo e carnaval. A cada nova data de feriado, uma flor e uma carta de amor, sem propositos, sem intenções. Gestos de quem distribui comida aos pássaros, sem esperar retorno. Mas quando uma margarida chegava para mim, era como se um pássaro pousasse no meu ombro, não conseguia impedir a lágrimazinha, teimosa, ignorando a ordem para que permanecesse no fundo do olho esquerdo. E foi assim durante três estações inteiras, então era outra vez outono com sua ausência de flores. Azar do girassol que Ana despetalou durante a páscoa tentando descobrir se eu ainda a bem queria.
Eu não a mal queria, porém mais bem queria outra garota... Julia, de seios redondos e quadris bem fornidos, com predileção clara para o vaso repleto de trevo de quatro folhas.
Ana não tinha sorte o bastante. Na última pétala deu mal-me-quer.

09 outubro 2004

SABEDORIA

José Antero daSilva sendo entrevistado por ocasião do centésimo sexto aniversário:

- Sr. Antero, o que é melhor em completar 106 anos?
- É ter a sexta geração de descendentes cantando o parabéns. Aquele menino ali é meu tatataraneto, tem quatro anos.
- E o pior Seu Antero?
- Não ter nenhum dos amigos de infância para ajudar a soprar as cento e seis velinhas.

21 agosto 2003

PRETENSÃO

As vezes encontro pensamentos meus abandonados por aí, sem que eu os tenha escrito... No geral a autoria é dedicada a um estranho, ou conhecido, tanto faz, importa apenas que o pensamento é meu.

"Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício, acho medonho alguem viver sem paixões."
- Graciliano Ramos

27 junho 2003

BOA NOVA!!!

Vou praticar rapel. Treinamento com Policiais Bombeiro, gente que sabe o que faz. Nâo é por esporte, por curiosidade ou por diversâo, o motivo é mais espiritual. Quando morrer quero ir para o céu.

Nâo entendeu?

Ora! Nâo posso ir pro céu com esse meu medo de altura...

18 fevereiro 2003

NUMERANDO...

Fome zero
A número um!
Dois irmãos
Três Marias
Ficou de quatro
Deu cinco minutos nele
SEIS! Ladrão dos meus tentos

Sete pecados capitais
Bola oito
Nove dedos
Camisa dez
Primeiro escalão
Segundo tempo
Terceiro mundo

Quarto poder
Quinto elemento

Sexto sentido
Sétimo selo
Oitavo cartório
Nono, dove stá la Nona?

Sei lá qual era minha intenção... Parei.

16 fevereiro 2003

HORA DE DORMIR

hora de dormir

corpos lavados
exalam odores
que cerram os olhos
e espantam o sono

cama feita

hora de deitar
o corpo sente
na boca faminta
a barba por fazer

sono vem

calor e arrepio!
lençóis amassados
secando suores
de corpos lavados

noite ainda.

respiração cansada
avisando que, enfim,

amanheceu
hora de dormir.

13 fevereiro 2003

CORES

(plagiando, talvez, a música)

Há inúmeras cores e formas de amor
e até gosto do amor na cor azul,
mas nessa cartela de cores, prefiro
amor com pecado. Ele é rouge carmim!

ACHO QUE É DO ZIRALDO

Poeta de sorte

Eu não sei fazer rima
faço verso com o pé quebrado
sorte é que Deus, lá de cima,
proteje tudo que é desajeitado

25 fevereiro 2002

FIZ 37

Agradeço aos votos de felicidades por conta do meu aniversário, e já que tanta gente foi gentil comigo neste 25/02/2002 eu vou contar uma piada:

Duas formigas japonesas se encontraram no meio da rua:
- Qual o seu nome?
- Fu.
- Fu o que?
- Fu Miga
- E o seu?
- Ota.
- Ota o que?
- Ota Fu Miga.


Beijos em todos!

23 outubro 2001

DÉCADA DE 80/90

Hoje eu descobri que saudade é mensurável... tô com muita saudade de andar de moto na chuva. Sentindo as gotas batendo no rosto como se fossem agulhas. Andar de olhos fechados com risco de acidente, mas com a adrenalina aquecendo o sangue e ampliando a sensação de liberdade... Aquela liberdade de ficar pelas ruas molhando lenços e documentos.

SINOPSE

Diálogo que eu vi num filme enquanto zapeava na TV:
(mocinha bonitinha) - Você quer se casar comigo?
(mocinho já velhinho) - Sharon, eu tenho idade para ser seu pai!
(Sharon golpedobaú) - Watt, você tem idade para ser meu avô! Agora responde a minha pergunta.
(véio rico babando) - Quero!
Desliguei a TV e vim escrever... Já entendi o filme todo.

13 outubro 2001

20 maio 2001

TEJE INAUGURADO!

Lá vou eu, dar a cara a tapa!

Leia-se: "Teje inaugurado meu blog à visitação pública!"

NOTÍCIAS DO LADO DE LÁ

Morreu Juvânia. Obviamente filha de Juvenal da padaria e Vânia do lar ( numa época em que existia lar nas casas ). A morte dela me ating...